Vamos partir pra cima da corrupção

O Brasil está em polvorosa, em meio a uma série de escândalos envolvendo o PT. A palavra de ordem, como se sabe, é “corrupção”. Todos contra a corrupção, certo? Enfim, falarei umas coisas estranhas, e mais abaixo colocarei a questão.

O que parece curioso é ver, aqui e ali, o próprio modo como a coisa é tratada. Para a manifestação do dia 13 de março, por exemplo, como encarar o fato de que há o treino para uma coreografia de axé, um trio elétrico com Bolsonaro, Feliciano e Malafaia, pedidos de intervenção para Donald Trump (?), as redes sociais temperadas de ódio e palavras de baixo calão (palavras como “seu idiota” e “seu merda” devem estar entre as mais digitadas do Facebook) e comissões organizadoras que não pretendem protestar contra a corrupção, mas sim contra a corrupção do PT? Ou senão, vejamos o que diz o organizador da manifestação do Paraná:

– Mas também há denúncias nacionais contra outros partidos. É o caso do Eduardo Cunha e de políticos do PSDB implicados na Lava Jato, por exemplo. Isso não entra [na manifestação]?
– Não. Estamos focados no conceito petista de corrupção institucionalizada, que visa a um projeto de poder totalitário. Comparados, os outros são ladrões de galinha. Não dá para comparar a destruição da Petrobras, no BNDES com as coisas do Eduardo Cunha, por exemplo. É claro que ele deve ser punido, mas em proporção é uma diferença muito grande. Aqui roubam para comprar apartamento em Balneário Camboriú, para comprar carro importado, o que é um crime, é algo terrível, é algo abominável. Mas o PT rouba para implantar um projeto de poder aos moldes cubanos, aos moldes venezuelanos.
– O sr. vai sair candidato?
– Não estou focado nisso AINDA.

Junte-se a isso a lambança do pedido de prisão preventiva de Lula, ou a condução coercitiva do ex-presidente ao aeroporto de Congonhas, com avião da PF pronta para conduzi-lo a Curitiba, sob pretexto de “segurança pública”.

Para condenar um ex-presidente e enterrar um partido, não há coisa estranha demais? Um processo condenatório desse naipe deveria ter um rigor exemplar, ou não? Não encaramos o fato de que isso tudo ficará para a História? Ou estamos nem aí para a História?

Mas esse é, talvez, o fato mais importante, e aí vem minha questão: estamos encarando de fato que isso tudo ficará para a História, e desse jeito? 

Onde começa tanta corrupção? A maior ironia, talvez, seja pensar que tanta lambança não se separa tanto assim de nosso cotidiano.

Ontem mesmo, participei de um daqueles ritos insuportáveis, quase diários, de precisar sentar ao lado de alguém no ônibus. Em certas regiões do Brasil – não pequenas -, se a pessoa ao lado é um homem, não é raro que eu me sinta num filme de Tarantino. Não poucas vezes – e ontem foi o caso – preciso chamar a atenção ao colega sobre o fato de que existe uma divisória ali, entre os bancos, e que ele não deve passar o braço e a perna “para o lado de cá”. Como sempre, após dizer isso, há uma reação agressiva do outro passageiro. Às vezes sinto que o colega pode partir pra cima e não falo. Mas experimente não falar.

Chego em casa e… não é que, não muito longe dali, coisas desse tipo ocorrem toda hora e lugar? Não que eu ou você não saibamos disso, embora não seja o tipo de informação que levamos para a cama.

Na ausência de uma esfera pública, somos a terra do “partiu pra cima” (e muito mais notavelmente se vivemos no RJ). Pode-se partir mais ainda pra cima se você é político ou prefeito. Ou, em outras palavras, tudo é pessoal, marrento, gente boa. Tudo é apelo à pessoalidade, valeu meu querido? Você quebra essa pra mim? Te vendo um imóvel legalizado. Paga aí a “taxa de administração”. Ou, não verbalmente, ficarei sentado aqui mesmo do jeito que estou.

Quando a relação entre dois brasileiros não pode ser personalista ocorre um vácuo, um buraco negro, um curto-circuito. É a impossibilidade de o brasileiro ser tudo o que é: personalista. Senão, basta lembrar do jeito idiota com que os brasileiros se comportam quando vão ao exterior (enquanto ostentam suas viagens nas redes sociais), comportando-se como se o mundo inteiro fosse obrigado a reconhecê-los como brasileiros para… pra quê mesmo?

Se você não quebra essa pra mim, para que eu fique com as pernas e braços abertos enquanto você senta do meu lado (melhor ainda se for mulher! vide como as mulheres se transformam em reféns quando estão em ônibus), se você não “quebra essa pra mim”, o que acontece? Eu “parto pra cima” de você.

Alguém deve ter “quebrado alguma” para os promotores de São Paulo emitirem aquele pedido de prisão preventiva – tão mal feito!! – de Lula.

E o PT, como pode estar agora tão malfadado, ele que conseguia coordenar as forças do país, em alianças com os partidos mais nanicos (e corruptos?). O mesmo governo que José Dirceu chamava de “nosso governo”, como foi possível perder qualquer governança? Ora, o PT fez alguma, e não é à toa que estão agora partindo pra cima dele.

E amanhã também, dia 13 de março, cantando, dançando e se estapeando, o povo vai partir pra cima.

Onde não há uma correlação de forças suficiente para fazer certas instituições valerem, elas podem valer de todo e qualquer modo. Elas podem quebrar o galho ou podem partir pra cima.

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