Para certos “educadores”, investir mais por aluno não indica melhorias na educação.

Durante uma reunião de espectro internacional ocorrida em Curitiba sobre a educação, o economista e auto-intitulado "educador" Gustavo Ioschpe cometeu tais palavras (em flagrante desacordo com certa posição do ministro da educação):

Quando se é ministro você sempre quer aumentar a verba da sua pasta, mas o fato é que não há comprovação empírica de que aumento de gasto por aluno melhore a educação.

Ele ainda disse que a remuneração do professor não afeta em nada a educação e titulações como mestrado ou doutorado são "irrelevantes" para a educação básica. O "educador" do Jornal Nacional e da Veja reitera sua "tese" em diversos outros pronunciamentos, declarando que não há evidências de que um investimento maior por aluno ou por professor indique necessariamente melhorias.

Ele emprega aqui algo muito parecido com a doutrina "meritocrática" tupiniquim do ex-ministro Paulo Renato. Em linhas bem gerais (ver isso), segundo ele não há muito proveito em um sistema educacional propriamente dito (um "sistema" por definição, regras prévias regulando certas práticas em um ambiente que se chamaria "escolar"), mas sim em práticas que regulem sempre a fortiori, por decorrência e não por princípio, a produtividade do ensino.

Uma anedota: no Museu Nacional de História Natural de Paris não é raro ver turminhas de crianças muito pequenas, em fila indiana, quase esbarrando e impondo passagem aqui e ali sobre os transeuntes (mesmo quando o museu está vazio). Essas crianças são, provavelmente, muito menos habilitadas do que um adulto para compreender o que se passa ao redor, em meio a tantos esqueletos e fósseis às vezes com mais de 50 milhões de anos.

Mas as crianças visitam o museu e marcam presença. Elas vivenciam ali experiências e aprendizados que mesmo o tecnocrata  mais almofadinha não ignorará terem grande validade e importância para o futuro (com boa fé imagino que até os tecnocratas possuem o hábito de, às vezes, enriquecer sua imaginação criativa com programas artísticos, turísticos, culturais etc.).

No "pacote" do passeio estão uma ampla gama de recursos: o transporte das crianças até o museu, as entradas, as possíveis lembranças (esses museus costumam ter lojas incríveis) e mesmo os recursos materiais e didáticos a trabalhar em sala por alguns dias depois da visita. Em cada um desses elementos, das preparações necessárias de aula pelo professor até o motorista do ônibus ou o lanche, há um custo por criança.

Mas enfim, o fato mesmo é que não há comprovação empírica alguma de que o aumento de gasto por aluno melhore a educação.

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3 comentários sobre “Para certos “educadores”, investir mais por aluno não indica melhorias na educação.

  1. Estes dias eu fiz um estudo sobre a teoria do capital humano (TCH) e sobre o vínculo (ou falta de) entre a escola e a empresa. Resumidamente, a TCH, que tem uma filiação mascarada à economia neoclássica, defende que é necessário olhar com mais cuidado para uma questão que geralmente é tratada como “gasto”, a Educação. Segundo seus teóricos, ela deveria ser tratada como “investimento”, obviamente, não pelo Estado, mas pelas empresas, uma vez que o Estado é apenas para “regular”, não para investir. Não vou dar mais detalhes, mas posso disponibilizar meu trabalho completo para que possa ver meus posicionamentos frente às outras questões. O que gostaria de ressaltar é que o Ioschpe retorna a um período anterior ao da TCH, ou seja, ele não representa um atraso apenas para a nossa compreensão sobre os investimentos do Estado em Educação, mas é um atraso, inclusive, para o pensamento empresarial. Não vou dar a ele este alerta, mas veja como são as coisas! Bem, pretendo reunir dados e escrever algo sobre como estes posicionamentos do especialista são meras papagaiadas repetidas sem nenhuma reflexão. Abração!

  2. Por outro lado, há comprovações empíricas de que esse tipo de abordagem ao ensino [na verdade uma abordagem ao negócio do ensino] causa, entre outros prejuízos, o sucateamento da escola pública. Quem quiser comprovar basta ver o contraste gritante entre a qualidade do ensino e o “PIB” do estado de São Paulo depois de mais de uma década de tucanagens com a educação do estado.

  3. Isso me fez lembrar um dia quando estava indo para casa depois de um dia cansativo de trabalho, passando em frente ao terminal do Guadalupe recebo um panfleto com a seguinte propaganda, “alfabetização pela internet”. Olha só que modernização da educação, agora as pessoas não precisam mais nem ir na escola para aprender, com essa nova tecnologia poderemos acabar com a carrera de professor,aliás já ouvi uma história que os cursos on-line são melhor do que presencial, comprovando a tese do comentarista do jornal da globo, fico imaginando a pessoa sentado na frente do computado aprendendo a ler e escrever, o cara pode até chegar a fazer uma faculdade on-line é claro, talvez de pedagogia, que por sinal já ouvi falar que é muito boa também, e ele nem precisa aprender a se relacionar com as pessoas pois afinal o mercado não precisa mais gastar dinheiro com pedagogo e nem com professor pois agora é tdo pela internet.

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