O brasileiro e suas medidas

Abro o wordpress para escrever sobre o Tiozão e na mesma hora aparece outra estória.

Conversando sobre segurança na região, Cicinho chama a atenção em um lugar qualquer (isto é, qualquer lugar do Brasil): “aqui estamos relativamente protegidos. Você não viu o adesivo na frente da casa? Sempre passa um guarda do Tiozão. O próprio adesivo afasta os ladrões”.

“Tiozão prestadora de serviços” é o que está escrito no adesivo. Empresa de segurança? Não, “prestadora de serviços”, genérico assim. Continua Cicinho: “certa vez precisei ir pessoalmente ao Tiozão. Um inquilino que alugava um apartamento meu parou de pagar. Fui cobrar e ele me ameaçou. Além do mais, começou a depredar o imóvel. Fui ao Tiozão. Não pedi para matarem ele, mas em uma semana ele já tinha sumido”.

A ênfase no “sumido” não revela qualquer insegurança de Cicinho. Não importa o que ocorreu com o inadimplente: certamente não é culpa dele. Ademais, ele deu ênfase para que o infeliz apenas fosse expulso. Dito e feito, o inadimplente sumiu.

Isso tudo é muito curioso. Em primeiro lugar, alguém decide montar uma firma de “serviços” que se encarrega de segurança. Essa firma presta serviços dos mais variados, por exemplo assegurar-se do sumiço de inadimplentes.

E se é assim, parece muito curioso o próprio contrato que o inadimplente tinha com o locatário. Sumiço = encerramento de contrato, simples assim. Se o inquilino sumiu, isso significa que não retornou para desfazerem algum contrato ou qualquer coisa que se aproxime de um aluguel. De um lado, nada de apelo à lei por Cicinho para ter os direitos cumpridos (ele mesmo sabe que isso demoraria tanto que seria impraticável); de outro lado, nada de apelo à lei pelo inquilino para regularizar a situação (parecia suficientemente desinteressante não regularizar nada, e menos ainda ir à justiça numa região próxima de onde Tiozão atua).

Entre Cicinho e o inquilino não há justiça, país, república, cidadania, Brasil etc. Há o Tiozão e sua prestadora de serviços. Cobrando sua mensalidade ou anuidade de Cicinho, o Tiozão resolve tudo.

Mas na inexistência de instituições de um país as regras continuam existindo, apesar de não parecerem. Só não são mais as mesmas que presumiríamos. A empresa de Tião nunca existiria se as instituições da justiça, país, república, cidadania, Brasil etc. não permitissem, no Brasil, a existência mesma de empresas como a de Tião. A empresa do Tião convive com elas. Talvez o próprio Tião provenha delas, como provável policial aposentado (quem sabe) ou homem ligado à polícia ou instituições afins.

Nisso tudo, Cicinho, Tião e o inquilino vivem em um país muito curioso: existem ali instituições de justiça, mas elas só funcionam de acordo com algumas conveniências. Essas conveniências não são acessíveis a Cicinho ou o inquilino, portanto não há justiça formal para eles sem certa dose insuportável de sofrimento e burocracia. Daí a função de Tião: para todo o resto, existem empresas como a dele.

Ou – como conta essa outra história – existem outras medidas, radicalmente dramáticas.

Mas entre o suicídio e o recurso a Tião, tais alternativas seriam verdadeiramente medidas? Que mundo o brasileiro cria para si quando oferece cotidianamente a si mesmo essas medidas, dentre outras medidas igualmente negativas? Certamente ele cria algum mundo para si, pois é nele que vive.

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