“Pra você é tanto”

Uma das coisas mais surreais no Brasil é quando você recorre a um serviço qualquer e a pessoa que atende diz: “Pra VOCÊ é tanto”.

Certo, a expressão não vem sempre sozinha e nem sempre é explícita. Mas de repente “você” percebe que se aparecesse ali em outro momento, com outra aparência ou em outra circunstância, o preço do mesmo e exato serviço, ou mesmo seu acesso, e até mesmo sua continuidade, poderia ser diferenciado.

Criticamos os ditos “capitalismos”, “liberalismos” e suas variantes, até o ponto em que nos deparamos com esse fato muito singular: em certos lugares (muitos, por sinal), não é o produto quem custa, mas a pessoa. E o preço da pessoa é decidido muito rapidamente, no calor do momento: tal ou qual é mais digno ou possui características melhores ou piores para acessar tal bem, da carne melhor selecionada ao quarto do hotel, passando pelo preço mais ou menos barato e o atendimento mais ou menos solícito.

De repente a relação “ocidental” cliente-prestador se desfaz e surgem ali duas pessoas. Mas essas pessoas não são seres humanos puros e simples entregues a si mesmos – “livres e iguais” -, mas indivíduos cujo grau de pessoalidade se define pelo status.

Nisso tudo, uma fina rede de variáveis se delineia, definindo como você será tratado ou não. Pois você pode muito bem parecer rico e ser pobre, ou vice-versa. A cor de sua pele, a marca de suas roupas, o humor do prestador, seu modo de se comunicar e até se você sorri ou não definirá a qualidade, o preço ou o acesso ao serviço (ou bem tudo se inverte e, quando o cliente possui alguma posição muito privilegiada, o prestador se torna o grande Bobo de seus caprichos).

Considerando pequenos ajustes nessas inúmeras variáveis, em um mesmo lugar a diferença de preços ou serviços pode ser abissal para duas pessoas diferentes.

Normas, códigos e contratos são papel vazio de mera formalidade, e isso quando o prestador tem ciência deles. Recorrer às autoridades? As relações delas com o prestador são similares às relações dele com você.

Ou será que você não entendeu? Tá me tirando de empregado, é? A prestação do serviço não é inerente ao serviço, por isso não ofenda a paciência de quem acredita que só está ali diante de você porque quer.

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