Entre panfletos

A velha senhora parte em sua mais nova Cruzada para conquistar outras almas. Bengala de madeira na mão e vestido florido, ela sai corajosamente na rua suja, concretada e barulhenta.

Com um calhamaço de panfletos dentro de uma Bíblia sem notas de rodapé – mas bastante lida -, ela aborda cada um com a pergunta e o sorriso prontos: o que é o destino para você? Ele molda você, ou é você quem o molda?

Independente da resposta ela dá o panfleto. Na foto de cima, uma família de orientais bem vestidos e iluminados pelo sol, tendo atrás um prédio bonito com letreiros em ideogramas: são os bem sucedidos. Na foto de baixo a mesma família oriental, mas agora mal maquiada com “sujeira”, mostrando serem mendigos. E mais abaixo a pergunta: “sua vida é controlada pelo destino?” No conteúdo, chamarizes bíblicos e horários de reuniões de uma religião neopentecostal.

A velha senhora certamente já passou por muito na vida. É a prova viva de que os acontecimentos exteriores moldam uma existência inteira, com suas costas arcadas, pele envelhecida e amorenada pelo sol, as rugas de abatimentos marcantes e contínuos e, enfim, a própria bengala. Para estar ali depois de tanta experiência, ela considera o conteúdo daqueles panfletos realmente importantes.

Mas invariavelmente as reações de quem recebe os panfletos são as mesmas: uma surpresa inicial, seguida de imediato descrédito disfarçado com um ar respeitoso. O receptor não é mais o iletrado de 2000 anos atrás, sempre apelado pelos pregadores ocasionais para ativar sua faculdade de discernimento. Ele vive hoje na dita sociedade de informação, e por isso sabe que existe tanta informação no mundo quanto suas informações e verdades próprias valem de saída muito mais do que todas as outras, inclusive de senhoras simpáticas com panfletos curiosos.

Daí o festival de caras e bocas. Elas são ícones de inúmeras nuvens de certeza emanando ali, naquele momento mesmo, ocultadas pelo ar respeitoso: os últimos livros do Dalai Lama sobre o trabalho, alguma provável religião oriental, projetos místicos itinerantes que abençoam cães lhasa, outra religião cristã concorrente, o nível atingido na sociedade secreta, palestras e livros de auto ajuda, o simples evolucionismo, agnosticismos, o ritmo de algum proibidão, ecletismos, corpos de expertise sobre o “homem”, a palavra do psicoterapeuta, o descrédito puro ou o psicotrópico desimpregnante. No mercado das almas, trocar qualquer julgamento certo pelo panfleto duvidoso é sempre mal negócio. Ou, caso contrário, precisa ser negócio definitivo, mesmo com a prateleira de escolhas subjetivas tão cheia de outros produtos.

Disso tudo, o acordo é tácito: a senhora percebe a não receptividade respeitosa. Ela sorri, agradece e sai. Mas sabe que deixou ali mensagem importante, uma pequena fagulha que, ativada, pode mudar uma vida inteira. Afinal, tudo aquilo mudou a sua própria.

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