O grave caso do Pinheirinho e a imprensa

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Há dias, aqui e ali as comunidades virtuais e a blogosfera anunciavam a resistência de uma comunidade de SJC chamada Pinheirinho aos (des)mandos da polícia e do governo de SP. Trata-se de 1600 famílias que, 8 anos atrás, ocuparam um terreno pertencente à massa falida de uma empresa do especulador Naji Nahas.

Na imprensa maior, silêncio. Ou quando muito, algumas informações curiosamente mais desconexas do que as das redes sociais. Ou ainda,  o velho tema da mera exposição – ainda que lacunar – do “fato”, como se de repente velhas cartilhas de jornalismo dos anos 50 saíssem da gaveta.

Um dos momentos mais dramáticos – e inclusive visível aqui e ali para o cidadão em algumas fontes menores – ocorreu quando, diante da ameaça de invasão por policiais da tropa de choque, os próprios moradores improvisaram também sua “tropa”, com paus, canos de PVC (servindo de caneleira), tambores cortados (escudos) e capacetes de motociclista!

Em meio à curiosa carência de informação – acessível apenas por meios secundários -, ontem de madrugada a polícia invadiu o Pinheirinho e, como se diz vulgarmente, “tocou o horror”. O saldo foi de 7 mortos, muitos feridos e 1600 famílias com uma curiosa curiosa questão: como viver e morar diante de tal… constrangimento? Conforme dito por Hugo Albuquerque (no melhor post sobre o assunto), o movimento de constituição de uma favela já vem de um descaso anterior da sociedade e do Estado – gerando um novo problema de consequências dramáticas quando o mesmo Estado resolve desalojar uma favela inteira.

A invasão da polícia teve duas características muito parecidas com outra invasão ocorrida meses atrás, quando estudantes da USP ocuparam a Reitoria (foco: polícia e linha de atuação do Estado). Em primeiro lugar, os policiais contaram com o elemento “choque” e invadiram a comunidade de madrugada (como dizem autores como Naomi Klein, o elemento surpresa do “choque” deixa as populações desorientadas e mais expostas à manipulação, pois se tornam momentaneamente incapazes de se organizar por si mesmas). E em segundo lugar, diversos canais da imprensa maior sabiam antecipadamente da invasão e se apresentaram logo atrás das primeiras fileiras dos policiais!

Voltando ao Pinheirinho, o cidadão brasileiro viu tudo – ou melhor, não viu – como se a comunidade permanecesse inacessível ao resto do  Brasil e não tivesse nada a dizer – mera massa informe, corpo estranho incômodo ao organismo social, invasor de um terreno que “de direito” seria de um cidadão propriamente dito. Em contrapartida, diversos dos jornalistas que mantinham a curiosa omissão de informação sobre o Pinheirinho estavam logo atrás dos policiais. Todo aquele silêncio de repente se traduzia em imagem. Destituir uma comunidade inteira de voz e consistência, e ao mesmo tempo colocar-se atrás das fileiras da polícia: em termos de jornalismo, o leitor imagina algo mais simbólico?

Rigorismo de ocasião

Em “primeira mão”, jornais maiores do país – como o Fantástico – cobriram ontem o acontecimento. Diante da desinformação geral, houve algo ainda mais grave.

Durante a semana passada, uma liminar da justiça federal suspendeu o pedido de reintegração de posse. Houve uma tentativa de negociação entre o governo federal e os governos estadual e municipal para a desapropriação do terreno. Diante do quadro das negociações (afinal o interessado na reintegração não passa de uma pessoa jurídica, em detrimento de milhares de outros sujeitos com carências materiais imediatas),  a própria parte interessada na reintegração aceitou suspender o processo por 15 dias. Mas a juíza responsável de SP adiou na sexta-feira seu parecer sobre suspender a ordem de reintegração.

Dado o quadro, salta aos olhos o surpreendente rigor do governo em acionar a polícia e invadir a favela. Se tudo ocorre assim, conforme já apontou Rovai é igualmente surpreendente o gesto do governo de SP em aproveitar a “brecha” jurídica e condicionar  de antemão o resultado da querela jurídica que se anunciava, por meios não jurídicos e força bruta. Perceba-se a operação: se tudo ocorre assim, não se tratou de emprego da polícia para restituição da ordem pública, mas de uso da polícia como força para que certa decisão correndo na justiça se antecipasse (hoje o Jornal Hoje divulgou passagem cortada no Fantástico ontem, onde um juiz estadual de SP declara: “A justiça federal não é superior à justiça estadual. Ambas estão no mesmo patamar. Uma não pode revogar a decisão da outra. Só um tribunal superior“).

Daí, diante de milhões de espectadores, em reportagem com tom incriminatório mostrando os moradores como vândalos e traficantes, o Fantástico enunciou o seguinte:

O despejo foi determinado pela justiça estadual. A justiça federal tentou suspender a operação. (…) A desocupação continuou porque o tribunal de justiça manteve a decisão da justiça estadual.

Durante a reportagem, uma moradora serviu retoricamente para endossar a decisão em favor da operação. Nenhum outro morador falou. A “favor” deles o Fantástico apenas denunciou uma suposta cracolândia e um veículo da imprensa queimado em reação à invasão. O que o espectador deve entender: o Pinheirinho tem uma cracolândia e os manifestantes são vândalos; os “homens de bem” não participam da resistência à polícia (essa, possuidora de  uma razão inapelável) e apenas os bandidos reagem;  não há qualquer questão delicada sobre moradia, especulação imobiliária e o próprio desfecho que se anunciava nas negociações; essas negociações não chegam mesmo a ser importantes para eu e você – a chamada opinião pública – tomar conhecimento, apenas devemos aceitar que a invasão policial é correta e esperar o início do Big Brother.

***

Tudo isso é muito curioso, porque décadas atrás poderíamos ver, por exemplo, um Sérgio Buarque escrevendo sobre assuntos como a “psicologia do homem cordial” (tão atual…) em um jornal:  indício de que existiam intelectuais interessados no país (e um país aparentemente interessado em seus intelectuais), ultrapassando a figura da erudição ornamental (descrita pelo próprio Sérgio Buarque) e escrevendo sobre a constituição mesma do país.

Hoje em dia nós – o homem comum – perdemos acesso às discussões sobre o país. O “jornal” não nos concede mais o direito de ver ou julgar quando certa decisão institucional (de um governador, por exemplo) se antecipa à justiça convertendo a si mesma em “justiça”, não importando quantas outras vidas estejam em jogo. Mesmo que o beneficiado aparentemente não passe de um… sujeito jurídico interessado apenas em liquidar a própria falência.

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3 comentários em “O grave caso do Pinheirinho e a imprensa

  1. E fora toda a discussão jurídica e ideológica, que a bem da verdade são uma só, tem uma coisa que indigna mais que tudo por ser tão simples – primeiro eles tiram todo mundo a força de suas casas para só depois cadastrar as famílias e bens de cada uma, jogando tudo e todos no buraco que der.
    Quer dizer, ligam o “foda-se” e ainda recolhem aplausos dos imbecis de sempre.
    Mas ainda tem jornalista que se indigna: http://flaviogomes.warmup.com.br/2012/01/pinheirinho/
    Esse nunca mais vai trabalhar na grande mídia.

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