Brasil, Occam

 
 
A enfermeira deixa o vidro de formol na estante de medicamentos. Os vidros são semelhantes. De repente chega um paciente com necessidade de injeção. É medicado, mas tem reações adversas e morre. O que ocorreu? Por sorte, dessa vez houve investigação e dessa vez ela descobre o motivo: foi o formol, ele não deveria estar ali.

 
Que azar! "Mas por que a enfermeira deixou o formol logo ali?", perguntarão alguns.
 
Qualquer resposta possível não responde a pergunta. Pois ninguém garante que o formol não foi ali colocado outras vezes, ou mesmo outras substâncias, ou ainda se os medicamentos corretos não estavam ontem ainda junto com os detergentes ou qualquer outro lugar. "Descuido" casual não responde.
 
Mais ou menos como o "pau de arara escolar" do Ceará (Ceará?). Ele leva crianças todos os dias para a escola. Mas aí – é de se esperar, mas vai que não, certo? – uma criança cai e morre. Por sorte dessa vez, a morte, o desfecho trágico recebeu atenção de algum jornalista e o fato virou notícia.
 
Que azar! "Mas por que o motorista, o professor, o pai, o secretário da educação deixaram as crianças logo ali?", perguntarão alguns.
 
Qualquer resposta possível não responde a pergunta. Pois ninguém garante que as crianças não se submeteram a igual ou maior perigo outras vezes, à pé, no jegue, na van ruim ou no próprio pau de arara.
 
Claro, há o pai que não guardou a arma (protocolos de segurança servem para que?) e a criança acabou atirando em si mesma, ou o maníaco que entra autorizado pelos professores (sem maior checagem) e faz chacina na escola; favelas se formam com condições inumanas diante dos olhos e na mira das fotos de cartão postal (quando tiros acertam a prefeitura isso é especialmente simbólico), continuando a ser favelas mesmo quando chamadas de "comunidade", e assim por diante. Por "azar" o pitbull foge e morde, o morro com habitação irregular desaba na chuva, o policial mal pago forma milícia, a água acaba, a dengue vem e o esgoto reflui. Por "sorte" às vezes alguém passa ali e .
 
Feriadão é sagrado. Que azar! Dessa vez o gás estourou
 
***
 
Occam é um personagem, uma espécie de "entidade", ilustrada no Catatau de Paulo Leminski, responsável por interferir no Brasil fazendo com que todo e qualquer projeto "racional" por aqui refrate e só funcione com certo "jeitinho" muito especial. Muito perigoso, esse inatingível Occam.
 
 
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