O “cachorro” que ladra (e o que não ladra)

Dependendo do político, certos comentários podem ser encarados pela imprensa como gravíssimos, enquanto denúncias graves podem não receber maior atenção.

 
Ontem um Senador da República chamado Roberto Requião (PMDB) utilizou a seguinte expressão contra declarações do jornalista Ricardo Boechat: "se for mordido por cachorro, bata no dono!" Declarações complementadas por seu twitter: "Se for mordido por cachorro, bata no dono do cachorro. Agora, se o cão for vira-lata, d vielas e sem dono, bata no cachorro!"
 
Requião tem fama de ser "osso duro". Ele mesmo recebeu severas críticas – inclusive de Boechat – quando utilizou expressões relacionadas a "bater" ou "apanhar" com outros jornalistas. O que parece curioso é: a "deixa" está dada, voilà  um motivo para novas reprovações públicas contra o senador.
 
Mas o propósito desse post não é comentar Requião, mas o jornalismo. Pois, se faz sentido conceber um Boechat criando novas pautas contra Requião (pois no fim das contas senadores em tese não deveriam utilizar tais palavras e ao fazer isso Requião abre a guarda, com razão ou não), é importante notar, praticamente no mesmo dia, certos setores da imprensa sendo muito mais brandos para com ações muito mais graves de outros políticos.
 
Hoje, durante o Paraná TV Primeira Edição (da Globo), boa parte do jornal se dedicou aos protestos contra o nepotismo na Câmara de Vereadores de Curitiba. O presidente da Câmara, João Claudio Derosso (PSDB) beneficiou por meio de contratos, nomeações ou privilégios, a pessoa de ou empresas ligadas a sua esposa, sogra e cunhada. Desde alguns dias há diversos protestos em torno da Câmara para que Derosso preste contas sobre o que fez.
 
A Globo (RPC) se juntou ao coro. Foi aparente o gesto de pressão da emissora para submeter Derosso ao Conselho de Ética e outros trâmites públicos da Câmara. A RPC mostrou publicamente a lista dos vereadores contrários à apuração do caso, gesto tácito de pressão popular para que esses vereadores mudem de posição e se coloquem a favor.
 
E a RPC também procurou o governador e o prefeito de Curitiba (ambos aliados de Derosso) para fazerem declarações. O governador não foi encontrado. Já o prefeito utilizou um tom que, quando empregado por figuras como Lula, fazia ecoar nas casas curitibanas uivos de descontentamento à noite: o prefeito diz que confia na justiça e espera que tudo seja apurado.
 
O prefeito fez as declarações acima em frente ao microfone. Até aqui, tudo regular. A edição cortou a cena e passou à próxima, como a mostrar a prática do "jornalismo neutro" que ouve todas as partes e apresenta tudo ao telespectador.
 
Contudo, por algum princípio oculto, a edição mesma e o repórter com o microfone na mão esqueceram de algo: se o Prefeito Ducci comenta sobre a "apuração" do nepotismo de Derosso, está em jogo a própria nomeação da sogra de Derosso pela prefeitura.
 
Logo, seria para o jornalista um imperativo irrecorrível, algo inerente à função de jornalista – pois ele se diz jornalista – apresentar a contradição e perguntar: se Ducci confia na apuração, como ele se posiciona sobre a contratação da sogra do apurado? Foi mero acidente ou descuido? Não seria o critério meritocrático? Qual outro critério estaria em jogo? Pois, para nomear o filho do governador na prefeitura, outras foram as palavras do prefeito:
 [ele] tem como grande qualidade a capacidade de mobilização de pessoas em torno de um objetivo comum. Essa qualidade vai ser decisiva no trabalho dele (…)
, palavras com tom pretensamente "meritocrático", mesmo sabendo-se dos vínculos familiares, hoje tão atacados pelos jornais.
 
O escândalo está aí e atingiu a grande imprensa. E vale compará-lo com outros escândalos, como o do "mensalão": neste, o escândalo apareceu e sua visibilidade se multiplicou em função das novas denúncias que apareciam a cada dia, cada nova denúncia ligada à primeira reforçando o caráter de escândalo generalizado. Já a proliferação de denúncias no caso atual parece muito mais contida: o escândalo apareceu e permanece situado, pois não se irradia e não cresce em relação às denúncias. 
 
Ou – o exemplo contrário do mensalão ensina – encontra no próprio jornalista certa dificuldade em crescer.
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