Lula era muitos?

Desde as primeiras eleições de Lula, este blog considerava algo estranho: a fácil adesão de muita gente da “esquerda” a uma curiosa continuidade. Segundo essa gente, poderia-se fazer uma passagem direta entre a figura pessoal de Lula, seu papel social “simbólico”, por assim dizer, e as transformações que ocorreriam no Brasil.

Sob os slogans, certo marxismo heterodoxo chegava a dizer (utilizarei tais exemplos para tentar fazer a pergunta deste post, mais abaixo), sob a pena de gente graúda como Toni Negri: “Lula é muitos“. O palavreado era pomposo: “De fato, Lula foge ao controle dos poderes fortes da elite cínica e racista (…) porque expressa a capacidade de se comunicar com os muitos enquanto muitos, sem reduzi-los a um conjunto representável pela “opinião pública” (…) A elite treme. O que lhe aparecia como um monstro é, na realidade, o anjo da multidão dos “sem” (…)”

Note-se aqui uma dualidade: de um lado haveriam os devires, os “muit@s” do Brasil, aquele povo que até hoje não havia sido (e continua…) representado pelos poderes convencionais, enfim, a potência da multidão. De outro lado, a representação e seu poder do Mesmo, a cooptação da diferença em nome do que, no Brasil, seriam as oligarquias misturadas a certa importação duvidosa de alguma noção de “república”.

Era de se notar a discussão sobre a bolsa família, por ex.. Em termos convencionais, a idéia do PT poderia ser encarada como uma verdadeira revolução, embora autores mais contemporâneos, inspirados em Foucault, poderiam sentir-se na tentação de chamá-la de medida biopolítica. Ora, a “biopolítica” diz respeito a um nível de análise que não se situa mais sob as chaves de interpretação da política em termos de repressão. Disso, a política global da bolsa família poderia, mesmo assim, ser considerada benéfica ao povo e até crítica das velhas oligarquias. Mas, mesmo assim, em nome da “potência” de Lula, foi grande o esforço em provar que a bolsa família não era uma biopolítica, mas embrião de uma renda universal.

De lá para cá, houve ao menos duas ou três mudanças de perspectiva. Num primeiro momento, o “lulismo” continuou sob os auspícios da “potência” contra certo “poder” do “governismo” que se impunha como opressor (mesmo sendo Lula do próprio governo). Dilma ainda carregava o epíteto dos “muit@s” na primeira eleição, a potência da mudança contra a tristeza do poder.

Mas logo a terminologia mudou. Dilma e Lula deixaram de ser muit@s e cederam lugar à dualidade entre o “governismo”, de um lado, e os “muit@s”, de outro. Nas eleições de 2014 o “governismo” foi responsabilizado pela própria derrocada, quando afugentou Marina do 2º turno e jogou o jogo do PSDB. Toda a “potência” teria sido despotencializada ainda em 2013 (e este artigo chega a ser profético), quando os movimentos  de junho de 2013 foram reprimidos pelo governo.

Alinho essas informações apenas para tentar dizer o seguinte: de algum modo, quando Lula assumiu o poder ele foi totalmente creditado; e agora que sua imagem treme, é totalmente desacreditado. Mas, entre um e outro momento, alguém atentou à questão fundamental?

A tentação seria de perguntar: diante de tanta confiança irrefletida, quando foi que ocorreu a linha de ruptura, o corte, o abandono, a desesperança? Pois a resposta a isso poderia ter duas implicações: 1) ou o governo das “potências” de Lula teve certo momento de esgotamento após o esplendor, e acabou se entregando ao poder representativo das oligarquias, ou, 2) desde o início houve uma espécie de grande estratégia, na qual, bem ou mal (e o inferno é cheio de boas intenções), o PT tentou a) cooptar as oligarquias em nome de seus projetos, utilizando os mesmos mecanismos estratégicos das oligarquias, ou b) cooptar as oligarquias para se tornar igual ou melhor do que elas.

Sobre as últimas duas hipóteses, acho muito pouco provável a segunda, embora pareça nítido o projeto mais recente de prolongar o poder a qualquer custo. De todo modo – este blog tentaria dizer isso -, pareceria verossímil pensar que o PT jogou um péssimo jogo, uma vez que tentou vencer o diabo jogando com o tabuleiro e as peças do tinhoso. Isso se remete a inúmeras falas do Zé Dirceu, a respeito do mensalão: a compra de votos e pautas parlamentares já existia (ACM ou o golpe de 64 que o digam), o PT apenas se “aparelhou” com as táticas do inimigo, tudo servia para fortalecer o “nosso governo”, no futuro tudo será melhor compreendido, e – quero chegar aqui – no fim das contas, tudo se passaria como se a estratégia inteira consistisse em dobrar esse país corrupto, corruptamente, contra a corrupção.

Voltemos ao essencial (ao menos ao essencial deste blog esquecido): entre o crédito total e o descrédito total a Lula – temperado hoje pelas acusações de “isentismo”, pelo fracasso do “voto crítico” e pelo desejo de que Marina perdurasse na última eleição -, como foi possível a esquerda não considerar que, para além das dualidades entre “nós” e “eles”, o que há são estratégias e jogos de força? Que, para se eleger e manter-se no poder, o PT se alinhou com inúmeros partidos e políticos-anões, dos quais inclusive brotam inimigos atuais do PT, como o próprio Cunha? Que não foi fora dessas coalizões, mas no próprio jogo estratégico imanente a elas, que o PT angariou suas condições de “governabilidade”, e hoje as perde? Que todas as mudanças, positivas e negativas, visíveis no Brasil atual, vieram deste jogo?

Enquanto o brasileiro não tentar compreender como se dão as regras desse jogo, alheio aos supostos “poderes” clássicos e às “potências” vivas (e às outras metáforas da moda, vide alguns tentando importar agora o debate inglês entre liberais e conservadores), nada mudará de fato, e os últimos acontecimentos publicitários da coação de Lula apenas mostram, para além da Aletheia, mais uma correlação de forças esquecida. Leminski já fazia Descartes dizer, em pleno Brasil: “natura desvairada destes ares!” Até hoje não buscamos compreendê-la segundo o que ela própria nos oferece.

 

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