A contemplação das estações

A New Season Approaches by Debbie Tubridy (DebbieTubridy) on 500px.com
A New Season Approaches by Debbie Tubridy

Autumn Bridge.... by Martin Kavanagh (murtkav) on 500px.com
Autumn Bridge…. by Martin Kavanagh

Circular em comunidades de fotografia traz costumes ainda existentes em alguns países: contemplar a mudança das estações.

O brasileiro tem esquecido disso, por pelo menos dois motivos: Em primeiro lugar, todo caipira, caiçara, nativo etc. mantinha relações com sua terra e a passagem das estações. Já o brasileiro urbano perdeu o vínculo com sua terra (porque a esmagadora maioria se tornou urbana; porque o senso de 2010 aponta inclusive “fuga” de trabalhadores para os centros urbanos; porque o avanço do agronegócio trouxe concentração de terras; porque a agricultura familiar não tem o mesmo estímulo do agronegócio).

O brasileiro se afastou tanto de sua terra, que sua relação com ela se resume ao slogan da propaganda de cerveja: “ah, é verão”. Verão = praia = bom (mesmo que quase nunca se vá à praia, e quando se vai há tanta gente que seria melhor não ter ido). E o contrário também: inverno = chuva = ruim. Como se todo o resto não fosse vida, como se enfim não vivêssemos todo o resto, mesmo que nos recusemos a viver parte considerável de nosso mundo e vidas.

Em segundo lugar, mudamos de tal modo nosso país que às vezes é bastante difícil perceber a mudança do tempo. Nosso esforço de transformar o mundo numa laje segue de vento em popa. E o vento ficou bastante quente por sinal. Exige a silenciosa (ou nem tanto) política do ar condicionado.

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2 comentários em “A contemplação das estações

  1. Bela reflexão, mon ami,
    A vida urbana nos fez esquecer de contemplar a natureza, a fauna, a flora, o céu estrelado. Não há estrelas nos céus das urbes iluminadas… Os poemas de Alberto Caeiro me falam muito dessa modernidade órfã de contemplação da natureza.
    Mas creio que há também uma questão que deve entrar na equação: a rigidez sazonal prevalente na maior parte do Brasil. A maior parte do nosso território não tem clima temperado. Brecht, quando se exilou na Califórnia, sentia-se pouco adaptado a um lugar com pouca variabilidade entre as estações.
    Vou sentir falta das quatro estações bem definidas… Depois lhe escrevo contando dos projetos para as próximas estações…
    Grande abraço

    1. Oi Lelec,

      Muito bom revê-lo por aqui, obrigado pelo comentário!
      Pois então, é certo que a vida urbana em geral nos fez esquecer da natureza (e até instaurar o próprio tema da natureza), mas me parece – não sei se tenho bem colocado nos posts – o nosso buraco, o brasileiro, é mais embaixo. Há algo de especificamente brasileiro no modo como nós, brasileiros, não vivemos mais nossas estações. Elas são menos definidas sim na maior parte do país, mas se me lembro bem de minha própria escola e de experiências anteriores (o que não faz muito tempo), inclusive no meio urbano havia antigamente temas relativos à mudança das estações e sua vivência no cotidiano, e isso também em meio urbano.
      A questão que coloquei é que o sumiço dessa vivência meio “carnal” parece ter algo a ver com a própria supressão das estações por nós mesmos. Por exemplo, associamos no mundo do trabalho e da publicidade a chuva a valores negativos e sol a valores positivos como praia e cerveja. Isso me parece curioso, porque o brasileiro aprendeu a cultivar uma imaginação na qual ele se mantém afastado do próprio mundo em função de imagens ideais, enquanto sua vida diária ajuda a emporcalhar o próprio mundo. É o cara às 6h na estação Praça da Sé em SP imaginando o que fará quando sair dali… enquanto seu corpo permanece ali, por parte considerável da vida, como uma sardinha, só que apenas imaginando. Multiplicado o exemplo aos milhões, vemos aí como vivemos sem vivenciarmos aquilo que nos afeta mais diretamente os sentidos, como se isso não nos dissesse respeito.
      Não sei se me expressei bem, mas é mais ou menos por aí…
      Abração!

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