Nós e nossos vizinhos

O brasileiro diz a si mesmo que é um povo “receptivo”. Aí um amigo que está em Lima me conta que está surpreendido por descobrir que as relações entre o Brasil e o Peru são – falo em nosso senso comum – quase nulas. Quase nada, diz ele.

Já tive a mesma sensação em outros lugares. Você chega lá e sabem comentar mundos e fundos sobre o Brasil. E o brasileiro, pouco ou nada sabe da cultura. Peru? Machu Picchu certamente! Paraguai? Muamba e seleção ruim. Argentina? Tango e rivalidade no futebol (às vezes “Buenos Aires” e “Boca Juniors”). Bolívia e Colômbia? Lugar de onde as drogas chegam. Venezuela? Hugo Chavez! Chile? Talvez aquele país estreito?

E tudo isso convive com o fato do brasileiro ser – tal como se descreve – um povo acolhedor. Esse acolhimento é um tanto estranho: se não sabemos muito sobre quem recebemos, como somos tão acolhedores?

Mas nisso é curioso notar que nós, brasileiros, também não temos conhecimento de muitas outras culturas que acolhemos. Basta sair à rua: em nosso senso comum a França não é muito mais do que a torre Eiffel, e os EUA aquelas coisas que vemos nos filmes (aliás, tenho vizinhos que escolhem viver trancafiados vendo filmes nos fins de semana a ver a cidade suja à qual são obrigados a estarem durante a semana inteira). Somos o povo que mais lincha no mundo, mas em nosso imaginário esse povo seriam os “árabes” (geral assim).

Enfim, qualquer coisa de estranho se passa nisso tudo. É como sair de casa e só ver tocados nos lugares os pagodes e sertanejos universitários da trilha sonora da novela, ou visitar algum lindo lugar cuja cultura própria já foi invadida pelos hits do momento (tecnobrega, funk, ralações mil). O povo ali, descaracterizado e receptivo.

Se somos tão receptivos, causa espanto a inércia dessa receptividade e a falta de interesse sobre quem recebemos. Não aquele interesse aberto e afetivo – esse realmente existe -, mas sim aquele outro, talvez mais “ativo” (não é boa palavra, mas não achei outra), talvez “cognitivamente entusiasmado”, que permitiria alguma troca.

Eu chegaria a formular a hipótese de que inclusive nosso turismo é muitas vezes mais mais um motivo do brasileiro se ostentar contra os outros brasileiros, do que uma abertura efetiva ao mundo. Vai-se aos grandes monumentos do mundo, mas não é raro ver os turistas contemplando-os igual o Globo Repórter descreve seus pinguins: esse prédio é “bonito”, “Olha que estranho” esse “castelo antigo”, “Nossa, que comida sem tempeiro”, “Que bonita é a neve!” Constatações que uma conexão internet certamente permite fazer. 😉

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3 comentários em “Nós e nossos vizinhos

  1. Catatau, vc sabe que sou admirador e acompanhante assíduo de seu blog, tanto q o recebo direto no e-mail. Mas, cara, nesta agora vc enfiou o pé na jaca, e feio, feio. Não tenho problemas com relação à demonstrações de preconceito contra nosso próprio povo, dependendo de onde venham. Vindas de vc, me deixam de queixo caído.

