Facebook: alegria x economia?

Difícil saber qual é o ganho de artigos como esse, de Evgeny Morozov. Como vários outros autores (muitos mesmo!), e até mesmo dentro de uma tendência geral de “análise” das “novas tecnologias” das “redes sociais”, ele insiste em colocar algo que seria a “subjetividade” humana de um lado e a “tecnologia” fria e calculista da economia de outro:

a ideologia do “compartilhamento sem fricção” quer promover um envolvimento muito diferente com a Internet, nos termos do qual os usuários não são imaginados como críticos prontos a discriminar entre tipos diferentes de conteúdo, mas sim como robôs sem alma cuja função única é consumir conteúdo e produzir gráficos, tendências e bancos de dados para que ainda mais conteúdo lhes possa ser vendido. Já não compartilharemos aquilo que gostamos de modo consciente; em lugar disso, o Facebook compartilhará tudo -bom, ruim, interessante ou chato- em nosso nome

Tese: sites e redes, como o Facebook, começam a “perder” certa espontaneidade desorganizada dos comportamentos humanos, para traduzir tudo em tendências e gráficos, inclusive a própria espontaneidade, abreviada por operações do computador (não preciso nem “curtir” para o produto ser vinculado, etc.). Nisso, deveriam haver movimentos para “conter” essa espontaneidade apreendida.

Tudo se passa como se o Facebook não fosse, antes de rede social, uma empresa, e portanto com interesses sobre tudo o que diz respeito a seu produto. E qual é seu produto? Os próprios fluxos “subjetivos” a mover todo tipo de interação da rede social.  Não há espontaneidade “fora” do facebook (e a recíproca é verdadeira); uma vez dentro da rede, ela já não é mais “espontaneidade”, no sentido requerido pelo autor. Qualquer pessoa que se subscreve ao Facebook já aceita, de antemão, ser um número, não importando mais o que faça ali (movendo um país como o Egito ou recebendo constrangimentos institucionais como o Wikileaks) ou a existência de links “curtir”.

Basta ler as políticas de privacidade…

O autor também teme que a empresa rastreie dados quando o usuário não está logado. Novamente, tudo se passa como se esse tipo de prática não ocorresse há tempos, como já ocorre por exemplo em várias publicidades contextuais. Ou o usuário nunca estranhou em ver um anúncio de interesse muito próximo ao dos e-mails trocados nos últimos dias ou da comunidade preferida do Orkut? (ou qualquer coisa do gênero).

Um pouco como o filme sobre Buckerzerg mostra, contrapondo com outros sites: o diferencial é que o próprio usuário busca o Facebook, de algum modo ele mesmo desejou ser um número.

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3 comentários sobre “Facebook: alegria x economia?

  1. Pois é. Não há novidade nenhuma nesse tipo de análise, e me surpreende, de verdade, que a coisa precise chegar ao nível de evidência atingido em uma mudança qualquer no Facebook para que textos como esse sejam valorizados. Qualquer um que não tenha deixado de levar a sério a Dialética do Esclarecimento depois dos frágeis modismos intelectuais, ligados aos cultural studies das últimas décadas, percebe que a evolução dos meios de comunicação apenas confirma o que está escrito ali sobre a subjetividade. Gosto muito da teoria crítica por conta disso: seu pontencial de ser atual. Penso que a internet nunca foi – eu friso: nunca – uma invenção que, por si só, causou algum abalo na estrutura da sociedade de massas. Parece que, nos últimos tempos, a euforia geral vai desaparecendo aqui no Ocidente. Se a Primavera Árabe se serviu das redes, nada garante que o futuro daqueles povos não vai ser como foi o do nosso terceiro mundo brasileiro: a “modernização” impõe o seu modelo com golpes cavalares de pragmatismo e funcionalidades. Cada vez mais penso que a questão não deve ser encarada sobretudo do ponto de vista econômico, mas da própria técnica. Sem querer absolutizar nada, é a civilização que marcha para isso. Civilização que, hoje como nunca, sabe converter homens em coisas. Ou ainda melhor: em coisas que alimentam outras coisas; em coisas que fazem mover esse aparato simbólico e material de todos os aparelhos que nos cercam.

  2. Olá Rodrigo,

    Muito obrigado pelo comentário elaborado! Creio que você acaba abrindo duas questões. A primeira, mais imediata, sobre o que andam discutindo por aí em termos de tecnologia (e nesse sentido parece que há uma insistência geral em criar um falso debate atrás do outro, como o do link acima, e esses falsos debates geram ibope pra caramba, meio na linha “Steve Jobs é um santo”). E a segunda questão, que dá suporte ao debate, seria a de uma crítica e tentativas apropriadas de resolução do problema subjetividade x tecnologia, amparadas ou não na teoria crítica ou em qualquer outra.

    Fico tentado a perguntar: como você vê, sob os olhos da teoria crítica, essas duas questões? E especialmente quanto à segunda, que estatuto teria essa curiosa dubiedade de instrumentos como o Facebook, o twitter e outros, de um lado favorecendo movimentos coletivos no Egito ou no Irã, mas de outro gerando constrangimentos institucionais a meios como o Wikileaks?

    Abração,

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