O governo e a greve

Como o governo encara as greves no setor da Educação? Basta comparar com o que ocorre com apenas 1 dia de paralização no setor de transportes.

Há mais de um mês os professores das universidades federais estão em greve. Nós não sabemos quase nada sobre isso, nem a dita “imprensa livre” nos informa bem. Alguns até acham que os salários dos grevistas deveriam ser cortados, que eles são desordeiros e outras coisas mais.

Mas aí é só voltar a 1 dia de paralização no setor de transportes. Em muitas cidades do Brasil, um motorista recebe muito mal, e mais precarizado ainda é o cobrador. Para se ter uma idéia, em Curitiba – a grande cidade modelo dos transportes – a precarização avançou tanto que, em diversas linhas, o motorista deve ao mesmo tempo dirigir e cobrar. Os cobradores foram eliminados dos ônibus e o motorista deve cuidar, além do trânsito, do troco. E seu salário não aumentou proporcionalmente ao encargo.

Nisso, impressiona a incrível precarização. Só que 1 dia de paralização no transporte afeta tanto uma cidade que ela não aguentaria uma greve prolongada.

O que dizer então da educação? Meses de greve arrastada só mostra como esse setor não é nem essencial nem importante, certo?

Há algo estranho aí. Em primeiro lugar, até sob propósitos eleitoreiros é surpreendente o governo não dar atenção aos mais de 1 milhão de pessoas envolvidas direta ou indiretamente na educação das universidades federais, em greve há mais de 1 mês. 1 milhão de grevistas equivale a 1 milhão de votos. E muitos desses 1 milhão votaram na Dilma.

Em segundo lugar, querem explorar unicamente os efeitos negativos da greve. Mas e então: alguém acha que um grevista faz greve por amor? Adere-se a uma greve por amor sim, não à greve mas à profissão. Mesmo se eventualmente a greve se desvia de seus propósitos, o propósito  inicial, aquele a mover todo mundo, é justo. Os trabalhadores conquistaram o direito de greve em períodos nos quais o regime de trabalho era muito pior. Como melhorou? A resposta é bastante segura: não foi por iniciativa dos ditos “gestores”…

Em terceiro lugar, há os efeitos da própria greve. Imaginemos se a greve dos professores das universidades federais se enfraqueça e perca para o governo. A imprensa não mostra, mas em muitos lugares, Brasil afora, um professor envolvido em complexas pesquisas não tem nem sala própria para atender os alunos, quanto mais equipamentos básicos, e básicos mesmo: mesa, cadeira, impressora… Sem contar o próprio salário, congelado. Sabiam que o vencimento base de um professor de federal com doutorado não era – até a pouco – muito mais do que 2300 reais? O resto são gratificações, que podem ser desligadas do vencimento base de uma hora para outra. E o professor às vezes se dedicou 10 anos a fio apenas para sua pesquisa, para se formar como professor. Escolheu pesquisar, contribuir com seu país, ao invés de encarar qualquer emprego privado. E está ali para formar outras pessoas, que contribuirão ao país com suas profissões.

Dizem que os efeitos da educação agora começam a se refletir daqui a dez ou vinte anos. Até os empresários mais turrões não negarão, basta ligar a TV: os esfeitos de dez anos atrás se refletem hoje na ausência ampla dos ditos “profissionais qualificados”. Houve falta de consideração pela educação nos últimos anos. Muita coisa foi ampliada, mas surpreende por exemplo saber que os professores de universidade pública possuem hoje menor poder de compra do que na época de FHC (e a resposta não é “retornemos a FHC”, pois naquela época queriam cortar inclusive as gratificações! Moral da história: não há “lado” para correr).

Vai ver é por isso que os governos não tratam a educação como tratam os transportes: os efeitos da educação não são imediatamente visíveis… (será que não?) Mas no fim a diferença é apenas de tempo. Se os governos não investirem em suas governanças, em qualquer dos setores sabemos bem quem sai perdendo: todo mundo.

Anúncios

3 comentários em “O governo e a greve

  1. Bem interessante o post, cata, mas peca num ponto – o governo não trata mal apenas os professores universitários, mas todo o funcionalismo federal. Até que na greve das universidades, pelo mns a abordagem não descambou, ainda, para a truculência. Até onde sei, não se falou ainda em corte de ponto, o q só poderia ser feito caso a greve for declarada ilegal, e isto, ao q parece, não vai acontecer, pois a estratégia governamental parece ser, claramente, empurrar com a barriga, até que a situação se esvazie naturalmente, e isto tvz aconteça com relação a postergação das formaturas.
    No caso dos FPs do chamado Plano de Cargos e Salários (uma espécie de bacia das almas que pega 60 por cento do quadro de servidores federais que estão em carreiras sem plano de progressão), o vencimento básico é mais ou menos 2300 reais – só que as gratificações são mto menores (um funcionário em início de carreira percebe aprox. 3500 reais por 40 hs semanais). Havia um indicativo de grave, mas o Ministério do Planejamento expediu uma ordem para que as chefias controlassem o ponto dos servidores, para execução de corte de vencimentos. Seria mto longo falar das outras determinações da doutora ministra, mas, dentre outras, havia uma particularmente preocupante – que a possível participação na greve fosse cotada na avaliação do servidor.

    A desvalorização do servidor público é uma forma de desmontar o Serviço Público. Aí a questão se torna mais difícil de avaliar e analisar. A imprensa, vc sabe, trata tds os FPs como burocratas incompetentes ou/e corruptos. A precarização, que acaba explodindo no colo do contribuinte, é posta, particularmente pelos meios de comunicação, na conta do “servidor que não trabalha”, e a privatização é indicada como a panacéia universal. Isto não vem deste governo – vem de 20 anos, desde a época de Itamar Franco e seu ministro FHC. O SP brasileiro sempre foi precário, mas de lá para cá, passou a se tornar precaríssimo.

    A questão das universidades federais é um dos aspectos dessa precarização, mas não o único nem o mais grave. A precarização é geral e todos os setores têm sido violentamente atingidos. Nos governos estaduais e municipais, essa precarização se torna ainda mais grave e os servidores, ainda mais frágeis.

    1. Obrigado pelo comentário, Bitt, assino embaixo.

      Você está certo, a precarização não se resume aos professores. Inclusive não divulgaram, há alguns dias até funcionários da diplomacia estavam em greve!

      há muita gente descontente, mas parece incrível como os fios soltos ainda não se enroscaram: professores, bombeiros, policiais, diplomatas, técnicos-administrativos…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s