O país que reclama

Mais de uma vez Sérgio Buarque falava sobre como a ocupação no Brasil se rege não por uma espécie de projeto, por assim dizer, “civilizatório” (no qual um povo colonizador utiliza a colônia como fim de sua própria felicidade habitando ali ou o que quer que seja), mas sim como prioritariamente lugar de aventureiros e pretensos fidalgos buscando ascensão rápida e fácil. As coisas não são feitas, elas “vão se fazendo”, isto é, o carro chefe da ocupação aqui nunca se fez por projetos orientados a alguma esfera pública, mas mesmo quando tais projetos existiram, isso sempre esteve ligado a fins outros que não o de uma esfera comunitária ou pública. Disso tudo à Lei de Gerson os exemplos pululam, como o das propriedades privadas reunirem mais poder e recursos do que as próprias cidades durante a Colônia, ou preocupações (durante a “Demarcação Diamantina”) sobre a circulação das pessoas imporem projetos que não dizem respeito a um plano geográfico qualquer onde circulam “cidadãos”, mas sim à importância de não invadirem localizades de mineração já visadas pela Coroa… e assim por diante.

Da atualização dessa formas de nos comportarmos conosco (Buarque mesmo chegou a frisar a importância de considerar essas formas, diante das quais amontoamos diferentes conteúdos), é muito curioso notar como nós mesmos usamos nosso direito de falar, reclamar ou usar a dita “crítica”. A convivência tão reiterada de nosso hábito de reclamar com a ineficácia mesma de nossa reclamação é um incrível dado “cultural” (faz parte de seu destino não ser considerado por ninguém), arrastado durante décadas sem que transformações substanciais ocorram em nossa sociedade. Do grevista moroso ao reclamão direitista, do funcionário público ao liberal, todo mundo se arroga o direito de reclamar. A reclamação é um bem universal do elevador à mesa de bar, passando pela fila do banco e até as reuiões de gabinete dos políticos. E ao mesmo tempo as reclamações, mesmo as mais enfáticas, funcionam quase como uma espécie de pequena catarse. Reclama-se para reclamar, por reclamar, pois de algum modo o próprio tom da reclamação antevê que outra será feita logo adiante (pois do contrário não reiteraríamos tanto nossas reclamações, ou não as repetiríamos, ou elas não seriam feitas com tanta paixão…).

Certamente esse tipo de despotencialização da voz do “cidadão” é um fenômeno global, mas nem por isso o caso brasileiro deixa de ter seu caráter específico. Se a norte-americana indignada quer reclamar da Guerra do Iraque e levanta o cartaz “Bush” fazendo o trocadilho com o outro significado dessa palavra, é difícil ver em outros países do mundo, especialmente aqueles que cultivam o tema cultural de “país do futuro”, reclamações reiteradas durante décadas por direitos mínimos, como saúde, segurança, água e esgoto, educação…

Vale ver mais de perto o pastiche. País afora cidades inteiras reclamam durante anos sobre o fato do abastecimento não chegar à população, com grande parte precisando de abastecimento por caminhões-pipa. Seca? Intempéries? Não, apenas os vereadores são os donos das empresas ligadas à distribuição dos caminhões-pipa (os motivos e problemas variam, mas não variam tanto sua dose de ridicularidade). Afinal, a água vale mais do que ouro. Para barateamento e melhor acesso houve protestos, revoltas, levantes? Não, o povo apenas reclama, nas ruas, no táxi, em casa. E se algum dia se moveu, como pôde ter feito tempos atrás para protestar contra a insegurança (algo que fará de novo em breve, quando as patrulhas policiais terminarem novamente), o valor público de um protesto também deveria ser analisado dentro do que temos de nosso e particular (não à toa encontraríamos os próprios empresários dos caminhões-pipa defendendo o direito de haver água para todos, mostrando ainda seu grande valor enquanto isso “ainda” não se conquista…).

O exemplo mais notável é a cheia na Amazônia e a seca no Nordeste. Ano após ano não há projetos urbanos, arquitetônicos, rurais ou o que o valha para que a seca ou cheia do ano que vem não seja como a de hoje. Durante o evento inteiro a “população” reclama. E lá estão o prefeito e os órgãos executores também dizendo: “É preciso fazer…”

Nossa insistência em reclamar de nós mesmos tem uma curiosa cumplicidade com a ineficácia de nossa reclamação, com o fato de que pouco ou nada muda. Não à toa somos o país do linchamento, superamos o nosso próprio imaginário de que isso se faz mais naqueles países “distantes” e pouco civilizados. Essa explosão momentânea do povo contra um infrator é exatamente a irmã siamesa da inefetividade da reclamação. Semana passada fizeram o B.O. mas a polícia não veio, as visitas reiteradas no hospital não renderam consultas, a passarela prometida não foi construída na estrada, as crianças continuaram indo com o pau-de-arara à escola…

Ou ainda, cultivamos o tema do reclamante honesto. Tudo está errado e… na medida em que o arco da malandragem segue do favorecimento pessoal num evento qualquer à violência física contra o outro movida pelo favorecimento pessoal, não é inimaginável ver a mesma pessoa reclamando da corrupção dos políticos de manhã, dizendo “pódexá, eu quebro essa pra você” à tarde e “o mundo é dos esperto” à noite. Sem qualquer prejuízo para continuar reclamando amanhã sobre como o mundo “anda errado”.

Daí a curiosa impressão de que eventualmente a reclamação do brasileiro concorre para manter as coisas como estão. Ou a impressão de que a reclamação age contra o próprio motivo de reclamar; ou ainda, de que reclamar significa agir ao lado dos eventuais opressores (novamente: pois do contrário não reiteraríamos tanto nossas reclamações, ou não as repetiríamos, ou elas não seriam feitas com tanta paixão…). Finalmente, tudo se passa como se existisse uma espécie de “gestão” de nossas reclamações, pois elas não são algo fora do motivo reclamado. Quem reclama de algum modo não olha a situação de fora impondo uma mudança, mas compartilha junto com essa situação um mesmo conjunto de regras que deixa tudo como está.

Se tudo isso tem alguma coerência, a ironia maior é a de que essa gestão na verdade é uma gestão sem gestor. Ninguém, senão todos e ninguém ao mesmo tempo, regula o esvaziamento que cada um confere à sua própria voz ativa. E mesmo assim esvaziamos nossa própria voz. Claro, só não esvaziamos o barulho e a paixão, que continuam ali para se apresentaram novamente logo adiante.

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