O “Sistema” e suas penas

Incrível o relato de um jornalista que foi torturado por milicianos cariocas. Ele apenas pretendia cumprir sua função de jornalista, acreditando em valores como a função pública do jornalismo e a justiça a partir de discussões vinculadas por jornalistas.
 
Enfim, ele acreditava que jornalista faz jornalismo, policial pertence à polícia e, enfim, distorções dessas funções competem a uma justiça que faz justiça. Mas para além das imagens, a dura "realidade" (que não por acaso retroalimenta a si mesma com as funções dessas imagens).

 
Uma anedota: dias atrás fui entregar material que deveria ser organizado e depositado em uma instituição pública. Para agilizar as coisas, deixei tudo efetivamente organizado.
 
Então cheguei na repartição. Os atendentes ficaram surpresos com a "organização". Segundo eles, eu não fizera como os outros, isto é, eu não deixei tudo "jogado" nos recipientes para repetir dentro da repartição o trabalho já feito antes, de compilar todo o material a ser entregue. Eu simplesmente cheguei lá e entreguei.
 
Nisso uma atendente, ainda surpresa com tal "organização", decidiu dar uma indireta a outro funcionário: "Fulano, você viu como o Mr. Catatau entregou tudo tão organizado?"
 
"É, quem faz isso ganha elogios né?", devolveu ele com ironia e acidez. Moral da história: deixar tudo "organizado" não tem valor organizacional dentro dos trâmites de certo tipo de organização pública. Se houver algum ganho, não passa do elogio ou da intriga entre os funcionários.
 
Mas há a segunda parte da pequena anedota: depois de depositar o material, outra repartição deveria "dar baixa", analisando os documentos e submetendo tudo à assinatura da chefia. "Seus cálculos não estão corretamente formatados", disse o burocrata. Provavelmente ele era o mesmo que me havia instruído anteriormente por telefone a fazer exatamente assim.  Mas há sempre quem acorde de mau humor, outra prática organizacional corrente (corrente?):  "Você precisará refazer tudo. Mas não se preocupe, damos um jeito e deixamos o material aqui, basta você reformular tudo e voltar.
 
Dias depois, tudo reformulado, lá está o burocrata. "O Sr. tem aqui vias demais para assinar, o Chefe não vai querer assinar tudo isso". Afirmei que aquele era exatamente o número de vias previsto no regulamento. Além do mais, o material depositado participava, em tese, dos fins próprios da organização. Deveria ser um motivo de relativa, digamos, alegria (e não penúria) recebê-lo. Depois de algumas caras feias e constrangimentos institucionais extras, consigo os benditos (?) documentos.
 
É apenas uma pequena anedota, um pouco ridícula e nem de longe comparada ao relato do jornalista. Mas surpreende esse descaso geral, possibilitador de pequenos burocratas transformados em pequenos déspotas num extremo e, em outro, milícias de policiais comandando bairros e torturando pessoas. Se a intensidade dramática do relato do jornalista é infinitamente maior, ainda assim fica a pergunta: será que as regras do "Sistema" inteiro são tão diferentes assim?
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Um comentário sobre “O “Sistema” e suas penas

  1. Sugiro leitura de O Castelo, de Kafka. Chega a ser atordoante a burocracia descrita no livro.

    RE: Oi Marcela!
    Mas será que as regras que constrangem o personagem d’O Processo seriam as mesmas que no Brasil sustentam burocratas arbitrários e profissionais corruptos? Falando grosseiramente: o mundo de Kafka permitiria ver o mundo de Tropa de Elite?

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