“A vida não se encaixa entre dois livros”

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Alguns decidem consagrar à escritura o mesmo tempo concedido à leitura. Thoreau, lembra Emerson, teve por princípio não dedicar tempo para escrita a não ser depois de uma caminhada. Para evitar as armadilhas da cultura e das bibliotecas. Pois, de outro modo, a escritura é preenchida pela escritura dos outros. Por pouco que eles mesmos tenham escrito sobre os livros dos outros… Escrever deveria ser isso: o testemunho de uma experiência muda, viva. E não o comentário de um outro livro, não a explicação de um outro texto. O livro como testemunho. Mas eu diria “testemunho” no sentido que toma essa palavra em uma corrida de revezamento: passa-se o “testemunho” a um outro, e ele se põe a correr. Assim o livro, nascido da experiência, reenvia à experiência. Os livros não são o que nos ensina a viver (é o triste programa dos que dão lições), mas o que nos dá desejo de viver, de viver de outro modo [autrement]: encontrar em nós a possibilidade da vida, seu princípio. A vida não se encaixa entre dois livros (gestos monótonos, cotidianos, necessários, entre duas leituras), mas o livro faz esperar uma existência diferente. Assim ele não deve ser o que permite escapar da cinzenta vida cotidiana (o cotidiano é a vida como o que se repete, como o Mesmo), mas o que faz passar de uma vida a uma outra.

“É vão sentar-se para escrever quando não se levanta jamais para viver” (Thoreau)

Frédéric Gros sobre Thoreau, no belo Caminhar, uma Filosofia.

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