A cidadania dos cães

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Adiante, o espetáculo universal: um carteiro tenta inserir uma encomenda na caixa postal de uma casa; em contrapartida um cão, aos saltos, tenta sistematicamente alcançar e arrancar um pedaço da mão do carteiro. Enquanto pula, late.

É exagero dizer que um cão pula "sistematicamente". Trata-se de um desses cães simpáticos, peludos,  feitos para passear e suprir a solidão de alguém contra tanta gente desinteressante ou indigna ao redor. Quanto ao carteiro, após ele conseguir inserir a carta, percebeu que eu o observava. Olhou em minha direção com um misto de surpresa, revolta e indignação, como se dando conta da situação non sense, do observador inesperado e das condições de trabalho inusitadas.

Se um cão pula "sistematicamente", isso é pouco provável. Mas é difícil não perceber o quanto as feições do carteiro contrastam com as do cão em termos de bons cuidados. Alguns meses atrás um amigo, medidor de empresa de abastecimento, foi afastado do trabalho. No Planeta dos Pets há quem não reconheça que trabalhos pesados com baixos salários são degradantes. Mas em medição semelhante à abordagem do carteiro, ele recolhia informações de uma casa quando o cão avançou. Resultado: em um acesso de fúria, ele juntou um tacape e matou o cão a pauladas, persistindo até alguém controlar a situação.

Pelo menos é o que diz a lenda. Após retornar ao trabalho, encarregaram meu amigo com serviços "internos". Demorou até voltar às ruas.

Não se trata de dizer quem foi o "culpado", mas é difícil não aproximar a situação do meu amigo à do carteiro. Ou ainda, curioso nos depararmos, para falar de um cão, com essas duas palavrinhas, "culpabilidade" e "sistematicidade". Um cão não tem culpa, nem faz nada de modo "sistemático". Ou pelo menos em tese não deveria fazer. Mas o que dizer da liberdade concedida aos bichos, quando levados a passear?

Olha o perigo, outra palavrinha: "liberdade". Difícil dizer que os cães são livres. Mas para contrariar a dificuldade, ontem de manhã eu voltava para casa quando uma dessas solitárias, levando o bicho para o cocô matinal (que outra função possuem hoje as calçadas, quando ainda existem?), vinha em minha direção. Ela, a corda e o cão ocupavam todo o diâmetro da calçada, sem deixar espaço para qualquer pessoa passar. Quando me aproximei a mulher sorriu, em gesto de "bom dia". Mas não tirou o cão, indicando tacitamente  meu dever de sair da calçada, ao invés dela desviar o animal ou conduzi-lo ao gramado.

Isso quando o próprio cão não se põe a avançar nos transeuntes, enquanto o dono apenas olha a situação com alguma expressão misteriosa, situada entre a cara de pum e o transe extático.

No início do ano eu caminhava acompanhado, quando de repente a rua inteira parou e começou a nos olhar. Sem compreender, observei ao redor: atrás se aproximava um grande cão, disparado. Era um Pitbull e vinha para cima. A namorada fez gesto de correr. Segurei seu braço, prendendo-a contra meu corpo. O Pitbull chegou, trombou em minha perna, passou por debaixo das pernas dela e pôs-se a "esperar" o dono. Descobrimos então que ele "só estava brincando". Ao chegar, com truculência o dono bateu o cachorro contra o asfalto  e gritou: "quem mandou você sair enquanto eu abria a porta, heim?". Coitado do cachorro, não "obedeceu".

Por estranha coincidência (ou não), semana passada "atropelei" um cachorrinho. Ou melhor, fui "atropelado" por ele. De novo a "liberdade": por algum arbítrio desconhecido, a dona não o impediu de vir correndo e dar de cara (ou focinho) nos raios de minha bicicleta. Pelo menos dessa vez o gosto foi de "vitória", ao passar novamente pelo lugar e ver o cão preso na coleira.  Agora o animalzinho estava protegido de qualquer incauto como eu.

E tudo isso sem falar da cadeira de rodas para cães, das meias para proteger os pés (patas?), das jóias colocadas no "chacra" acima dos olhos,  das receitas de florais para cachorro em artigos de revista dos Conselhos Regionais de Psicologia (!), ou daquelas filas divididas por  gente e cães Lhasa para receber a bênção de projetos místicos itinerantes (isso existe!). Basta visitar um bosque ou parque para ver  o espetáculo sempre repetido e não obstante singular (cuidado apenas ao sentar no chão – hoje ele não pertence mais às crianças).

Há países onde animais são considerados sagrados. Mas existem esses outros lugares onde os cães possuem um certo caráter de igualdade: se olharmos com atenção, podemos vê-los interagindo com os seres humanos até mais do que estes fazem entre si.

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Tudo para deixar dois links interessantes: Conforme a New Scientist, cachorros de estimação poluem mais do que camionetes.

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Imagem: Aggie Zed, Dogman, 2001. Ceramic, 4”h.

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Um comentário em “A cidadania dos cães

  1. Isso me faz lembrar a situação dos carteiros, que nesse exato momento estão em greve e o mais surpreendente é o trato que é dado ao fato, onde em uma administração 100% sindicalista vinculado ao PT se recusa a negociar com os carteiros, tudo isso está acabando por provar que nada há de diferente em relação as antigas administrações, o aumento real dos salários de todos os funcionários será de 50,00 reais, é mais caro manter um cão do que um carteiro.

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