    Vejamos – não viajo mto, mas tenho conhecimento razoável sobre alguns dos paíse latinoamericanos, por motivos diversos: a Argentina (p/ ex.), por causa das “lanzas montoneras”, da prosperidade econômicaXcultura política autoritária, pela simpatia pelos nazistas, pelo populismo dos anos 1950, pela rivalidade estratégica com o Brasil nos anos 1890-1930 e 1960-1970, pela Guerra das Malvinas, dentre outras coisas. Conheço pouco sobre o futebol de lá, mas já fui a um jogo na Bombonera; não sei quase nada sobre a cultura deles, coisa que não considero demérito. Não tenho de saber tudo. Ou melhor: até conheço, aquilo que volta e meia, aparece e desaparece do foco dos cadernos de cultura de nossa imprensa – que, venhamos e convenhamos, nem é o melhor q a cultura deles já produziu. Em épocas diferentes, falou-se mto de Jorge Juis Borges e Julio Cortázar, pelo fato de q viraram “cult” entre editores de cultura e certas panelinhas universitárias, e todo mundo q queria passar por “inteligente” andava com “Ficções” ou “Bestiário” no sovaco. A obra deambos tem mto conteúdo; a de Borges é difícil e a de Cortázar, mais acessível. Agora já sumiram de novo. Uso os “hermanos” como exemplo. Tamb não conheço gde coisa sobre o resto da América Latina, e sobre o mundo. Pergunta: e daí? Isto me torna pior? Diria que não. O que vc parece exigir é que a média da população (que não sei se é “acolhedora” ou se isso é outro estereótipo que aceitamos meio sem crítica) tenha tanta informação quanto o Google. Bobagem: a maioria das pessoas consome mesmo a informação que os meio de comunicação fornecem, como produtos de consumo. É exatamente o q vc falou – informação de má qualidade (quando pouco) ou (no limite), totalmente distorcida. Não é assim no resto do mundo? Ou os argentinos, franceses ou alemães, qdo desembarcam em nossas plagas, trazem na cabeça uma verdadeira base de dados sobre o Brasil? Salvo melhor juízo, essa gente chega aqui com as “belezas naturais”, a “sensualidade das mulheres” e o “exotismo da cultura” na cabeça. Já vi suecos tentando se comunicar num restaurante em espanhol, franceses perguntando na av. Borges de Medeiros “est ici la Rôcinhá” e italianos “de brincadeira” tentando levantar a saia de uma adolescente uniformizada em plena av. Atlântica. Vc sabe bem que esses caras são a média do “turismo de massas”, produto barato altamente consumido atualmente, no mundo inteiro, por populações de renda média-baixa que consomem produtos da cultura de massa fornecida por MCM – ou seja: pelas “redes Globo” de lá – e por favor, não venha me dizer que “na Europa a TV é mto melhor”. Tá: TV do Silvio Berlusconi é maravilhosa e na França aqueles caras q vivem querendo expulsar os imigrantes só vêem a TV5 na hr do jantar… Não sei então pq cargas d´água a exigência de q nossos turistas, diante de um castelo (cuja imagem q temos é daquele da Bela Adormecida, no centro da Disneylandia) discutam a feudalização da Europa, e, vendo neve, chorem pelo aquecimento global. Quando entrei, anos atrás, naquela inana que é a visita à capela Sistina, estava realmente cheio de turistas que não pareciam entender mto sobre a Igreja no Renascimento – e funcionários que ficavam empurrando as pessoas. Este post apenas destila, em português de boa qualidade, e tomando um foco diferente, os mesmos preconceitos contra nosso povo q nossa imprensa e sua claque pequeno burguesa se esmera em difundir – aqui e pelo mundo.

    1. Olá Bitt!
      Pois então, não pretendi passar a sensação de demérito puro e simples no post, mas – como tenho feito em todos os últimos – mostrar a distãncia entre quem somos – todos nós, sem distinção de classe – e o que poderíamos ser. O fato de que de repente nossa “receptividade” às vezes faz perdurar certo estado de coisas, e se fosse mudada (não a receptividade propriamente dita, mas certo tom que empregamos com os outros e nós mesmos, especialmente certa afetividade instrumental) pdoeríamos alcançar outros resultados. Por exemplo: conhecer a América Latina! Nosso desconhecimento coletivo da AL apenas reforça nosso próprio desconhecimento coletivo da AL, e de quebra a própria desarticulação da AL enquanto região. Quando vamos ao uruguai, ao Paraguai e outros lugares, o conhecimento deles sobre nós é bem maior do que o nosso sobre eles. E são nossos irmãos, estão logo ao lado. Então a questão foi mais ou menos essa, a de que nosso modo de conduta às vezes tapa um pouco nossos olhos… quando certas reformulações poderiam ampliar muito nosso raio de ação.
      abraço!

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