A mudança das estações

zig

O fotógrafo Zig Koch, especializado em natureza, fez hoje um comentário que é um verdadeiro “libelo” à História do Esquecimento. Ou melhor: o comentário é uma lembrança, mas a lembrança isolada apenas coroa um gigantesco esquecimento, não dele mas nosso. Cito as belas palavras:

As estações do ano marcam a passagem do tempo. São mudanças sutis que nos tocam como as ondas do mar no costão rochoso. Aos poucos vão mudando sua forma até não serem mais reconhecidas, mas ainda sim são as mesmas.

Ele compartilha a foto acima, que é um lindíssimo registro. Mas por quê seria um libelo à História do Esquecimento?

Ontem a previsão do tempo do Jornal Nacional bancou mais um desses episódios incríveis do jornalismo brasileiro (também pertencentes ao Esquecimento): o Jornal nos ensinou que o Outono é a estação de transição entre o Verão e o Inverno, e por isso ocorrem diversas mudanças no clima (!!!!!!)

As estações são cada vez mais esquecidas pelos brasileiros. Isso por um movimento duplo: ano a ano o inverno perde suas características mais históricas (do frio à intercalação entre a chuva e a seca) e, praticamente ao mesmo tempo, o brasileiro vive o país sob uma distância imensa do lugar “natural” que o Brasil sempre foi.

Como se o brasileiro pudesse viver exatamente do mesmo modo em qualquer lugar.

Isso é surpreendente se compararmos a fala isolada de Zig Koch com as comunidades fotográficas mundo afora. Sites como o Flickr e o 500px abundam motivos das estações. Mas só fora do Brasil, como se aqui não existissem estações.

***

Há vários modos de provar nosso esquecimento. O mais fácil e “pra já”, nessa época em que a imediaticidade acompanha o esquecimento, é a nova novela da Globo, sobre o rio São Francisco. Basta comparar as novas novelas da Globo, de época, com as antigas novelas de época, e está tudo lá:

– Antigamente muitas novelas se ambientavam em adaptações de romances ou relatos históricos; hoje elas são “obras coletivas” cujo único ímpeto é perdurar na audiência, com final ao gosto do freguês (esquecemos nossa vinculação à História, à Literatura, aos lugares…)

– N’0utros tempos as adaptações se ambientavam verdadeiramente aos ambientes: casas antigas, pessoas do lugar, lugares reais ou lugares imaginários mas sob fácil identificação geográfica; hoje, a novela parece acontecer num lugar etéreo, cuja única demarcação é o rio São Francisco, de onde brotam, como que de uma escuridão, alguns temas que reconhecemos ser nordestinos, mas um tanto quanto de longe (não nos reconhecemos nos sujeitos que vivem lá, naqueles lugares, em vista de um reconhecimento mais fácil do que nos é mais próximo)

– Isso diz respeito à linguagem da novela: uma trilha sonora que parece uma adaptação de quinta categoria da trilha de Sob o Céu que nos Protege; longas sequências em tom de fantasia, como que numa mistura entre Tim Burton e sabe-se lá o quê, para dar conta do misticismo do nordeste. Ontem foi impagável o sonho da mulher do coronel com menções impagáveis a O Exorcista. Disso tudo, a riquíssima música nordestina e seu misticismo acirrado, onde foram parar? (novamente: em nome de uma negação de características locais, projetamos um mundo de imagens remetidas a sonoridades e imagens mais próximas, mas apenas imagens!)

– O palavreado, os costumes, as roupas, tentam imitar uma época que se foi. Tirando alguns momentos quase fotográficos, o drama murcha e, de repente, percebemos: são apenas atores da zona sul do Rio, com corpo escultural, tentando esconder o sotaque chiado.

– A novela, enfim, contém muito pouco de nordeste e de Rio São Francisco, para além de um imaginário que parece mais o dos visitantes do Xingó do que dos moradores locais. A gente, a música, a cultura, aparecem pouco. O lugar é via de regra cenográfico, de amplas paisagens, algo a lembrar apenas que estamos num nordeste longínquo, idílico e irreal. Até o suor é falso. Algo muito longe de tantas séries do passado, onde os trajes eram sujos, o sotaque menos forçados e os lugares menos cenográficos.

Para fechar o exemplo: se a TV é um meio, uma mídia, é como dizer que antes ela tentava nos mediar a representação de lugares distantes. Mas hoje ela vincula, sem tentativa mas sob muita produção, lugares irreais.

Mas, conforme dito, a TV é apenas um exemplo a mais para nos mostrar o quanto nos distanciamos do Brasil.

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