Curitiba anda de ré, e contra as bicicletas

 
 
Pouco depois do então prefeito de Curitiba Beto Richa (PSDB) inaugurar sua controversa Linha Verde, um leitor do blog, que é também ciclista e participa de movimentos pró-ciclismo, relatou a morte de um amigo por um ônibus articulado. O amigo tomou parte de seu caminho numa das canaletas da Linha Verde, quando então foi atropelado pelo ônibus. Ele morreu – eventualmente poderia ter sido eu ou o prezado leitor.
 

Canaleta é para ônibus e não bicicleta, certo? 
 
Em certo sentido, certo. Mas a pergunta é tão mal formulada, envolvendo tanta malandragem de gestão, que talvez seja importante considerá-la um pouco mais. Eventualmente para o CTB, ou mesmo para algum regulamento da Prefeitura de Curitiba, andar de bicicleta em canaleta de ônibus é proibido. Mas o CTB também diz que se pode trafegar de bicicleta em via na qual não é viável trafegar normalmente de outro jeito. Ou, conforme o Art. 58,
nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos das pistas de rolamento, no mesmo sentido da circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores. 
, o que põe duas outras questões:
 
1) mas a canaleta é projetada exclusivamente para os ônibus, não é mesmo?
 
Isso põe em confronto diversos elementos, desde o discurso das prefeituras há anos sobre o transporte público e o ciclismo, até o uso efetivo e concreto das canaletas. Por exemplo, qualquer pessoa que pega ônibus em horário de trabalho vê também inúmeros trabalhadores indo trabalhar de bicicleta e utilizando a canaleta. Quer se queira quer não, essa prática é tão antiga quanto as canaletas e põe a nu outra questão: se andar na canaleta é proibido, onde está a fiscalização efetiva da proibição e, mais ainda, o discurso de que desde tantos anos o uso de bicicleta é estimulado em Curitiba? Qualquer ciclista que carrega consigo a impressão de que Curitiba "facilita" o uso da bicicleta facilmente mudará de impressão caso se peça para ele desconsiderar as canaletas. Contraditório…
 
2) E por outro lado, Curitiba, a "cidade resiliente" e "ecológica", diz que constituiu uma rede de ciclovias admirável em termos nacionais. Corolário: os empregados não precisam andar pela canaleta de bicicleta porque há a) os carros b) os ônibus e c) as ciclovias, correto?
 
Errado. O ciclista um pouco mais informado dirá que até existiram discursos aqui ou ali apregoando não apenas a continuidade dessa rede de ciclovias, mas sua própria amplificação e integração (mais ciclovias e ciclovias mais integradas); mas ele sabe que tudo não passa, quando muito, de projeto (cheio de exemplos contra)… E as ciclovias mesmas existentes não realizam o fim da bicicleta como meio de transporte, mas sobretudo de lazer (que se vejam as ciclovias em "zigue-zague" da Linha Verde ou as pseudo-ciclovias, ou melhor, a calçada asfaltada com postes, em certos trechos da Marechal…). Isso é nítido, decisivo, preponderante para dizer o que Curitiba pensa sobre suas bicicletas.
 
Mas e o que Curitiba pensa de suas bicicletas?
 
A resposta supõe outra pergunta: o que Curitiba pensa de seus carros? As últimas prefeituras pensam – ou melhor, agem para – que a "cidade da gente", "capital ecológica" e afins, com seus dois carros para cada três habitantes, deve priorizar tudo o que facilite o uso do carro.
 
Se alguém duvida, basta ver alguns exemplos decisivos: de um lado, diversas vias perderam seus estacionamentos para a criação de novas vias; de outro, as novas vias obrigaram redesenhar a rua inteira, deixando o espaço muito menor entre os carros e aumentando a probabilidade dessas colisões sempre acidentais e neuróticas, ausentes nas estatísticas.
 
Ou ainda: como evoluiu o transporte público "exemplar" de Curitiba, nas últimas décadas? Evoluiu de forma a incentivar o uso do carro. Não é à toa o índice de 2 carros para cada 3 habitantes… Uma prova é infalível: pergunte a qualquer um dentro do ônibus às 6:30 da tarde se ele gostaria de estar ali, ou confortavelmente sozinho e sentado no carro ao lado (que não à toa contribui para o mesmo caos que testemunha).
 
O coroamento do que a prefeitura de Curitiba pensa sobre suas bicicletas veio hoje, como se vê no cartum acima, de Latuff. Para promover o futuro de certas figuras apadrinhadas (em caso de sucesso, claro), criou-se uma "ciclofaixa de lazer" (sic!), percorrendo 4Km do centro da cidade. A ciclofaixa funcionará aos domingos, uma vez por mês. E mais: ela não segue as sugestões de movimentos como o Bicicletada Curitiba (eles cansaram de procurar pessoalmente a prefeitura…), o exemplo de outros países, ou o próprio CTB: faixas à direita com sinalização, para habituar os motoristas ao que já consta no CTB.
 
 
***
 
Prefeitura: "A população aprovou o 1º Circuito Ciclofaixa de Lazer de Curitiba" http://t.co/2khzctJK
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3 comentários sobre “Curitiba anda de ré, e contra as bicicletas

  1. Bom, muito bom. Onde é que eu assino?

    RE: Olá Renato!
    Obrigado pela visita! Certamente, você assina em todo momento, com toda a atividade de seu blog ligada ao assunto e com as oportunidades de conversa que tivemos e – espero – teremos!
    Abração,

  2. pode até parecer uma abordagem superficial, mas mesmo neste caso vale a metáfora “casa grande e senzala”: bicicleta é prazer eventual das nossas elites, portanto, nada mais justo que o Estado garanta a elas o uso (EVENTUAL!) do espaço público para a manifestação de seu hedonismo, como uma espécie de prolongamento de seus quintais.

    “Aqueles escravos que usam a bicicleta para trabalhar, coitados… Eles que sobrevivam, mas não me atrapalhem! Se fossem gente de verdade, só usariam bicicleta de domingo!”

    Enquanto isto Jaime Lerner corre o mundo convencendo governantes a desistirem de sistemas de metrô para implantarem (obviamente com a consultoria dele…) sistemas de BRT, para “valorizar a paisagem” e “reduzir custos” (e jogar os pobres para longe)!

    Para concluir a farsa, só falta agora a revista Veja sair no próximo domingo com uma escandalosa capa do tipo “Ciclistas mal-educados atrapalham o trânsito das metrópoles brasileiras.”

    RE: Incrível que foi exatamente o que ocorreu em um blog “famoso” e alinhado à direita. Reclamou dos “desordeiros” que vieram “atrapalhar” o trânsito e as famílias que vieram ali “a passeio”!

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