Golpe e impeachment no dualismo brasileiro

Monstro marinho que Pero de Magalhães Gândavo diz ter aparecido em São VicenteO brasileiro tem uma sensibilidade cujo teor é difícil de mudar, como ele mesmo diz, “para melhor”. Durante os últimos 10 anos, este blog se espantou com isso quase todos os dias.

Por “sensibilidade” quero dizer o seguinte: o que corre nas sensações, na carne, no corpo, nem de longe acompanha o que se registra como sentimento, sensação, aquilo que virá a ser discurso, por exemplo no enunciado “senti isso“. Ou, quando o enunciável acompanha o visível, isso apenas ocorre por diversos jogos sorrateiros.

O brasileiro vive um gigantesco dualismo às avessas. Não mais aquele de um mundo sensível que delira um mundo metafísico. O mundo sensível continua delirando, mas são outras virtualidades. Quebrado, sem grana: lá está o selfie glamouroso. Debaixo de 45ºC de sensação térmica: roupa de executivo para ostentar o fato de que não sou como os outros. Protestando contra a corrupção: o dedo em riste acusa sempre alguém, outro, ele, pois eu, bem… (só se você me pegar lá nos interstícios, na transação, no flagra, no caixa, na licitação… aí brota um sorriso sem vergonha).

Não é diferente em relação ao Golpe, ao anti-golpe, ao justo impeachment, a seja lá o que for.

Chega a ser surreal ver certa “intelectualidade” brasileira criticando, hoje, quem apóia, apoiou ou pareceria apoiar Dilma. Aliás, a mesma intelectualidade que, tempos atrás, sem suspeitas dizia: “dilma é muit@s!”. Esse mesmo pessoal acusa a ingenuidade alheia de não ter percebido que o Brasil se faz mais profundamente de Realpolitik, não de idealismos.

Muitos desses dizem que o “voto crítico” impediu, por exemplo, a ascensão de Marina, mais apta ao governo, e que foi – de fato – tratorada por Dilma, sob manobras que acabaram levando Aécio ao 2º turno.

O que este blog perguntaria é: será que apenas agora, com Dilma, começa a se perceber que a política brasileira se faz negociando com o capiroto? Que isso seja trazido à sensibilidade, assim e agora, isso é muito curioso.

O dualismo entre a sensação e a narrativa é o mesmo entre apoiadores do PT (protejam-nos do golpe corrupto, contra a corrupção!) e apoiadores do impeachment (protejam-nos na corrupção, contra a corrupção!).

Novamente, valeria sair um pouco e ver a rua, o cara que cuspiu no teu caminho, o colega que quase te mijou no banheiro público, o atendente que daria inveja aos exemplos de Sartre sobre a “má fé”, o policial que põe o fuzil na mesa para almoçar, com o detalhe de que o fuzil está virado para você, tantas outras ocasiões que são tão banais que se tornaram clichê… (“ih, lá vem o chato contar coisas desagradáveis“)

Aliás, é exatamente isso. Nós, brasileiros, fugimos de nosso cotidiano efetivo como o diabo foge da cruz. Disso a encenar uma narrativa de impeachment dentro de uma república, encenar o golpe ou o anti-golpe como se vivêssemos numa república de fato e de direito, é um pulo. Todos os poros nos convidam a problematizar o fato de que não vivemos numa república e que isso aqui é uma verdadeira encenação. Mas aí chegam as imagens, o discurso e…

Veja-se o PMDB desembarcando, em massa, do governo do PT, cuja governabilidade apenas foi tornada possível sob amplo apoio transitório do próprio PMDB. Todo mundo, a favor ou contra, insiste em pensar em termos de representação ou correspondência (PT e PMDB não estão mais “afinados”), quando tudo nunca passou de estratégia.

Para que o governo Lula surgisse e perdurasse, foram amplos os acertos, como se diz na rua em cada período eleitoral. Os mesmos acertos se fazem para sustentar um impeachment.

E um bando de piá de prédio, que não sai à rua para sentir o mormaço da calçada e o sol batendo pesado, ainda se sente na vanguarda do Pensamento, escolha-se o lado que quiser. O sol continua pesado e os acertos ali, no fio do bigode.

***

Lá venho de novo com o Foucault. Em muitas ocasiões ele faz jogar o “visível” e o “enunciável”. As práticas cotidianas sobre o sexo na Grécia, nem de longe fazem corpo com os esquemas de austeridade dos filósofos; o “grande medo” da proliferação da loucura ocasionado pelos internamentos do século XVIII nem de longe acompanha um aumento “real” do número dos loucos; o nascimento do Hospital moderno nem de longe é ocasionado por um movimento médico.

O encontro entre o médico e o hospital, a percepção dos loucos e a efetividade da loucura, dos interditos espontâneos com as práticas de si, isso sempre é problema de como determinados fatores, disjuntivos e heterogêneos, estrategicamente resultam em situações históricas singulares.

O Brasilzão é repleto desses jogos. Basta entrar no metrô às 6 horas da tarde na Estação da Sé e notar como o corpo, transformado num pedaço de carne, é depositado com outros corpos dentro de um vagão. Os dados perceptivos de repente se embaralham e transportamos a nós mesmos para outro cenário. A mente vaga, para bem longe (o smartphone é um incrível dispositivo que se encontra com o vagão), numa verdadeira economia da separação entre o que se diz e o que se faz.

samarco

Ou ainda: viram a manchete acima? Incrível comparar o que se passa com a Samarco com o que os jornais contam e os juristas dizem a respeito de corrupções como as de Lula e Dilma.

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