Um “discreto” motivo para ser favorável ao veto do novo Código Florestal

https://i2.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/ama2.jpgDia 4 de maio de 2012, o Jornal da Band exibiu uma reportagem muito curiosa.  Segundo o tom, trata-se de uma “notícia que atinge o centro da argumentação dos ambientalistas que defendem o veto”(sic). O centro da argumentação, dizem, seria o fato do famoso “aquecimento global”.

A notícia está aqui. Resumindo: James Lovelock, um dos principais advogados do aquecimento, “voltou atrás” e reconheceu que houve “exagero e alarmismo” quanto às previsões. Mas há mais: a reportagem cita o documentário Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore (tornado um “apóstolo” do aquecimento), e alinha Lovelock ao lado de Gore como quem fez “as previsões mais catastróficas, no entanto” (sic.).

O repórter da Band Fabio Pannunzio usa certo raciocínio curioso para retirar daí a conclusão: SE Lovelock, que antes de tudo nós mesmos da Band situamos como uma posição dentre outras (e mais ainda: um dos mais radicais, com  “as previsões mais catastróficas”), voltou atrás e negou o alarmismo, ENTÃO isso é “um golpe duro ao ambientalismo do mundo inteiro” (sic) e LOGO (continua Pannunzio) isso poderá influenciar a decisão de Dilma sobre o veto.

Não é preciso pensar muito para notar que o primeiro raciocínio da reportagem é de impressionante má fé, especialmente vindo de um grande canal de imprensa como a Band. Seja a favor ou contra o Novo Código Florestal, ninguém negará que não cabe à imprensa, especialmente em assunto tão polêmico e supostamente divisor de posições, 1) reduzir o assunto inteiro a uma de suas variáveis em pauta, a do aquecimento, 2) utilizar incrível má fé na redução da posição de Lovelock como determinante de todo o discurso ambientalista e, o que é muito mais grave, 3) oferecer à chamada esfera pública não os fatores para que ela julgue, mas sim um julgamento pronto, para que ela o adote sem qualquer contestação. Pois é esse o tom: Lovelock voltou atrás, logo os ambientalistas estão errados e isso afeta o “centro” da argumentação contra o Novo Código.

Continua Pannunzio: os chamados “produtores rurais”, citados como “pecuaristas e ambientalistas”, “se sentem ameaçados pela pressão dos ambientalistas” (sic!). Inclusive os ambientalistas possuem um “lobby” para garantir seus interesses. E se é lobby, os interesses são escusos, manifestados nos bastidores e fundos de corredor, certo?

A reportagem ainda tenta desmentir um artigo de Marina Silva, entrevistando Luiz Alberto Morion e Xico Graziano. Vetar o Código, para Graziano, seria um “desrespeito à democracia”. E para o climatologista Luiz Alberto Morion, em tom praticamente simétrico e inverso ao de Lovelock, na verdade o planeta, nos próximos 20 anos, resfriará ao invés de aquecer, o que contraria os ambientalistas e, enfim, o veto.

Seja a favor ou contra o Código, o leitor novamente não negará que cabe à imprensa informar, e não julgar por nós mesmos. Um pequeno exercício imaginativo fará lembrar que vivemos no Brasil, e aqui a TV é fonte exclusiva de informação para muita gente, aos milhões.

O primeiro recurso curioso é o de que os ruralistas se sentem “ameaçados”. A posição atacada – enfim, “ameaçada” – não é a do antigo Código? Ele é quem está sob o crivo da substituição – a “ameaça” retórica é contra ele, e não dele. Se as leis instituem o que é de direito estabelecido em um país, é muito curioso ver um jornal alinhando a posição de “estabelecido” a quem ataca a lei consolidada, não à lei mesma. Enfim, está em questão se o contraventor deve ser anistiado… e isso já supõe qual posição o jornal nos oferece antes de tudo como a correta.

