Entre coxinhas, mortadelas, ressentidos e isentões: há saída?

Debret

É realmente irônico: atualmente, qualquer posição política brasileira, inevitavelmente, fica entre:

  • Ser governista, vulgo “mortadela”: isso significa defender o PT, dizer sem ressalvas que Lula mudou o país e agora Dilma sofre injustamente um golpe.
  • Ser “coxinha”: as posições são as mais variadas, entre defender as bolsonetes, desejar o afastamento de Dilma por incompetência, proclamar contra a corrupção petista, defender um estado “liberal” (ou, de quebra, a importação do sistema político inglês) ou dizer que agora tudo vai, de fato, mudar.
  • Em terceiro lugar, o “isentão”: é o cara que “não é petista, mas…
  • Finalmente, há o que chamaríamos de “esquerdista ressentido”: ele esteve entre os grandes entusiastas dos governos PT nos tempos “áureos”, mas agora acusa os outros esquerdistas (“governistas”) de terem feito besteira com o “voto crítico” e de se omitirem em momentos nos quais o PT fez barbaridades (desapropriações para a Copa, medidas impopulares, endossamento da violência contra os índios…).

E acabou o cenário político brasileiro, não há mais escolha. Mas se é assim, que cenário é esse? Pois ele parece bastante sufocante.

Este blog já tem um tempinho de (sobre)vida e acompanhou algumas discussões dos últimos 10 anos. Nisso, não deixa de ser surpreendente o seguinte: o imenso crédito conferido a Lula nos governos iniciais, sem maior crítica, e agora a imensa condenação de seu governo. Como se, de uma hora para outra, ocorresse um corte, uma magia, um passe de mágica.

1 – O imenso crédito conferido a Lula nos governos iniciais

Há algo aí que deveria ser estranho. Basta lembrar de 2003: o PT foi apoiado pelo PCB e o PCdoB, o que não seria surpresa. Mas também foi apoiado por PMN e PL, sem contar outros como José Sarney, cuja filha Roseana era do PFL e teve a candidatura debelada por um aliado frequente do PFL, o PSDB.

O PT fez aliança com partidos de nanicos e fisiologistas brasileiros, urubus clássicos sem conteúdo partidário definido. Como se sabe, tais alianças sempre foram volúveis, mas envolveram sazonalmente inúmeros outros partidos, como o PP, PTB, PSB et caterva, guinando agora para novas correlações de forças.

Sinto-me como se estivesse redescobrindo a roda, mas vamos lá: o próprio PMDB veio para o PT e há tempos estava “dividido”. O mais incrível é ver o mesmo partido sustentando o vice-presidente e o presidente da câmara em vetores opostos, inclusive envolvendo um possível impeachment! Mas parece que a estranheza disso ficou em segundo lugar.

Vale dizer que o PSOL nasceu com o descontentamento de membros do PT e a acusação de que o partido guinava à direita, tornava-se autoritário e favorecia o velho fisiologismo. E Lula apresentou notável tom conciliador.

Não obstante, inúmeros intelectuais aplaudiam os efeitos da coalizão de Lula. Há pouco, o blog citou imensos elogios à (primeira) gestão “transformadora” de Lula, vindos de intelectuais de peso. Basta convidar o leitor a buscar os blogs brasileiros do período para ver inúmeras injunções ao apoio, mesmo quando algo deveria parecer estranho.

Aliás, as injunções de apoio do passado eram muito semelhantes às injunções de desapoio do presente.

Mas enfim, para além da eventual estranheza, foi maior o vislumbre do progresso. O Brasil efetivamente mudou. Se hoje o ex-ministro Janine Ribeiro chamava a atenção ao fato de que o brasileiro recebeu benesses, mas não educação em geral e educação política em particular, ao menos o brasileiro recebeu benesses. Novas universidades foram criadas e imensos lugares remotos, onde antes reinavam casas de pau a pique, agora possuem água, rua, luz, casas de material (coisa que todo brasileiro deveria conhecer para além da Rede Globo).

Aqui, nosso ponto é precisamente esse: a estranheza ocasional conviveu com o vislumbre do progresso. E esses dois fatores nunca foram dado como inseparáveis.

2 – A imensa condenação ao governo

Os “coxinhas” permaneceram os mesmos, mas não é exagero dizer que a “transformação” da esquerda em governistas, isentões e ressentidos foi um verdadeiro “acontecimento”. Uma vez que os isentões e os governistas parecem mais óbvios, é notável ver agora diversos intelectuais colocando-se numa atitude de condenar os outros pelo simples isencionismo ou pela adesão irrefletida a um governo que agora afunda.

Mas isso novamente deveria parecer estranho, e talvez por isso devem fazer algum sentido os quatro tipos listados acima: todos eles projetam o PT como ator solitário do cenário, ou, quando muito, ator em meio a outros autores culpáveis.

Meus amigos da mecânica quântica ;p costumam me ensinar que, se a física clássica considerava os atores móveis e o cenário imóvel, depois do século XX é impossível não ter sob conceito o fato de que atores e cenários são, igualmente, actantes.

