O fim da função de professor?

Incrível saber desse caso (1, 2), vinculado pelo Goulart (vale ler o post). Pelo jeito saiu até no “Fantástico” (embora sem a história toda, no caso, essa). Uma aluna de 13 anos, preocupada com o andamento de sua escola e aprendizado, criou uma página no Facebook (“Diário de Classe”) para contar sobre seus problemas.

A atitude da aluna é louvável, pois mostra o uso da ferramenta virtual para fiscalizar os assuntos públicos. Mas Goulart já advertiu com razão: é importante que tal fiscalização acerte os alvos corretos e não produza bodes expiatórios.

Um dos pontos mais problemáticos foi a aula de matemática, segundo ela a mais “bagunçada”. Conforme a menina, o professor não usou a “autoridade” (sic.) necessária dentro de sala para conter os alunos. Inclusive ela gravou um vídeo no qual, depois do professor pedir silêncio com veemência, todos os alunos começaram a gritar, fazendo pouco de sua atitude.

Resultado? Com todo o foco sobre a “falta de autoridade” do professor, ele foi afastado.

Conforme Goulart, não houve uma discusão mais ampla sobre responsabilidades. Tudo recaiu no papel individual do professor.

E por papel individual se deve entender uma coisa: uma supressão sistemática das relações pedagógicas, Brasil afora, em nome de outros primados.

Paulo Freire dizia algo que nenhum professor ou aluno negariam: “Não há docência sem discência”. Desenhando: só há relação pedagógica quando há relação pedagógica, quando professor e aluno ocupam seus papéis.

Quando os papéis não são assumidos, começam os inúmeros casos relatados diariamente Brasil afora. Só para citar um exemplo recém saído do forno: Durante a semana passada, a imprensa vinculou vários vídeos de celular com alunos quebrando o pau dentro de sala de aula. Num dos vídeos a violência é chocante, tudo por causa de um lápis. A professora assistiu a tudo, atônita. Cabia a ela naquela circunstância impor força física e separar os alunos? Faltou “autoridade”? O mais incrível é a imprensa ter considerado isso!

Os exemplos nos quais a violência se dirige contra o próprio professor não faltam: aqui os alunos utilizaram um isqueiro para esquentar a porta, fechada, até queimar a mão do professor que estava para abri-la;  ali o aluno dissolveu laxante na água do professor, que passa mal e precisa ir ao hospital; acolá o professor chama a mãe para falar sobre o comportamento da aluna e ouve a resposta: “Falar o que? Se eu falar ela me bate!” – e assim por diante, os exemplos abundam. Será que a pergunta correta se resume a interrogar se faltou autoridade?

Como não é raro ouvir coisas do tipo: o professor “se impõe” (em sentido implicitamente físico) para que seja “respeitado” na aula (o respeito não vem por ser professor, mas por ser grande); e para agradar a turma sem causar conflitos nem tocar em problemas prévios de aprendizagem, aquele outro professor baixa o nível das aulas até níveis inacreditáveis. Onde cada um precisou “dar um jeitinho” para conseguir lecionar porque não há docência sem discência, cadê a função prévia de professor para que ela se desempenhe?

Até 10 anos atrás os estudos pedagógicos criticavam o professor tradicional e autoritário, aquele com régua na mão batendo diante do menor desvio.  Hoje os professores são acusados de não ter “autoridade” para “impor” o andamento de uma aula!

Quando se faz licenciatura, aprende-se que existem professores autoritários, permissivos e democráticos. Professores desses três tipos sempre existiram e sempre existirão. O que parece estar mudando a galope não é a maiorização da importância do professor democrático, em detrimento do autoritarismo e da omissão: é a própria função do professor, pois hoje se exige que ele tenha necessariamente como característica pessoal – não necessariamente pedagógica, não necessariamente em um ambiente pedagógico – a capacidade de “seduzir”, “conduzir”, “levar nas rédeas” e outras figuras mais.

E por esses termos não se entende a virtude de, dentro de um ambiente previamente pedagógico, uma aula ser mais ou menos maçante, ter mais ou menos “pedagogia”. Os exemplos acima, como tantos outros, mostram que esse ambiente “previamente” pedagógico não ocorreu! Culpa do professor?

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2 comentários sobre “O fim da função de professor?

  1. Hoje você trata de uma questão que é tema de minhas reflexões nos últimos tempos, assino embaixo de suas considerações, e quero comentar principalmente o último parágrafo. Hoje o “bom professor” é aquele que consegue dar uma aula “show”, os filhos da sociedade do espetáculo não podem ser frustrados com uma aula que apresente “apenas” bons conteúdos e boas discussões, deseja-se o professor sedutor, animador de auditório, mesmo que o conteúdo seja medíocre. Ninguém parece perceber que essa pedagogia do espetáculo não tem nada de democrática, pelo contrário, é a pedagogia formatadora de cabeças medíocres e de alunos preguiçosos, leitores de power-point previamente postado nos infames “portais do aluno”.
    Também não sei se a pedagogia “democrática” e a melhor escolha, assim como os pais “democráticos” dos anos 60 criaram filhos inseguros, a pedagogia democrática pode estar propondo escolhas para quem ainda não está em condições de escolher.
    Claro que não se trata de voltar à pedagogia autoritária, mas de resgatar a figura do professor como “autoridade” de fato, aquele que é respeitado não só pelo aluno, mas por toda a sociedade, resgatando um velho sentido dessa palavra, a de autoridade como a pessoa que tem reputação de grande conhecimento em determinado assunto, e não como aquele que tem a obrigação de conter a horda de alunos mimados e sem educação.

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