Ou ainda, o lobby. Se há um “lobby ambientalista”, se há tantos interesses escusos,  a Band esqueceu de nos informar sobre a maquinaria de recurso tão sórdido. A Band esqueceu também de nos informar que os formuladores dessa idéia na presente pauta fazem parte de um conluio muito curioso. O discurso do lobby vem sendo empregado quase como um irmão siamês do Novo Código Florestal (pois um retirou até aqui boa parte de sua existência na suposição da veracidade do outro) por gente tão diferente quanto os ruralistas do DEM e os “comunistas” do PCdoB. Um partido classicamente ruralista aliado aos comunistas? Gente como Katia Abreu (saída do DEM) e Aldo Rebelo (juntando ainda os militantes comunistas!) dizem, cada qual de seu jeito mas de mãos dadas, que há uma espécie de complô internacional, encabeçado por diversas ONG’s, para atravancar o desenvolvimento do Brasil. Mas essa idéia só se garante caso apoiada em outras duas: 1) o desenvolvimento se define pela exploração da terra segundo o modelo de agronegócio apresentado pela imprensa como modelo ideal, isto é, o do grande produtor rural brasileiro, e 2) o desenvolvimento é oposto à conservação, pois a noção de produtividade identifica-se absolutamente com a de agricultura extensiva. Logo, negar a crença de que a noção de produtor rural é exatamente igual à de grande produtor rural, negar a crença de que o desenvolvimento precisa se opor à conservação, significa materializar diante de nós interesses contrários aos nossos, à escolha: uma grande conspiração ongueira ou, na versão mais moderada, um lobby (se o argumento do lobby é tão importante, porque não descrevê-lo em todas as suas nuances e oferecer ao brasileiro a possibilidade de julgar?)

Mas a Band continua, contrariando a posição (alvo e exemplar) de Marina Silva, reduzindo-a em primeiro lugar ao argumento do aquecimento (conforme o fez antes). Para isso Luiz Alberto Morion vem com a fórmula pronta: o mundo na verdade esfria, não aquece. Logo, a Band nos diz que isso não significa que o ponto nodal da questão do dito “aquecimento” é, como já comentou muita gente, a intensificação das mudanças climáticas (podendo gerar inclusive invernos mais frios, ou mesmo baixar a temperatura média de muitos lugares); isso não significa tampouco que o argumento do aquecimento é apenas mais um dos argumentos dos ambientalistas, ou mesmo que, dentro do argumento do aquecimento, há outros fatores importantes e não “globais” a considerar (como por exemplo a influência das alterações locais nos microclimas locais); isso significa apenas que se o mundo esfria, então devemos acreditar no Novo Código e ponto final.

O recurso mais interessante entretanto é o de entrevistar Xico Graziano. No próprio twitter ele se descreve assim: “Agrônomo, agroambientalista, escritor, social democrata(PSDB)”. Ele é quem dá o juízo final sobre o Novo Código, ele fecha o impedimento que a Band nos dá de julgar, porque nos convence com o último termo. Mas… não é ele do PSDB, portanto alinhado com as posições ruralistas? Qual juízo decisivo e “imparcial” ele nos forneceria de que os ruralistas estão certos porque os ambientalistas estão errados?

Veja-se: do Novo Código não se falou nada, ou muito pouco, de seus efeitos ou de possíveis interesses atrelados à sua aprovação. Afora as omissões e falácias acima, ao invés de afirmações, o brasileiro foi bombardeado com negações: Lovelock recuou, o mundo não aquecerá, por trás do ambientalista bonzinho há um lobby… e por isso devemos ser contra o veto. Sem marcar gol a favor a reportagem investe no gol contra. A conclusão imposta é a de que históricos contraventores de uma Lei não cumprida pela institucionalização de nosso descaso são, na verdade, apenas empreendedores individuais (e não encarnam os interesses dos grandes latifundiários), oprimidos por um lobby ambientalista (ou um complô internacional, à escolha) e ao mesmo tempo até líderes democráticos ou eventuais defensores da causa ambiental.

Mas se o brasileiro foi levado a aceitar um julgamento baseado em negações, reduções e generalizações, se o grande canal de imprensa acreditou nesses recursos para convencer o brasileiro, se ela preferiu convencê-lo ao invés de oferecer discussão, nada desautoriza ao mesmo brasileiro supor várias coisas: que ele não foi informado corretamente em todo o processo, que o tom da Band se reproduziu também em outros jornais e, enfim, que isso tudo também carrega provavelmente algum lobby.

Se a imprensa fez passar o suposto gol contra do ambientalista como verdadeiro gol a favor do ruralista, ela mesma marcou gol contra. Pois nada impede de utilizar seu mesmo recurso e concluir: seu discreto (ou nem tanto) jogo de recusas contra o veto só pode ocasionar a recusa desse jogo e a posição favorável ao veto. Em mais de um caso a História ensinou, sob consequências dramáticas: vindo da imprensa, esse tipo de jogo não é nem um pouco descompromissado.

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