Por que o brasileiro não fica indignado?

Vale ver os dois vídeos:

(via lll)

(via incinerrante)

Um jovem feirante com sonhos e sem condições de vida perde os direitos, já mínimos, de vender sua feira. Sufocado e sem um mínimo de possível, toca fogo em si mesmo e desperta uma revolta geral na Tunísia. Curiosamente, revoltas múltiplas, espontâneas e descentradas se alastram também em outros países, Arábia Saudita, Egito, Líbia, Síria… e chegam na Europa via Espanha, com algumas manifestações na França e a explosão inglesa (teria ela na AL "chegado" ao Chile?).

No outro extremo dos acontecimentos, durante a semana passada o Sr. do vídeo acima explicita: algo estranho ocorre na terra da Rainha quando, dentre outras coisas, negros perdem a conta de quantas vezes foram revistados pela polícia simplesmente por serem negros, quando jovens quase sem perspectiva perdem ajuda social massiva ou quando, para salvar determinadas dinâmicas financeiras, passa-se todo o preço das perdas aos menos beneficiados por elas.

Num extremo o jovem, técnico em informática, impedido de desenvolver aspirações mínimas, ateia fogo em si mesmo quando o desamparo faz ver essas aspirações esvaziadas; no outro extremo a jornalista criminaliza um idoso que comenta sobre o cenário de marginalização do próprio neto e assume que revoltas são legítimas diante de arbitrariedades e injustiças.

Diante de tudo, ficam as perguntas do segundo vídeo: e o brasileiro, por que não se revolta? Ele também "leva geral" e sofre desmandos dos policiais, ele também é sistematicamente afastado de suas potencialidades, sofrendo também cotidianamente boa dose de arbitrariedades e injustiças. Nesse sentido, o que coloca em primeiro plano depoimentos como o da Prof. Amanda Gurgel no "Programa do Faustão", mas abafa manifestações como as dos bombeiros do Rio de Janeiro? O que nos faz ver com atenção reportagens como as do Jornal Nacional voltadas a certa tecnocracia duvidosa da educação e ao mesmo tempo ignorar governos como o de MG, que ameaçam contratar professores substitutos contra o direito de professores em regime de penúria estarem em greve?

O que sustenta nossa anestesia existencial diante de injustiças cotidianas, fazendo-nos assistir sem muito compromisso notícias como a morte anunciada da juíza de São Gonçalo? E por outro lado, que tipo de dispositivo converte imediatamente o descaso generalizado em um linchamento jurídico e coletivo implacável contra malfeitores, como no caso do parque de diversões não inspecionado do RJ? Finalmente, o que nos faz ver especialistas "analisando" situações como as da Inglaterra ou da Espanha, sem olharmos com a mesma seriedade e perspectiva de ação para as nossas próprias mazelas?

 

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4 comentários em “Por que o brasileiro não fica indignado?

  1. Impressionante a falta de percepção da jornalista inglêsa. Se ela morasse no Brasil seria considerada uma pessoa “esclarecida”, leria a Veja e votaria no Serra. Ou seja..uma piada…

    E parabéns ao senhor imigrante que foi entrevistado, poderia vir ao Brasil e dar aulas ao “especialistas” de plantão que nada entendem de atualidades.

    RE: Curioso como a pauta se reproduz por aqui também, não é mesmo?

  2. O interessante (para mim, claro) é traçar um paralelo entre a dispersão das hipóteses para uma “passividade” do brasileiro (no 2o vídeo) e a dispersão de questões que o seu próprio post levanta 😉

    Por estas bandas não vemos tantos movimentos “gigantes”, de dimensões nacionais, embora haja tantos e tão cotidianos com pouca ou nenhuma visibilidade, como no caso dos sem-terra, dos sem-teto, de moradores de favelas que fecham ruas e avenidas em resposta a incursões violentas do braço armado do Estado etc. Com a subnotificação como regra, fica fácil falar da “passividade” do povo brasileiro, especialmente passividade diante de tópicos que interessam sobretudo a quem os levanta.

    De resto, o que fica patente é o constante exercício de rotular como “obra de vândalos” boa parte dos distúrbios “do lado de cá” — desse ocidente europeu com o qual os países emergentes (que não estejam na África, no Oriente Médio ou na Asia, claro) se identificam —, enquanto alguns “do lado de lá” seriam revolucionários na acepção positiva e romântica do termo.

    Grande abraço

  3. Quem disse que o brasileiro não fica indignado?
    O problema está no fato de que entre “ficar indignado” e “se propor a mudar as coisas” existe uma barreira quase intransponível!
    Existe em nossos países colonizados um forte peso ideológico e cultural de que somos menores, inferiores, incapazes de resolver nossos problemas sem a “ajuda” externa. Neste sentido, ganham espaço as formas conciliatórias de mudança, como as eleições e os sindicatos. Nossa tradição tem sido fortemente impactada por esta ilusão na consciência de que o diálogo é o melhor caminho. Somos brandos, moderados, gentis, não queremos nos expor e não queremos identificar como nosso um problema social que é de todos.
    Enquanto houver esse tipo de ilusão na consciência, de que o problema não é de todos, qualquer levante como visualizamos nos outros países será impossível.
    Porém, sem romantismo! Não será possível fazer com que esta consciência aflore sem a explicação paciente das contradições que existem na sociedade. Sem a explicação cotidiana de que estes governos FHC/Lula/Dilma não estão ao lado do povo, e sim da ordem banqueiro-empresarial. De modo claro: na batalha entre trabalho e capital estão ao lado do capital! Ou seja, não significam avanço em absoluto, pelo contrário, são freios ao levante, são governos de contenção social.
    Estou muito indignado, sou brasileiro e estou a todo o tempo buscando formas de agir em torno à educação da consciência da nossa classe, para que ela possa desnaturalizar a sociedade em que vivemos e propor o caminho da mudança.

    Venceremos!

  4. desculpe a propaganda mas escrevi um post em paulodaluzmoreira.blogspot.com comparando Londres com o RJ em 1983, prova de que os brasileiros tbm chutam o balde qdo a situação aperta e logo depois um post sobre comentaristas na mídia – um emprego dos céus. Acho que os 2 se encaixam com esse seu post.
    Abs,
    Paulo

    RE: De fato, belos posts aqui e aqui, sinal de que precisamos discutir nossas persplexidades…
    Abraço,

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