Quando se caminhava de dia

https://i0.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/538687_427702477276184_1930413042_n.jpgDiversos Quero-quero se abrigam como podem em Araguaina, TO

Certa vez perguntei à minha avó se ela preferia os “tempos antigos” ou os atuais. Ela respondeu “os tempos antigos”. Por quê?

“Porque antigamente tinha de tudo em abundância, bastava você soltar o anzol para fora da janela e já pegava um peixe grande para o almoço. Hoje tudo exige algo de mais para que você consiga qualquer coisa.”

É incrível: hoje, “tudo exige algo de mais”. Minha avó achava melhores os “tempos antigos” em sentido bastante semelhante ao qual, 70 anos antes dela, Henry David Thoreau ficava estarrecido com certa relação que se configurava entre o indivíduo e o mundo.

Thoreau se surpreendia com o fato de que, se a América havia conquistado uma verdadeira res publica e a possibilidade de agir individualmente pela democracia representativa, a própria ação individual não foi, de fato, problematizada. Para além da res publica, ninguém nunca tocava no assunto da res privata, considerada por ele um gigantesco “ouro” inexplorado, muito mais além do “ouro” do Oeste e d’outros lugares.

Ao invés de problematizada, a capacidade de agir era inteiramente colonizada pela “maioria”, entrevista nos mundos das notícias e dos negócios. Ele via os vizinhos de Concord sentados, jornal na mão, corpos dormentes e conectados com acontecimentos longínquos durante várias horas do dia, à espera da próxima ida aos Correios (ou do fuxico do vizinho, com “cones no ouvido”) para chancelar tempos inteiros de vida distanciados daquilo que é mais precioso à própria vida: a capacidade de agir.

Thoreau também considerava estranho que alguém a dedicar várias horas por dia para caminhar a floresta (ele próprio) poderia ser chamado de vagabundo, enquanto quem gastava a vida para cortar a floresta era visto como homem de bem e trabalhador. Gasta-se a vida para ganhar a vida, dizia. Ou ainda: do mesmo modo como no aguardo das notícias, no mundo dos negócios o indivíduo inteiro se compromete em ações que não são verdadeiramente individuais, mas que poderiam ser feitas por qualquer um. Numa de suas grandes frases de efeito, Thoreau era fulminante: “Quem mata o tempo fere a Eternidade”.

“Tudo exige algo de mais”, disse minha avó. Note-se, em Thoreau, como qualquer capacidade de agir era protelada por alguma espécie de mediação: o voto medeia minha relação com as decisões políticas (que serão de uma “maioria”, isto é, todos e ninguém), o dinheiro me afasta das coisas, os jornais e o trabalho afastam o indivíduo de suas ações.

Dessa constatação resultam os inúmeros paradoxos que Thoreau adorava explorar: por exemplo, o fato de que um Estado não resiste ao poder de um único indivíduo (!). Isso porque são as ações individuais de cada um, uma a uma, aquilo que, na ponta da lança, constituirão o que se configura apenas a posteriori como um Estado. O Estado não é algo que se impõe, mas aquilo que tua ação reitera… A ponto de Thoreau ser preso por acreditar que um único proprietário de terras em Concord que não escravizasse poderia libertar todos os escravos da América. Em suma: o Estado não passaria de uma ficção… Ele se define pelo que faço aqui e agora. Por isso – novamente paradoxal – “o melhor governo é o que menos governa”, dizia Thoreau.

Eis a essência daquele enunciado privado de minha avó: antigamente não se acumulavam tantas mediações… Certamente o trabalho deveria ser duro (algo que certamente seria objeto de riso por Thoreau), mas, mesmo assim, era possível pegar gratuitamente um peixe que hoje não custa menos do que 90 reais (sem contar que hoje, no Brasil, também é preciso levar o vendedor da peixaria na conversa, mediação mais além das mediações).

Em suma: não se colocavam tantas etapas intermediárias para que o indivíduo se relacione com o mundo (e para começar a pensar em etapas intermediárias basta pensar na caixa de correio com as contas do fim do mês).

E hoje percebo o seguinte: estamos em abril e a temperatura não baixa de 32ºC no aplicativo, gerando diariamente sensação térmica à beira dos 37-45ºC. O único ganho é saber que, à noite, em meio às ameaças de Zika e a tarja vermelha do consumo de luz, a temperatura da madrugada atinge a casa dos 20 e poucos graus.

Não sei bem se o leitor entende o que isso significa, mas eu o convidaria a olhar um pouco ao redor e se perguntar: durante quantas horas do dia você tem contato efetivo com o mundo efetivo ao redor, sem maiores mediações?

Digo isso porque deve ser familiar a você o fato de que durante várias horas do dia é praticamente impossível simplesmente viver ao ar livre, estar na rua, na calçada, indo para qualquer lugar, sem alguma mediação para suportar o clima – ventilador, ar condicionado, climatizador… Valendo repetir: estamos em abril e, sob chuva escassa, a temperatura raramente baixa dos 32ºC nas horas mais ativas do dia.

O Brasil a cada dia bate recordes de consumo energético (e esse link é super-antigo). Ignoramos sistematicamente que influenciamos o clima. Esquecemos o velho tema de que a vegetação tem relação direta com o microclima de uma região, do mesmo modo que fingimos ignorar que o uso do ar condicionado contribui com o aumento desse mesmo microclima. A cada dia reiteramos o inconcebível.

Seguimos uma velha tradição colonial de desvincular nosso próprio modo de ser com o clima. Ter um ar condicionado não é questão de preocupação, e sim de ostentação. O esnobismo histórico da europeização das vestes brasileiras, ironizado por Gilberto Freyre (“sobrecasaca preta, botinas pretas, cartolas pretas, carruagens pretas, quase um luto fechado. Essa europeização de nossa paisagem, de preto e cinzento, começou com Dom João e culminou com Pedro II”), agora se transformou. A república das hemorroidas agora se transformou na república do ar condicionado!

É de pensar no recado que daremos a nossos netos (caso tenhamos algum no futuro): “Sim, quando eu era jovem vivi temperaturas abaixo dos 30ºC. Era possivel inclusive caminhar nas ruas”.

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2 comentários sobre “Quando se caminhava de dia

  1. “Je suis d’avis que je ne puis conserver ma santé et mes esprits si je ne passe au minimum quatre heures par jour et le plus souvent davantage à flâner par les bois, les collines et les champs, entièrement dégagé de toute préoccupation matérielle… Je ne puis rester une seule journée enfermé dans ma chambre sans rouiller et, lorsqu’il m’est arrivé de ne pouvoir m’éclipser que bien après quatre heures de l’après midi – heure trop avancée pour sauver la journée – quand les ombres de la nuit commençait déjà à se mêler à la lumière du jour, j’ai eu le sentiment d’avoir commis quelque péché exigeant pénitence. Je confesse d’ailleurs être étonné de la capacité d’endurance, pour ne rien dire de l’insensibilité morale de mes voisins qui se confinent la journée entière dans leurs boutiques ou leurs bureaux et ce pendant des semaines et des mois, que dis-je, pendant pratiquement des années.” (Thoreau – Marcher)

    Ando pensando se é possível…

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