Quem não gosta de grevistas? (2)

 
Alguém colocou a foto ao lado numa rede social, com a legenda "ele não roubou nem matou, apenas luta por uma educação de qualidade!"

 
É um professor sangrando. É um professor, e sangrando. Atrás, policiais dando chapuletada.
 
Trata-se da greve dos professores no Ceará. O governo prometeu certa publicidade nas negociações mas, no dia de uma votação que contrariava a pauta dos grevistas e ainda afrontaria regras mais básicas relativas ao piso salarial, fechou com polícia o acesso dos professores. Resultado? Revolta geral e pancadaria. Ou melhor, revolta geral e espancamento dos professores.
 
Ocorre igual com os bancários, os bombeiros, os próprios policiais e inúmeros profissionais Brasil afora: baixa nos salários, redução da proporção funcionário x trabalho, aumento da carga horária, degradação nas condições de trabalho…
 
"Mas muitas contratações ocorreram nos últimos tempos": isso é ambíguo e pode dizer duas coisas: um movimento real de melhorias, que só se comprova com a continuidade delas; ou um paliativo eleitoreiro, situado estrategicamente para conter greves ou enfraquecê-las ("vejam, estamos fazendo"), ainda mais quando não contempla reivindicações da própria categoria que começa a contratar.
 
Um governo espúrio começa a chamar professores no cadastro reserva. "Bem feito aos grevistas! Agora chamaram gente que quer trabalhar de verdade". Será? Os professores desempregados certamente querem trabalhar e só um desempregado sabe o que passa outro desempregado. Mas alguém duvida que, uma vez consolidados, os novos professores não concordarão que também devem receber melhores condições de trabalho?
 
Dias atrás "descobriram" que a Zara utilizava – e portanto fomentava – o trabalho escravo de terceiras. Um grande executivo da empresa veio pedir desculpas, mas manifestou: não é só a Zara que utiliza trabalho escravo. 
 
Isso acarretou efeitos gigantescos, como um grande movimento nacional para apurar onde mais ocorre trabalho escravo, certo? Errado. O caso morreu.
 
Os escravos da Zara recebiam entre 230 e 450 reais, isto é, menos do que um salário mínimo. Mas o que salta aos olhos diante disso é o valor do salário mínimo: 540 reais, 100 reais a mais do que os escravos da Zara!
 
O piso nacional dos professores (que possuem a famosa "formação universitária", tão alardeada por aí) é 1187 reais, dois salários mínimos. Os professores apanharam porque o governo do Ceará relativiza até o piso.
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2 comentários sobre “Quem não gosta de grevistas? (2)

  1. Tive a oportunidade de acompanhar de perto a greve dos correios, o governo optou por assumir um prejuízo que nem de longe chega perto do aumento salárial pedido pelos trabalhadores, com a desculpa da crise mundial, até parece que as pessoas que ganham 807 e agora ganhou 80 reais a mais no salário irão sair consumindo como louco, me diga o que vc faz com 887 reais no mês? segundo o governo isso gera inflação. Uma outra questão interessante é o julgamento no TST, pois pelo que tdo indica não há julgamento, ou seja, o tst sempre irá ficar a favor da empresa e assim não existe julgamento de fato. Acredito que poderemos ver uma nova Lei de greve em breve, aprovado no governo do PT, eles subiram por essa escada mas agora ninguém sobe mais.

  2. É companheiro, a coisa está cada vez mais caótica… em breve tudo isto estoura. Belo manifesto o seu!

    Ah, uma coisa que você colocou: realmente, existe a propaganda de que se contrata mais (como nos bancos), mas nada se fala sobre a alta rotatividade que existe nestes empregos.
    Outro dado: esses tempos saiu uma pesquisa (do Grupo Abril, vá lá) que apontava que apenas cerca de 2% dos estudantes de Ensino Médio pretendem ser professores… alarmante? Para os governantes não parece ser…
    O caos já está instalado, a crise não é um fenômeno pontual. Compartilhemos esta crise com os que mandam!

    Abração!

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