O contra-espanto

Eis que um pesquisador se espanta. Ele adotava algumas diretrizes de um debate que ocorria em sua época, mas de repente percebe: esse debate e essas diretrizes mesmas foram todos mal formulados, o estado das coisas é ruim porque as perguntas e todas as respostas possíveis a essas perguntas são igualmente ruins.

Continuar respondendo as perguntas prévias significa cair num engodo, pois enfim, as perguntas mesmas foram mal feitas. É preciso atingir um outro nível, no qual esse debate, com suas perguntas e respostas possíveis, apareça dentro de uma nova problemática. É preciso ver as coisas de fora…

Não à toa, o pesquisador espantado se lança em complexas pesquisas. Dar a volta em todo o problema exige muito esforço. É inevitável então que o pesquisador retome as disciplinas envolvidas naquelas perguntas ruins, cite seus compromissos, descreva suas funções, comprometa capilarmente seus argumentos…

Após um ou mais trabalhos o espanto toma forma, torna-se comunicável e constatável para pesquisadores – afeitos ou não às disciplinas criticadas – para que retirem suas conclusões. Pois o pesquisador espantado sabe que o prejuízo das disciplinas, enfim, do que anteriormente foi estabelecido, exige não apenas uma revisão ou atualização dessas disciplinas (pois inevitavelmente isso se faria a partir da escolha de fatores tributários dos termos ruins do debate anterior), mas seu abandono.

Retomar os pontos anteriores sob “novas” inspirações é apenas tentar justificar o prejuízo. Mas o espanto impõe a constatação de que as próprias justificações, partindo das pretensões do anterior e previamente estabelecido, também fazem parte do prejuízo. Justificar o prejuízo é apenas repor o próprio prejuízo com nova roupagem, é vestir o lobo com a pele do cordeiro.

Não demora muito, o tempo passa… e algumas das disciplinas criticadas são abandonadas. Mas por incompreensão ou por não ser possível contornar o espanto (a primeira opção é sempre a mais frequente), outras disciplinas criticadas se reconfiguram, reeditam os termos anteriores.  E então começam a proliferar, aos milhares, artigos sobre “aspectos” e “contribuições” daquele espanto ao “campo” das disciplinas anteriormente criticadas.

Mas se o espanto já previa e se colocava antecipadamente contra seu reposicionamento dentro do “campo” das disciplinas criticadas, como é que agora seus “aspectos” podem “contribuir” para com a evolução dessas disciplinas? Logicamente é auto-contraditório a posição criticada retomar a crítica dentro de sua própria posição criticada no cerne, como se a crítica apenas “contribuísse”… Inevitavelmente a crítica deve ser atacada ou acolhida, doa a quem doer. A História está repleta de exemplos contando que a importância de novas idéias já levou à inquisição ou à excomunhão (para não citar consequências piores). Para isso era necessário o debate e o fato dessas idéias serem compreendidas, claro.

De todo modo, isso não importa muito. O importante é rechear o currículo lattes, deixando-o eventualmente até maior do que o daquele pesquisador espantado.

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