Livros e acesso à leitura no Brasil

O livro brasileiro é barato ou caro?

Visito uma loja virtual ou livraria qualquer em outros países e constato: muitos clássicos da literatura universal podem custar, digamos, 7, 8 ou 9  euros, 20 dólares ou menos, etc.

Aí visito uma livraria brasileira e vem o susto: traduzido, o mesmo livro custa muito mais caro, tanto em termos absolutos quanto relativos.

Um exemplo qualquer, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, de Alexandre Koyré (um clássico de história das ciências): pago entre 8 e 9,50 euros de um lado e por volta de 8,5 dólares de outro (13/02/2012).

Calculando alto, vejo que um consumidor paga 25 reais na opção mais cara. E se tento importá-los, pagarei com todas as taxas e mais o lucro da Livraria Cultura 31 reais na edição francesa e 60 reais numa edição (pelo jeito mais inacessível) da John Hopkins.

Retornando à edição brasileira, nosso preço: 69 reais!  (É certo que os livros dessa editora são mais caros, mas vale repetir o procedimento com outros títulos e editoras…)

Moral da história: sob termos absolutos, em muitos casos o brasileiro paga mais caro pelo livro brasileiro, mesmo frente à opção de importar o mesmo título pagando as taxas e o lucro da livraria. E isso quando o brasileiro tem a opção de fazer tal comparação, pois a comparação mesma mostra o quanto os preços estão caros por aqui e o quanto somos impedidos de fazer maiores escolhas.

E em termos relativos? Com o salário mínimo de 622 reais, pago 69 na edição brasileira, o que representa 11,1% de meus ganhos. Nos EUA, com o mínimo de 1160 dólares (maio/2011) o livro de US$ 8,50 representa 0,73% do salário. Já o consumidor francês gastará apenas 0,68% de seu mínimo de 1398,37 euros (jan/2012).

A conta é rasteira, mas ela diz muito sobre muita coisa.

Em primeiro lugar, o livro é um bem de relativo luxo por aqui. Quem é pobre tende a ler menos, pois precisa trabalhar mais – e mais tempo – para garantir virtualmente condições de uma boa leitura (condições negadas pela própria necessidade de criá-las!).

Em segundo, é muito curioso como as coberturas dos jornais criam reportagens sobre o “valor da leitura”, como se a leitura tivesse uma espécie de valor em si mesma, no “mundo das idéias”, deslocada dos próprios interesses do leitor. Criam-se chavões (“quem lê viaja”), crianças em idade escolar lendo recebem elogios cerimoniosos (como se ler não implicasse a própria noção de “idade escolar”!), e as heróicas conquistas dos analfabetos que aprendem a ler parecem não servir aos jornalistas para uma crítica de nosso próprio sistema, mas sim como um reforço de que qualquer um pode e deve embarcar por vontade própria – e não por direito básico – nesse mundo das idéias! (Isso é particularmente interessante, pois se de um lado os mesmos jornais falam de boca cheia sobre a “qualificação para o mercado de trabalho”, de outro a leitura pela leitura aparece como uma espécie de opção sacralizada mas individual e solta, sem implicações efetivas para o leitor e seu mundo. Figuras contemporâneas de nossa cultura reduzida ao ornamento e ostentação privados – sem maiores compromissos públicos -, como dizia Sérgio Buarque).

Finalmente, alguns acusam sites como o Livros de Humanas de pirataria e afins. Como se o LdH fosse causa, e não efeito, de um sistema totalmente fajuto. O princípio é básico e nenhum liberal teria a coragem de negar abertamente: diminuindo o preço do livro e criando múltiplas opções de edição (caras, baratas, de bolso etc.), as editoras se salvam e os leitores criam suas bibliotecas. Nos ditos “países avançados”, não é raro ver o mesmo título lançado em dois ou três tipos diferentes de edição, acessíveis para exigências diferentes. Ao invés de exploração do leitor pelas editoras e livrarias (como isso soa estranho!), o “mercado” é que se rege minimamente pelo consumo individual. Não seria até curioso encontrar alguns chamando isso de “capitalismo”?

Anúncios

10 comentários em “Livros e acesso à leitura no Brasil

  1. Para mim o melhor testemunho disso é a estupefação de Érico Veríssimo com o mercado literário norte-americano em 1941, bem descrita em seu “Gato preto em campo de neve”. Basta dizer que em 2012 nosso mercado editorial ainda é infantil comparado com o dos EUA de 70 anos atrás…

    1. Olá André!

      Obrigado pela referência. Não conheço ainda esse texto, mas já está interessante pensar no tipo de consequência – para além da menção ao Buarque – da análise do Veríssimo junto ao contexto acima (algum apontamento?).

      Abraço,

      1. São as memórias dele da viagem de 3 meses que fez a convite do Depto. de Estado, em 1941, no âmbito da Política de Boa Vizinhança. Observou com riqueza de detalhes toda a vida cultural norte-americana, e por tabela expôs nossa incapacidade de criar algo parecido com um mercado de bens culturais no Brasil. As observações sobre o mercado literário rendem um bom capítulo. Não qual o nível de influência que isso teve na escrita dele, mas ele se tornou um dos autores que mais vendeu livro no Brasil.

        Tenho pensado tanto sobre essas limitações do nosso mercado editorial e do nosso sistema educacional. Os blogs ajudam um pouco a furar esta casca grossa, não?

