Sobre anonimato e intimidade

Palavra sobre o anonimato e a preservação da intimidade: dias atrás, no aeroporto, os policiais encontraram “algo” em minha mochila. Mochila de volta no Raio X, novamente ali o “algo”. Alguns policiais ao redor começam a se acercar. Todos à volta percebem e, como é de se esperar, a situação fica tensa. Até parecia que eu estava sendo “pego”. Um policial põe a luva e pergunta “você autoriza que eu reviste sua mochila?” “Claro”, digo. Situação tensa, todos olhando, e lá vai o guarda tirar minhas blusas, livros, câmera etc. Tudo no Raio X, e de repente o resultado: o “algo” não passava de meu carregador com as pilhas, que estava do lado do mini tripé de metal. Então, como se nada tivesse acontecido, nem transtorno e nem falta de cautela dos guardas, sou liberado.

Isso tudo é curioso, pois nossa intimidade é tratada como um nada, algo que deve ser (especialmente no país do “Você sabe com quem está falando?”) aberto sem muitas cerimônias e cuidados.

De lá para cá (Facebook, Google…), além de simplesmente nos sentirmos constrangidos a expor nossas intimidades sem muitos pretextos, fazemos isso voluntariamente. Tudo o que escrevemos no Facebook e em outros lugares (Google…) não é privado, mas sim está mais ou menos aberto para empresas bilionárias. Basta navegar um pouco e ver que o assunto que você navegava começa a aparecer nos anúncios publicitários das páginas visitadas. Os dados pessoais são cruzados com produtos, isto é, a intimidade é relativa e nem é possível dizer que “pode ser violada por mãos humanas”, visto que de saída já o foi, mesmo se a manutenção de tudo permanece sendo da máquina.

Enquanto isso o Mundo inteiro, especialmente no que diz respeito ao Mercado e à Política, mantém suas reservas, bastidores e segredos. Nossa intimidade virou um livro aberto, enquanto as operações que mudam nossas vidas seguem com todo sigilo.

Em vários lugares do Brasil é engraçado o tom que as pessoas dão à intimidade, afetividade e afins. Sou hospedado em um lugar e me chamam de “meu filho”; vou almoçar e me chamam de “irmão”; vou pagar e o caixa diz em voz alta “E aí meu camarada!” Mas se trato qualquer um com cortesia, mas sem estardalhaço, sou mal visto. E isso inclusive quando o serviço é péssimo. Pego o transporte público e fico sabendo (na maior parte das vezes em alta voz) que fulana tem a sobrinha viciada, que cicrano chama a si mesmo de “um velho safado que trai sua mulher”, que beltrano causou um acidente mas não está muito aí… As intimidades todas jogadas a algum holofote ocasional, como se qualquer porcaria devesse receber um holofote. Mais ainda: se qualquer coisa é oferecida a um possível holofote, não haverá qualquer constrangimento quando algum holofote aparecer.

A profusão de mediocridade apenas prepara a abertura das intimidades…

Disso tudo, não parece má idéia manter certa “intimidade” e, quando possível, o anonimato. Caso queiram alguma palavra pop, trata-se de “constituir para si um lado de dentro”, como diria um filósofo. Afinal, o movimento é todo contrário… (e já começaram as seleções para o Big Brother!)

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