Nisso, é absolutamente espantoso o fato de que nunca houve maior tematização das alianças do PT com os fisiologistas do Brasil e, ao mesmo tempo, a questão sobre como isso é função direta de todas as benesses conquistadas. Ninguém, até hoje, prestou atenção ao jogo que deu todo o suporte ao sucesso e ao fracasso do PT. O funcionamento da correlação de forças costurada num momento e descosturada em outro, isso nem de longe é tema para qualquer discussão, seja ela de coxinha, isentão, governista ou ressentido.

Em suma: hoje o PT é muito condenado, mas ninguém colocou seriamente o problema sobre como foi possível seu esplendor e, depois, sua condenação. Imagino que, ao pensar sobre isso, muita gente que aplaudia Lula quase romanticamente terá alguma dor de cabeça. Mas tal problema é importante porque traz consigo o futuro: o jogo que pôs o PT no governo e agora o retira não mudou, na essência, suas regras, seja lá quais forem. E outro governante está por vir.

***

Para ilustrar o problema aqui colocado, recorrerei a um exemplo: o filósofo Michel Foucault aderiu ao PCF (Partido Comunista Francês) no início dos anos 50, mas por volta de 1952-1953, saiu do Partido. Em diversos de seus Ditos e Escritos, ele comenta sobre os motivos. Dentre outras, houve um certo mal estar: a URSS era pintada como o braço efetivamente comunista do mundo, a alternativa à desigualdade capitalista, e diversos debates mostravam como os sovietes já teriam alcançado progressos impensáveis aos ocidentais. Mas por outro lado, Foucault via, aqui e ali, algumas questões: estranhamente os soviéticos reduziram toda a ciência relativa à aprendizagem e ao comportamento a Pavlov (!), criaram uma estranha biologia “mitchuriana” (alternativa ao evolucionismo) e haviam rumores sobre coisas estranhas, como o culto à personalidade de Stalin e a existência de campos de concentração. Tudo se escancarou após a morte de Stalin e das comunicações de Kruschev sobre as desmedidas do regime.

Mas antes da saída do PCF houve a estranheza, combinada ao fato do esplendor (seja ele real ou fictício).

Foucault olhava para os colegas do PCF e constatava um estranho rito. O PCF se isentava daquilo que aconteceu na URSS a respeito dos Gulags. Dizia-se, por um lado, que a URSS cometeu um desvio em relação ao que virtualmente ensinariam os textos de Marx; por outro lado, dizia-se que houve um desvio frente ao próprio caminho histórico que a URSS deveria percorrer.

Note-se, nos dois argumentos, um subterfúgio: o PCF faz com que o caso do Gulag e do culto à personalidade não sejam o caso do marxismo, não sendo também, no fundo, coisa séria para a URSS. Desviar-se negativamente do texto escrito, desviar-se virtualmente da história efetiva, isso sempre deixa o texto escrito e a história efetiva ali, possíveis e alcançáveis.

A pergunta que Foucault faz é uma verdadeira guinada, ao menos para o francês: e se… para além do desvio negativo e virtual, a URSS deveria ser encarada naquilo que mostra de “positivo e real”? Dizer que o Gulag é mero desvio da norma marxista ou do que a história deveria mostrar é simplesmente ocultar a questão mais importante: como é que tudo isso foi possível? A resposta por esse como é precisamente a chamada às condições de possibilidade históricas para que tal evento ocorra de tal forma, e não de outra. (se Foucault é hoje famoso, foi por ter colocado na obra inteira questões de ordem semelhante, coisa esquecida por inúmeros de seus, err, cultuadores)

Agora, em linguagem popular: como, sob que tipo de correlação de forças, por pretexto de obediência à revolução e ao marxismo, a URSS tornou-se uma ditadura stalinista que dispõe dos Gulags? Apenas tal questão permitiria mostrar as condições de existência do Gulag – e junto com ele as condições do próprio regime soviético. Apenas esse tipo de problema poderia implicar alguma mudança.

Uso o exemplo de Foucault porque, em todas as opções acima (ao menos as da “esquerda”), algo semelhante está em jogo. Mesmo os mais inteligentes encaram o PT como uma espécie de desvio “daquilo que deveria ser ou ter sido”. Mas ninguém junta a estranheza – aquele tipo de angústia descrita pelos fenomenólogos – e o esplendor da era Lula. A estranheza e o esplendor eram simplesmente encarados como separados, disjuntivos. O PT agenciando consigo um gigantesco agregado de partidos, e ao mesmo tempo as benesses sociais, isso sempre se viu como fatores separados.

Seria preciso fazer a pergunta pelo “positivo” e “real”: sob que correlações de forças o PT chegou ao poder e angariou certo esplendor? Sob que condições, pertencentes ao mesmo jogo, o PT foi derrubado por conjuntura similar? Como foi possível essa conjunção de estranheza e esplendor?

Mas parece que colocar esse tipo de questão é, hoje, impossível. Você precisa mostrar que está em algum dos lados.

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