Ler (e não ler) um texto acadêmico de humanas

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Fernando Botero, Woman Reading

Tempos atrás vinculamos um pequeno texto sobre ler em geral e ler em cursos de ciências humanas. De um lado, era alarmante o fato das pessoas comuns simplesmente não lerem (e não há qualquer exagero em dizer isso). De outro, era surpreendente presenciar, inclusive em diversos cursos de humanas, professores prescrevendo – quando muito – textos curtíssimos aos alunos, às vezes não recomendando mais do que algo em torno de três páginas (!).

Nesse contexto, surpreendem informes como esse, vinculado no Sul 21. O jornal aponta o link a um texto de “como ler um texto acadêmico em humanas”.

Bem intencionada, a autora recomenda 23 parâmetros de leitura. Ela também admite que um aluno de humanas já fez seu segundo grau e portanto sabe ler e interpretar texto.

Mas, visto que um texto de humanas não é um jornal, uma revista ou um romance, como ver aqueles parâmetros? Eles são corretíssimos e não invalidam o esforço da autora. O que surpreende é a necessidade mesma de colocá-los, o contexto a mover alguém à escrita de parâmetros de leitura de um texto.

Certamente ler um texto com rigor necessário a humanas é bem diferente de ler, pura e simplesmente. E – vale dizer – se é o rigor que se almeja, ele não se situa exatamente naqueles 23 pontos, mas no que os 23 pontos podem propiciar de resultados de análise e articulação, fazendo inclusive sair do texto elementos que ele não apresenta “de cara”. Em suma: os 23 pontos dizem respeito à coesão textual de um texto, enfim, a interpretação de texto.

Mas e então? Os cursos de humanas se resumirão a critérios gerais para a interpretação da coesão de um texto? É muito curioso o fato mesmo desse tipo de pergunta se colocar hoje. É quase como se o pressuposto inicial (saber ler e interpretar um texto) valesse como objetivo e fim (anteriormente situado na importância de usar a coesão de um texto, por assim dizer, “para algo”).

Se tudo é assim, não surpreenderá o fato dos cursos de humanas não serem “prioridade” em financiamentos federais, ou envolverem chavões como o de “curso coxa”. O que não representa qualquer preocupação para muitas instituições de ensino com seus lucros cada vez maiores (e ensino cada vez mais duvidoso), diga-se de passagem.

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