        Abraço,

      2. Verdade… e um pequeno exemplo já serve: o quanto os blogs e as redes colaboraram com o estudo de inúmeros indivíduos pelo menos nos últimos 13 anos, difundindo conteúdo que de outro modo seria caro ou mesmo inacessível.

        abraços,

  2. E também é muito curioso o fato de não termos aqui algo como a PUF francesa ou as edições “paperback” norte-americanas: edições baratésimas, voltadas para um público universitário meio “duro” (não tanto qto o daqui, claro…) e para um público profissional que não necessariamente compra um livro para ler inteiro. Certa vez um dos editores da Cia das Letras me disse que o tamanho das tiragens de baixo preço não teriam retorno compensador. E que os autores de teses preferiam ver suas obras em edições de “alta qualidade”.
    Isso se conecta com a parte do posto que realmente achei interessante: qdo o Catatau levanta os mitos e chavões que se criam em torno da leitura – são mais ou mns os mesmos que se criam em torno do livro. Desde que descobri o Kindle e o Positivo Alfa tenho comprado muitos livros eletrônicos e baixado material da Internet em PDF. Ainda compro livros, mas em qdade mto pequena, comparado com as que fazia dois anos atrás. Mas mta gente a que tento explicar as vantagens – que eu vejo – no leitor e no livro eletrônico saem-se com esta: “ahhhh, mas eu adooorooo sentir a capa, mexer com a páginas…” Pois é… Me parece que esse “amor à leitura” conecta-se ao “amor ao livro”: remete-se ao beletrismo e à erudição diletante, muito característica de nossa sociedade de classes, na qual “ler por ler” e ter na biblioteca uma espécie de “templo” tornam-se emblemas de distinção. Emblema que, como disse o redator, o pobre não pode adquirir, pois gasta seu tempo com o trabalho, q por sua vez nunca chega a possibilitar a compra de livros e tempo para leitura.

    1. Prezado Bitt,

      Muito bom revê-lo por aqui, na nova casa do Catatau. E obrigado pelo comentário!

      Perfeito, o culto ao livro do modo como você expôs – a materialidade do livro, seu cheiro etc. – é um complemento efetivo ao exposto acima. Daí não é raro ver nas livrarias a escolha dos livros como se vai ao Blockbuster escolher filmes: olha-se a capa, vê-se as sinopses, “esse livro deve ser interessante”, “olha, isso me atraiu”… O que não é o problema (pois todos fazemos isso), mas sim mostra um problema quando isso se alça como experiência maior da leitura (avaliações como as sobre se um livro cheira ou não bem não deveriam aparecer DEPOIS do livro lido?)

      Abraço!

  3. É importante lembrar que essa questão tem outro lado.
    Já vivi este descrito no blogue quando fui à cata do A Interpretação das Culturas, do Geertz, e foi muito mais barato comprá-lo fora do país, com o custo de uma viagem de milhares de quilômetros, do que aqui. Muito mais barato.
    Mas há também esse lado importante que o bitt aponta. Há certo imaginário acerca das estantes, que diz respeito à aura de solenidade que elas devem ter para muita gente. Isso é um dos pontos que explica o fato de muita gente preferir pagar caro por uma edição mais-ou-menos do que baratinho nas ótimas edições de clássicos da L&PM Pocket, lá de Porto Alegre. Edições recheadas de notas de rodapé, com prefácios e posfácios de gente graúda, papel bem decente, custando por volta dos R$10,00. Em termos absolutos e relativos, saem bem mais em conta que muita edição estrangeira, o que acabaria com desculpas esfarrapadas para não ler (o que prova que são apenas desculpas esfarrapadas e não dão conta do problema).
    É pena que esses pocket sejam predominantemente de literatura, porque muita gente iria deixar de piratear livros se houvesse publicações científicas na coleção.
    André

    1. Obrigado pelo comentário, André!

      Não entendi o “outro lado”, visto que seu comentário pareceu – pelo menos para mim – “do mesmo lado” do assunto e afim ao que o Bitt também comentou.

      Uma curiosidade: comprei dias atrás Walden, de Thoureau, por R$ 8,40 em uma das lojas físicas da Livraria Cultura (isto é, incluso no preço importação e lucro da livraria). Edição simples, mas bonita. O preço etiquetado: U$ 3,50.

      Abraço,

      1. Meu “outro lado” era uma mistura do que diz o texto e o Bitt. Além de preços caros no Brasil, leitores daqui não parecem se interessar tanto por edições baratas. Coisas como as edições L&PM não tem muito “sex appeal”. Ou seja, meu “outro lado” diz respeito ao imaginário do leitor. Além das editoras e das políticas públicas não ajudarem, há aí uma questão cultural que atravanca a circulação de edições mais simples.
        E, evidentemente, editora nenhuma se interessa por fazer alguma campanha de marketing do “tipo Havaianas” que mude isso.
        Lembro de um caso que um livreiro mais ou menos confiável me contou. Estava eu comprando a última edição do A Formação da Literatura Brasileira, do Candido, que agora é grandalhona e em papel reciclado. O livreiro, indignado, me contou de mais de um caso de clientes que se recusaram a comprar o livro por conta do papel. Queriam papel branquinho. Detalhe: a livraria fica dentro de uma universidade.
        De qualquer forma, o preço daquele livro ainda é um assalto a mão armada (ainda mais se levarmos em conta as convicções políticas do autor…).

        Quanto ao Thoureau, nem achei absurda a margem de lucro colocada pela Cultura. Estranho estarem cobrando tão pouco (é duro dizer isso, hein!).

        Abraço,
        André

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s