Kakfa no Brasil (ou a repartição feliz)

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/funcionario-publico.jpgNo Facebook e no Orkut é tudo lindo etc., mas é engraçado, uma dessas milhões de pessoas com prováveis perfis floridos impede você de um direito seu porque a vida dela se resume – em meio a outras milhões –  inteiramente em agir sob o seguinte postulado intimidatório: “meu papel é fazer o papel sair daqui e ir ali, não me importa o que você pensa; e não insista, porque você sabe bem: seu papel está aqui, e meu papel é fazer o papel sair daqui e ir ali”.

Então nos surpreendemos, às vezes até com um pensamento fugidio, com  “essas coisas estranhas que nos acontecem”. Damos um jeito e esquecemos de tudo até o próximo evento.

Aí Thoreau, prevendo há 150 anos em sua cabana como as pessoas serão tão doidas de viverem essa vida citadina (e mesmo os que reclamam a merecem), anota num borrão:

“Aonde vai parar essa divisão do trabalho? e no final das contas a que objetivo ela serve? Claro que outra pessoa também pode pensar por mim; mas nem por isso é desejável que o faça e que eu deixe de pensar por mim mesmo”.

“A que objetivo ela serve?” É de se pensar, dentro de algumas décadas, que tipo de frase de lápide faria justiça à vida do fidalgo dos papéis descrito acima. Isto é: entre a vida e o orkut, que tipo de frase faria justiça de verdade.

Mas nem Thoreau e nem Kafka seriam bons nomes para esse texto. Falamos do que o Brasil tem de próprio, não do que compartilha com o resto do mundo. Diante do alegre perfil do burocrata acima (multiplicado em milhões), seria de se pensar em Bernardo Soares, o heterônimo de Fernando Pessoa em prosa.

“Dono do mundo em mim”, Bernardo Soares tem o mundo inteiro em seu pequeno ofício, como ajudante de guarda-livros na Rua dos Douradores. Lá ele descreve como o mais simples trabalho oferece uma infinidade de sensações para uma vida inalienavelmente única, conduzindo a palavra “poesia” a significados esquecidos:

Penso, muitas vezes, em como eu seria se, resguardado do vento da sorte pelo biombo da riqueza, nunca houvesse sido trazido, pela mão moral de meu tio, para um escritório de Lisboa (…) Se houvesse de inscrever, no lugar sem letras de resposta a um questionário, a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do Antonio moço do escritório. E a todos poria, em letras magnas, o endereço chave LISBOA.

É admirável como a figura de Soares se abre às pessoas que frequentam sua mesa ou balcão, enfim, a rua inteira e Lisboa. Mas isso ainda não serve de exemplo aplicável ao que começou o presente assunto: não há ali um lindo perfil laureando um orgulhoso Soberano dos escritórios, um Rei dos papéis, Fidalgo dos caprichos? Entre uma omissão ao cliente eventual, uma ação submissa ao cupincha e as pilhas de papel acumuladas pela incompetência, ele tem bastante tempo para entrar na rede social e repostar no perfil a frase de Fernando Pessoa:

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/funcionario-publico.jpg

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Um comentário em “Kakfa no Brasil (ou a repartição feliz)

  1. A questão prioritária é perguntar com Kafta: a) Que devo saber?; b) Que devo fazer?; c) Que me é lícito esperar? ; d) Que é o homem? A educação que recebeu todo homem até agora, descer dela pelas janelas da trazeira da casa, como aconselha Fernando Pessoa. A falência não´está na educação. Está na inutilidade do saber que se sabe, pura erudição ornamental, e oferecer a todos habitantes homens do planeta Terra aquilo que realmente vale. Um saber ignoto e que salva na Necessidade. Conhecimento não se transmite, pedagogos de todo mundo, ouvi-me! Só se aprende através da Experiência (Erfahrung), que é uma viagem sensorial da Ignorância. A políticos, todo meu silêncio de abjeção.

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