Roteiro para as tragédias naturais brasileiras

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No RJ e MG, milhares de pessoas estão desabrigadas. Muitos morreram e os desabamentos são registrados às centenas. Cidades são destruídas, áreas de ocupação irregular descobertas (da pior forma), população evacuada, serviços suspensos…

E não é inútil observar: temos ainda frescos na memória os casos recém ocorridos no RJ (Niterói, Região Serrana), Alagoas, Paraná (Morretes, Antonina) e Santa Catarina (Itajaí, Blumenau), sem mencionar muitos outros.

Com tantos casos, surpreende o modo da imprensa e da própria sociedade – nós, “eu e você” – reagirem às catástrofes. Depois da tsunami do Japão, abundaram informes sobre a rápida capacidade do oriental em reerguer suas estruturas. Mas e no Brasil, o que aconteceu? Será que possuímos algum gene modorrento, ao contrário dos baixinhos de olhos puxados?

Visto que tudo ocorre tão igual, segue o roteiro da cobertura noticiável para as próximas tragédias:

– Algo grande e de consequências nefastas ocorre em algum rincão considerado mais ou menos “importante” no Brasil. A devastação salta aos olhos, oferece imagens cheias e chocantes, manancial para coberturas jornalísticas de imediata comoção (e bastante atrativa para anunciantes).

– Em meio ao caos geral, personalidades isoladas e histórias passionais ganharão notoriedade: aqui o menino pediu para rezarmos (pois estamos confinados em um país de preces), mas morreu soterrado com a família logo depois. Ali os moços compraram por acaso uma corda dois dias atrás para pintar o prédio, e por sorte ela serviu para salvar a senhora que se refugiava na casa ao lado, levada pela torrente em imagens chocantes. Acolá estão os bombeiros heróicos e os resgates dramáticos, dos bebês soterrados resgatados por um novo herói, do pai que alimentou o filho com a saliva ou da idosa que resistiu três dias debaixo da lama. Casos de esforço e proezas individuais, muito mais do que esquemas planejados e técnicos de intervenção (e prevenção) coletiva.

– Segue-se à tentativa de refletir o ocorrido. Nos círculos ditos mais “refinados”, discutem se Rousseau ou Voltaire estão corretos; nos menos refinados, perguntam a) por que Deus foi “tão injusto”, b) por que tanta gente acredita em um Deus que “não existe”. Os “especialistas” falam baixinho e os doutrinadores gritam.

– Para render a pauta ou o assunto, redescobrimos sempre que depois de uma grande tragédia chegam as doenças vindas do lixo e da sujeira deixados ali, por nós mesmos ou por alguma licitação irregular.

– O lixo, a sujeira, a ocupação irregular e todos os outros assuntos que são frutos de nosso próprio descaso de repente viram motivo de indignação geral. O mecanismo é um pouco semelhante ao do linchamento (nesse caso, moral): “as autoridades” são culpadas e uma nova torrente – agora de um ódio reativo, com fundamento não muito distante daquela outra torrente de entulho – se dirige a elas. Com uma diferença, pois “as autoridades” continuam refugiadas e protegidas sob a própria generalidade e falta de objetividade crítica  que o termo “as autoridades” possui.

– A indignação geral se acompanha de compadecimento, geralmente expresso em algumas iniciativas mais ou menos organizadas. Começam as doações de mantimentos e roupas para os desabrigados, acompanhada de inúmeros voluntários e do voluntarismo de diversas instituições mais ou menos oficiais.

– O tempo passa e… logo se descobrem desvios das doações ou mesmo das verbas públicas destinadas aos municípios atingidos. Como se alguma atmosfera misteriosa conduzisse  sempre  (pois isso sempre ocorre) os voluntários, funcionários ou dirigentes a tirar vantagem da boa vontade do doador e da desgraça da vítima. Estamos no país do jeitinho, não é mesmo?

– No meio da muvuca geral e dos assuntos mal resolvidos, o amanhã chega. E como diz o Dr. House, todo heroísmo ou desgraça de hoje dará amanhã lugar à notícia de um panda parindo trigêmeos.

Mas os pandas não parem sempre, e é claro que você verá tudo de novo (e sob disposições subjetivas não muito diferentes) no ano que vem.

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2 comentários em “Roteiro para as tragédias naturais brasileiras

    1. Obrigado pelo comentário, @_Maga!

      Pois então, o esforço do texto – tímido, diante de tudo – é bem o de não deixar nossas disposições serem as mesmas frente a uma situação que nós (sociedade e imprensa) nos esforçamos por fazer parecer a mesma…

      abraço!

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