Assis, Julia Kristeva, a violência e as palavras

"Convidada pelo Papa a tomar a palavra em Assis, Julia Kristeva pede por um humanismo, aproximando espírito do Iluminismo e cristianismo".

É o que diz o próprio site de Julia Kristeva, que participou durante a semana passada em Assis do encontro de diálogo inter-religioso promovido, desde há 25 anos, pelo então Papa João Paulo II.

Pode ser que isso não tenha valor nenhum. Como bem poderia dizer a historiadora francesa Claude Gauvard, nosso mundo não dá mais o mesmo valor de antes às palavras. O encontro em Assis, reunindo desde taoístas até "humanistas agnósticos" (sic!) e teóricos "pós-modernos" como Kristeva, quando muito será notícia de jornal. Se passar no Jornal Hoje não chegará nem perto da reportagem sobre cabelos lindos ou a receita de como lavar as mãos corretamente.

Mas, citando o mesmo link de Gauvard, que impacto poderia ter se considerássemos uma teórica do feminismo, dita "radical" por alguns, participando como "humanista" em um diálogo inter-religioso? Certamente causa impacto o diálogo entre tal feminismo e a tão atacada igreja do "Deus-Pai". Se as palavras ainda tivessem alguma importância geral, isso daria um debate muito interessante, com efeitos inesperados. Se há discordâncias notáveis em determinados planos de debate, não passa despercebida a tentativa de aproximação a despeito das discordâncias.

Vale notar: tais discordâncias existem e não se resumem a querelas teológicas, bastando ver efeitos políticos muito concretos em jogo.

Dias atrás começaram a divulgar que Steven Pinker, o badalado psicólogo cognitiao, colocou uma tese bastante "forte" de que o mundo não é mais tão violento quanto antes. Canadense, ele afirma que somos mais "inteligentes" e racionais e menos "violentos" ou, quem sabe, "instintivos".

Não condenamos mais a blasfêmia que o medieval condenava, não recorremos mais à violência física…

O encontro de Assis não reforçaria tal tese? Vale novamente notar: o esforço de reunião malgrado a discórdia, acolhido até  por ateus e agnósticos, vem de um mundo ainda tão conflituoso que apela a diálogos antes inexistentes… Talvez a violência não tenha reduzido tanto como gostaria algum canadense atento à simples análise quantitativa.

Ou talvez ela tenha mudado de estatuto. No link acima, Gauvard aponta isso quando mostra como, sob diversos outros direitos, a violência corporal existia (há violências não corporais, portanto), mas era regrada. A tese do abandono da violência em virtude da "razão" se torna fraca quando se vê que a própria violência pode ser racionalmente regrada, ainda mais quando se trata de um direito de litígio. Daí, novamente, a importância da palavra: onde ela não tem maiores consequências – muitas de nossas manifestações que o digam -, não ocorrem maiores consequências.

Nossa sociedade então não valoriza mais as palavras? O Wikileaks – um site que pretende fazer valer o valor das palavras – sofre hoje seu mais duro ataque: constrangido institucionalmente por diversas agências financeiras (especialmente operadoras de cartão de crédito), está impedido de receber financiamento por várias vias. Eventualmente o leitor lê essa notícia após ter utilizado o mesmo cartão de crédito em seu almoço… (vale ver as fontes remanescentes de apoio)

Alguns de nós chamamos Steve Jobs de "mestre zen", com a mesma facilidade que ocultamos da própria vista as fábricas de Ipads com regime chingling de trabalho (nada zen e essencialmente précário). Ora, o mesmo regime de regras produz o trabalhador precário, o mestre zen e nossa própria "análise" que os separa.

De algum modo desconsideramos bastante esses regimes de regras, a pouca importância estrategicamente dada por nós mesmos às palavras, ou eventualmente o reforço à importância de algumas delas (malgrado o que deixam de lado). E não obstante elas continuam tendo algum valor, mesmo que ignoremos as regras de gestão desse mesmo valor. Steve Jobs é "mestre zen", religiosos e agnósticos reconhecem a necessidade de um diálogo verdadeiro (sem muito destaque dos jornais à "opinião pública"), eventualmente um WikiLeaks é constrangido financeiramente a não existir simplesmente porque emprega as palavras de um modo que não pode ser ignorado, teóricos fazem circular ainda com "propriedade" teses gastas do século XIX sobre  a divisão entre violência e razão… e assim por diante, como inúmeras palavras se jogam ao vento cada dia na web. 😉

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