As amantes do Brasil

Não entendi bem o que discutem sobre se Lula tem ou não uma amante. O que se pretende com isso? FHC, Collor, Itamar, todos tinham seus trambiques, e isso só para citar os brasileiros.

Mas não é esse o problema. O que parece meio doido é que ficam nessa de desmoralizar ou PT ou PSDB, quando se tem provado que muitas linhas do PT não divergem do PSDB (greve dos professores desprezada, desvios em financiamentos de campanha, Jirau e Belo Monte, Kaiowás, concessões de rodovias etc.). Os dois são em vários pontos infelizmente farinha do mesmo saco.

Resumo: o PT tem deixado a desejar, diante das esperanças prometidas por ele mesmo. Mais ainda: o brasileiro banalizou faz tempo o fato de que vive num país corrupto. Só que antes ele achava que algum partido salvador apareceria para resolver as coisas, mero tema reeditado do que já comentava Sérgio Buarque nos anos 30 (quase 100 anos atrás e nunca prestamos atenção!): o de que sempre aguardamos um grande salvador – às vezes um “braço forte e mão amiga” – para conter toda a enchente amazônica e a explosão atlântica. Agora até a mentira do salvador ficou batida, mas explosão alguma atingirá nossas mentes.

Então o brasileiro, por assim dizer, sabe que vive num país corrupto. Desse jeito mesmo, enxergando a corrupção ali fora, mas não a reconhecendo no que acontece consigo diariamente (na van, no mercado, no trânsito, na TV, em tudo!). E no outro extremo da corrupção o brasileiro projeta a figura do “caxias”, o burocrata certinho e afeito às regras (mas no fundo com seus pecados sempre secretos, corrupção redobrada sobre si mesma).

Aliás, as dualidades pululam: o corrupto e o caxias, o malandro e o mané, o esquerdista e o direitista, o revolucionário e o “homem de bem”… Já o sistema de regras a gerar essas dualidades, este passa batido.

O malandro e o mané, o corrupto e o caxias são figuras extremamente úteis para deixar tudo como está: vivemos um problema geral na carne, mas apenas enxergamos o problema lá “fora” (nas ruas, na praça, na esfera pública) sem reconhecer que tudo veio de “dentro”.

Daí a amante de Lula parece bem mais interessante do que a laje em que você vive, o calor insuportável que você gera, as vans ruins e os restaurantes sujos que você usa, e suas pequenas corruptelas cobertas com algum verniz. Afinal, você mesmo diz às vezes: se estivesse lá eu não faria o mesmo?

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