Estudantes, vagabundos, trabalhadores e a volta do cacete

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Junto com diversos outros acontecimentos, a invasão da USP pelos policiais – e especialmente do modo como se fez – é preocupante.

Para além da discussão da expertise e até mesmo do caso isolado, é curioso notar ultimamente, dentro de diversos governos Brasil afora, uma espécie de discurso militarizante, dando ênfase exagerada à tal "seguraça pública" (com certa brutalidade passando debaixo do tapete) enquanto outros setores são admitidos como "essenciais" sempre com voz mais baixa.

Para dar um exemplo, no Paraná o novo governador (do PSDB) fez diversas medidas anti-populares, como não cumprir promessas de campanha "registradas em cartório"  ou aumentar as tarifas do DETRAN. Mas a pouca visibilidade dada a isso, somada ao show de helicópteros e mega-operações da polícia no início do governo, certamente mostrou uma linha de ação, militarizada. E nessa linha de militarização, o Paraná não está sozinho.

Não por acaso a dita "população" embarca muitas vezes no perigoso discurso. De um lado ela vê a rua sem asfalto, a falta de esgoto, a educação precária do filho, a transformação do mundo inteiro em uma laje suja (que ela ajuda a construir) e o aumento da violência. De outro, a economia das cobranças e reclamações recai sempre no que parece mais evidente: ter policial na rua, fazer o helicóptero voar, e principalmente "dar coça em vagabundo porque eu sou trabalhador".

"Eu", "trabalhador", não me vejo cotidianamente como integrante (e ator) do mundo gerador da educação ruim e da rua suja. Mas porque sou "trabalhador", penso ser correta a avaliação de que "vagabundo" (e estudante de universidade pública, que deve ser naturalmente um vagabundo, só que de outra ordem – especialmente se tem uma ponta!) tem que levar coça. Não me vejo integrante do mundo ao redor, mas vejo a mim mesmo como "trabalhador" desse mundo diante do qual não participo. E, como numa espécie de vingança contra esse mundo, vejo e aprovo o policial – "trabalhador" como "eu" – dando coça em vagabundo.

A coça (seja qual for) é o castigo a galope, a justiça enfim restituída diante de tanta injustiça, certo?

Errado. Se a função da polícia é dar coça, ela funciona igual à rua que dá sujeira e à escola que não dá educação. O policial dando coça no "vagabundo" é a cobra mordendo o rabo. E se o "trabalhador" aprova isso (ao invés de se alinhar com o estudante e o policial num movimento conjunto em busca dos direitos e discussões que cada qual requer), espere só quando chegar a sua vez.

***

Os links acima são dica de Idelber Avelar.

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2 comentários sobre “Estudantes, vagabundos, trabalhadores e a volta do cacete

  1. Mas que solução você adotaria, uma vez que a ocupação em si, é absurda? Os alunos que se revoltaram, por causa de colegas que fumavam maconha no campus, esperavam que tipo de desfecho? Suas reivindicações atendidas, a PM fora do campus e venda o e o consumo de drogas liberado?

    Chamar isto de militarização é forçar a barra. Se a causa fosse outra, melhoria das condições de ensino, por exemplo, muitos estariam do lado dos estudantes, mas neste caso não há como.

    Ocorre uma certa confusão em ter a polícia na rua, fazendo o trabalho de prevenção, e os tempos da ditadura, onde o papel da polícia era de simples repressão. Este sim era a militarização, inclusive em termos de hierarquia e subordinação.

    Não sei, não concordo com o seu ponto de vista.

    RE: Olá Renato!
    Vale ler os links acima, bem como outros textos como esse, esse e até esse. Eles colocam elementos não mostrados nos grandes jornais, além de alguns considerarem também o porquê da polícia estar ali. Daí o problema principal e talvez não encarado, até ocultado nesse acontecimento: a demanda real de segurança e a ausência de definição de um protocolo de ação dos policiais na USP.
    O desfecho deveria ser qualquer outro, menos esse: sem 400 policiais para retirar 70 estudantes, sem espetacularização da violência, sem violência nuamente aplicada – e o que é grave, aprovada pela imprensa… Estudantes ocupam sempre prédios públicos e continuarão fazendo isso. Agora, reagir contra eles com a espetacularização que presenciamos hoje, isso mostra uma tendência perigosa e que ultrapassa o caso da USP (esse foi, para além da USP, o ponto do post).
    Abraço,

  2. parabéns pela lucidez nos comentários

    Alckmin hoje é o novo Maluf

    sugiro ainda mais um texto, escrito diretamente de dentro da universidade, que avança sobre estas questões: http://educarparaomundo.wordpress.com/2011/11/07/usp-autonomia-seletiva-de-leonardo-calderoni-e-pedro-charbel/

    há dois problemas fundamentais na USP: segregação e falta de democracia. A presença da PM só reforça estes dois problemas.

    RE: Olá Gabriel,
    Obrigado por mais essa indicação. Você esteve por perto durante as manifestações?
    Abraço,

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