Nestor e as formigas

Incrível ler textos como esse, mais um caso de supremo impacto, e ao mesmo tempo suprema ingenuidade, de idéias “científicas” sobre como devemos ou não nos comportar, nesse caso com os idosos.

No decorrer da vida o velho “perde sua capacidade de trabalho”, não importando se é um bicho ou um bicho-homem. E então? As formigas enviam os velhos para defender os formigueiros, os cupins velhos explodem em prol da coletividade, e nós?

Nós enviamos os jovens para a defesa do formigueiro (ultraje!), e para os velhos criamos a aposentadoria.

E dizer que houve um tempo em que Nestor tinha também sua excelência, quando citavam a Ilíada

“Eu não vi mais – e nem mais verei – homens
tais como (…) Teseu, semelhante aos imortais (…)
Para estar entre eles, vim de longe (…)
E eu lutava sozinho.
E quando eu aconselhava, eles refletiam
e seguiam as minhas palavras.
Ouvi-as, pois, também vós; porque o melhor é ouvi-las”
(Ilíada, I, 262-74)

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6 comentários em “Nestor e as formigas

  1. Há muito tempo atrás li um livro cujo título no Brasil é “No país das sombras longas”. Acho que virou filme de Hollywood. Bem, é uma narrativa romanceada sobre a vida dos Inuit (esquimós), e uma das passagens que me lembro é sobre os “idosos”. Quando não podem mais contribuir com a comunidade-família, afastam-se e morrem congelados e sós. Triste?

    1. Isso é bastante interessante, Guilherme: pelo que você diz, os Ignuit parecem ter desenvolvido certa tradição na qual seu vínculo com o universo (em geral, não apenas em sentido físico, pois há de se ver como são as crenças deles) conduz à solução do sacrifício do idoso, em uma sociedade na qual o mesmo vínculo com o universo se liga a trabalho árduo e escassez radical de recursos. Um pouco como, em certos povos do Himalaia, há poligamia feminina (uma mulher casando com 2 ou 3 homens) em função dos também escassos recursos.

      O caso do Nestor mostra uma outra função ao velho: ele pode aconselhar, ter a voz ativa e respeitada entre os demais. Nestor tem lugar importante e não ouvir suas falas pode trazer riscos aos combatentes, pouco experientes em relação a tudo o que Nestor viu.

      Disso tudo vale olhar de novo para a comparação (um pouco involuntária, enfim, mas presente) feita entre nós e as formigas: em que sentido somos ou não como os Ignuit? Em que sentido os Ignuit são como as formigas? Em que sentido nos reportamos ou não ao exemplo (bem mais utilizado outrora) de Nestor?

      1. Se vale Homero, vale Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão”.
        Animais, sim – vertebrados, bípedes, sapiens sapiens; mas só? O que nos define? Talvez mais importante, há diferença? (entre nós e as “formigas”). Parafraseando Hamlet: -Estar (selvagem) ou não estar, eis a questão. Não estariam, Nestor e um velho esquimó, na mesma função, qual seja, passar a experiência para a luta pela sobrevivência? O que muda é a TÉCNICA, mas isto tampouco nos diferencia.
        Somos todos Nestor, e Hamlet, e Inuits, e um pouco formigas, porque não?
        Pensar ou não pensar, eis (talvez) a VERDADEIRA questão.

  2. Verdade, essa divisão entre homens e animais é um pouco curiosa e até irrefletida. Mas daí a pensar que 1) entre o ambiente da formiga e o ambiente do humano há continuidade problemática e 2) essa pressuposição de continuidade relativizar a necessidade de conferir um valor positivo à velhice, isso são operações bem diversas.

    O Ignuit que deu a vida parece ter morrido “positivamente”, como falamos: dentro de um sistema de regras que não se desvincula do mundo ao redor (costumes, ritos, códigos, até uma função precisa do “morrer”) e de sua escassez. O que é bem diferente de um mundo no qual os homens criaram meios de não precisar mais morrer para a continuidade alheia. Nesse sentido, relativizar questões como por exemplo a da aposentadoria, esvaziar a importância do velho ou colocá-lo no mesmo pé do que o cupim que explode, é uma verdadeira recusa de pensar, pois enquanto o Ignuit de repente morre com sentido, a comparação com o cupim sob as regras de nosso “ambiente” é uma verdadeira recusa de dar sentido à velhice. É um baita tiro no pé.

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