Entre o Ok e o Óchente

Vi diversas manifestações sobre Ariano Suassuna. Dentre todas, algumas atribuições chamam a atenção. Suassuna já chegou a dizer que nosso “ochente” vale muito mais do que qualquer “ok”; que o advento da guitarra elétrica nas músicas nordestinas apenas teria como próximo passo a Alca; que de Sergipe pra baixo não temos mais Brasil, tudo se torna estrangeiro.

A partir dessas falas e de outras, apareceram atribuições como a de “regionalista”, “conservador” e outras. Inclusive houve cristão muito contente em mostrar vídeo no qual ele “contesta” a teoria da evolução.

É curioso que, se Ariano Suassuna discordaria do evolucionismo (para além de sua incrível e fina ironia), numa coisa ele concordaria, e muito, com Darwin.

Quando passou pelo Brasil com seu Beagle, Darwin não falava apenas do Brasil, mas dos “brasis” (sic.). Isso é muito interessante, pois, quando veio ao Brasil, Darwin teve a percepção, a sensibilidade suficiente (e nem tão difícil, na época) de perceber esse lugar como um amálgama de múltiplas dinâmicas culturais.

Nisso tenho a impressão de que Suassuna concordaria com Darwin. E mais ainda: nesse ponto, Suassuna não seria nem um pouco “conservador”. Isso porque, para além do esmagador movimento massificador que enfrentamos – há quantas décadas?, no qual falarmos em “cultura brasileira”, “música brasileira”, “país do futebol” e outras (via de regra atribuindo ao Brasil inteiro alguns estereótipos retirados do sudeste ou do nordeste), Suassuna tinha especial ouvido para o que temos de mais local, singular, não massificável. Cito por ex. a passagem:

No mesmo texto, ele não media as palavras para criticar ícones da cultura pop. “(…) a imitação seria ainda pior no caso do rock, música na qual os jovens americanos brancos, liderados por um imbecil como Elvis Presley, falsificam uma raiz popular negra, enfraquecendo sua força original e achatando-a deacordo com o gosto médio e o mau gosto dos meios de comunicação de massa”.

Veja-se: movimentos de massa, grandes motes culturais, “enfraquecem”, “achatam”, “falsificam” o ímpeto de múltiplos e  intensos movimentos locais, plenos de beleza, singularidade e ensinamentos. Não à toa Chico Science deveria se chamar “Chico Ciência”. Suassuna não dava “aulas-show”, mas “aulas-espetáculo”. E assim por diante.

Mas há algo mais: como seria possível o uso da guitarra elétrica conduzir à aceitação irrefletida da ALCA, ou à negação de qualquer talento de um violeiro que aceitasse tocar uma guitarra? Em que se baseia inclusive a negação do uso linguístico dos estrangeirismos?

A tese de fundo parece inteiramente complementar àquele culto ao local, singular (e singular não é simplesmente particular, enquanto algo massificável pode ser incrivelmente idiotizante). Pelo menos conforme me parece, ocorre nessas passagens que entre as palavras e as coisas, as ações e a realidade, não há ruptura. Um uso linguístico, por exemplo, não se resume a uma arbitrariedade, a um flatus vocis que apenas “representaria” coisas. O uso linguístico está estreitamente vinculado ao próprio uso das outras coisas do mundo. Tocar a “música brasileira” e não o pífano ou qualquer outra cultura local significa, sorrateiramente, desfazer os vínculos locais mais tênues em função de um critério massificante geral.

A ação mais tênue – inclusive a fala – não se desliga do modo como configuramos nosso próprio mundo, ações e identidades. O apelo a ações massificantes ajudará a configurar um mundo massificado, aberto a toda quinquilharia sociotécnica made in. Nisso tudo é radicalmente diferente dizer “aula show” ou “aula espetáculo”, sentar para ouvir a viola ou ligar o rádio para ouvir a guitarra. O uso do corpo, das sensações, dos artefatos ao redor, da casa, da rua, da cidade, enfim – tudo muda a partir de simples decisões.

Se tudo ocorre assim, é motivo extra mais do que suficiente para nunca esquecer Suassuna.

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