O grito que o jornalismo (o jornalismo?) insiste em não ouvir

O Brasil está ficando muito curioso, nos últimos tempos.

Por exemplo, ficamos sabendo notícias daqui apenas recorrendo a jornais e mídias estrangeiras.

E quando ocorre o lançamento bombástico de um livro como A Privataria Tucana (Cultura, Livrarias, download), com efeitos há muito não vistos no Brasil, as principais redes de notícia escolhem ficar em silêncio ou, quando muito, aproveitar-se da situação para atacar adversários.

E se o ocorrido sai no jornal, só sai com o rabo preso, como por exemplo nesse link.

Todo mundo falando do livro e a imprensa permanece quieta. E curiosamente, com o próprio silêncio impondo silêncio aos demais (algo nunca visto no jornalismo!). E, quando não dá mais para conter o silêncio, sai uma notícia modorrenta de repúdio, como se, para reforçar o mando de silêncio, bastasse dizer “isso é lixo”, ou “é livro menor”.

“Livro menor”: taí um elogio que queria soar como crítica e passou despercebido 😉

***

E a grande imprensa começa, timidamente, a se manifestar.

Isso também é muito interessante. Falemos de jornalismo, vejamos a cartilha. Há uma contenda com implicações públicas. Em livro documentado, um jornalista faz acusações contra um político. Essas acusações adquirem notoriedade em redes sociais, contraposta com o estranho silêncio de diversos órgãos.

Mas todo mundo fala disso e a estratégia (por assim dizer) inicial de silêncio não colou. O que fazer?

Resposta: seguir a cartilha, com reportagens incrivelmente “neutras” sobre o diz que diz que. Fulano disse isso, Beltrano disse aquilo e fim de texto.

De repente o assunto recebe matérias tão neutras que valeria perguntar sobre o porquê de tanta neutralidade. Como assim, neutralidade agora? Como pode o assunto ter tanta repercussão e não adquirir a ampla visão de tantos outros factóides políticos?

Talvez a resposta resida no a quem se dirigem as acusações. E nisso é muito, mais muito interessante notar: outras alusões, ilações ou simplesmente chavões acusatórios já renderam a jornais como a Folha muito, mais muito mais do que essa curiosa neutralidade de cartilha.

Mas enfim, a resposta talvez ainda esteja no quem, igual dizia Charles Darwin (Charles Darwin?) sobre o Brasil lá nos idos de 1830:

Polícia e justiça são inteiramente ineficientes. Se um homem pobre comete assassinato e é pego, ele será preso e talvez levará até um tiro; mas se ele é rico e tem amigos, pode contar que nenhuma consequência severa vai ocorrer.

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2 comentários sobre “O grito que o jornalismo (o jornalismo?) insiste em não ouvir

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