Curitiba, “cidade resiliente”

 
 
De acordo com o Blog Empresa Verde, fez-se uma pesquisa na gringolândia na qual se delimitou Curitiba como a segunda cidade mais resiliente do mundo. Por cidade "resiliente" entende-se "aquela empenhada em retornar a seu estado de equilíbrio ecológico após passar por intenso processo de urbanização". Segundo o blog, "pesou" muito na decisão a implementação do biarticulados e ligeirinhos, décadas atrás. 
 
Um olhar atento (ou nem tanto, convenhamos) sobre Curitiba mostra como essa decisão é surpreendentemente estranha, a começar pelo "décadas atrás".
 
Em primeiro lugar, todas as medidas predominantes nos últimos tempos (década[s]?) foram, quando muito, paliativas: a qualidade do transporte público decaiu na mesma medida em que Curitiba passou a possuir a maior frota do Brasil por habitante, dois carros para cada três pessoas. Muitas linhas retiraram cobradores e diminuiram o tamanho dos ônibus (quando não a própria frequência). E – o que é importante e decisivo – o crescimento da "malha" não acompanhou a demanda, criando um contra-efeito nocivo e nem um pouco resiliente: a migração, de quem tem condições, aos carros.
 
Vale repetir: a política de transporte de Curitiba, durante os últimos governos, tem feito sistematicamente o usuário migrar para o carro, e não deixá-lo na garagem em virtude de uma evolução do transporte. 
 
 
 
Isso sem contar as novas demarcações nas ruas, convertidas sistematicamente para um sentido único. Ou ainda a conversão de faixas de estacionamento em novas vias. Tudo converge em um nome: carro.
 
Se a pesquisa aponta a cidade mais resiliente, é estranho considerar o que Curitiba não é. Pode ter sido um dia, mas quem vive de passado é museu e as últimas prefeituras nem de longe atualizaram o que um dia foi motivo de elogio (dentro de alguns lampejos cujo olhar de qualquer historiador verá que se articulam com propósitos ainda não bem esclarecidos…).
 
Isso sem contar a largura das principais vias da cidade. Se os prefeitos das primeiras décadas do século passado não pensassem em criar vias largas…
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4 comentários sobre “Curitiba, “cidade resiliente”

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  2. nas aulas de planejamento urbano que eu tinha na faculdade, havia um caso de “planejamento tecnicista” que era sempre usado como exemplo de agente em processos de segregação: Curitiba, Jaime Lerner, IPPUC.

    Curitiba é hoje uma metrópole repleta de cidades-satélite. Gostaria de saber se tais cidades são também consideradas “resilientes” (seja lá o que esse buzzword excêntrico do jargão verde signifique).

    Sempre bons os textos e comentários neste blogue.

    RE: cidades-satélite: touchez!
    Interessante, Gabriel: que tipo de enfoque e referências vcs trabalhavam sobre o planejamento tecnicista?
    Obrigado pelo comentário! O blog anda meio parado, muito bom ver que ainda pode articular boas conversas.
    Abraço,

  3. acho que dá pra enquadrar estas referências em dois caminhos:

    1. existe uma narrativa bastante difundida, tradicional, sobre a trajetória do planejamento urbano no brasil. É a narrativa normalmente acolhida pela mídia quase como um lugar-comum irrefutável: a ideia de que nas cidades brasileiras haveria “falta de planejamento” e isto seria responsável pelo “crescimento desordenado”. Nesta narrativa, Curitiba ocuparia um posto privilegiado: nela haveria técnicos especializados nos problemas urbanos que saberiam dotar a cidade dos instrumentos necessários para um crescimento planejado. Da mesma forma, ao contrário, São Paulo seria o sinônimo do caos.

    2. uma outra narrativa — razoavelmente bem difundida no meio acadêmico de modo a ser lembrada mesmo por jovens estudantes, mas pouco difundida pela mídia leiga — procura reposicionar o papel do crescimento urbano não em termos de “ordem x caos” mas de interesses de classe e da ação consciente mas não explícita de um conjunto de agentes espalhados no território. Neste caso, o Estado é apenas um destes agentes e tradicionalmente se articula com as elites. Estou sendo bastante sucinto, até um pouco grosseiro neste resumo, mas um cara que se aprofunda de forma linda sobre o assunto é o flávio villaça (que também é um autor básico). Nesta forma de entender a coisa, o Estado atuará de forma mais ou menos “planejada” de acordo com os interesses do momento e de acordo com uma estratégia ideológica mais adequada à conjuntura vivida.

    Num determinado momento da história, esta estratégia era a do planejamento tecnicista, tradicionalmente associado ao período autoritário, que logo deu lugar à era dos “planos sem mapa” — pois no final o planejamento para nada servia mesmo. Noutro momento, a estratégia é a do chamado “planejamento estratégico” (PPPs, operações urbanas, etc), tradicionalmente associado ao período neoliberal.

    O que é interessante notar é que o planejamento tecnicista dos anos 70 era criticado pela falta de participação popular em sua formulação. Já nos anos 2000, esta mesma participação foi incorporada pelo planejamento estratégico para justificar suas ações.

    enfim, estou sendo confuso, mas é só pra dar um panorama da coisa.

    o caso de curitiba é interessante: o município é razoavelmente bem pensado em termos de infraestrutura (que sabemos envelheceu mal e não se adaptou às novas demandas) em seu núcleo urbano tradicional, mas ao invés de expulsar a população mais pobre para a sua própria periferia, o planejamento da cidade colaborou para a criação de periferias metropolitanas em outros municípios. Enfim, é velha a “dialética da ordem e da desordem” 😉

    RE: Muito interessante!
    Verdade, em Curitiba a pobreza não é propriamente gerida para deixar de ser pobreza, mas gradativamente empurrada para fora.
    Embora pareça haver uma certa mudança. Antigamente, “empurrava-se” por meios públicos. Hoje, “empurra-se” por meios privados, com a especulação imobiliária. Se bem que há de vir o historiador para mostrar como os antigos empurrões públicos já obedeciam certos propósitos privados…

  4. Hoje esta sendo aprovado o metro em Curitiba, vai desafogar o parte do transito caótico que vem se tornando Curitiba, basta esperar e torcer para que saia de fato, porque parece ser uma obra bem complexa e cara.

    RE: O que deixa a pergunta: outras obras menos complexas e menos caras (tramway por ex.) não seriam melhores? Pq tanto dinheiro no metrô, em tão pouco?

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