Devo contratar/demitir um socialista?

Rapaz, estão saindo até textos com dicas para não contratar os “socialistas”, ou para demiti-los com preferência.

Disso, não sei o que consegue ser pior: se a política transformada em puro ódio ou a imensa desinformação (talvez burrice) de alguns caras. Por isso, vou começar por algo bastante trivial: não sou um desses “socialistas”, ok? E nem acho que isso teria alguma importância. Dito isso, contra os textos mencionados acima e o que eles dizem, não é inútil escrever os tópicos abaixo. Lá vai:

“A crise foi causada por esse governo E ele é socialista”

1) Sinceramente? Acho que há um bom quinhão de responsabilidade no governo Dilma sobre tudo de ruim que ocorreu a ela. Aliás, acredito que o PT colhe hoje os frutos de um pacto com o “diabo” feito desde o primeiro governo Lula (tal como esse blog já disse algumas vezes). Pacto com o “diabo”? Sim, meus caros: pacto com tudo o que existe de retrógrado na política brasileira desde os últimos 500 anos. Lembram daquele falatório sobre “pacto social” (depois de Lula ter José Alencar na chapa), depois “governabilidade” e então “governo de coalizão”? Isso é, em bom tom, a distribuição de cargos e benesses, aquilo que tornou o mensalão possível. Tais atos dizem respeito – algum historiador dirá isso no futuro – ao movimento gradativo do PT chafurdar na lama, primeiramente para sustentar seus fins sob os meios da política lamacenta brasileira, e depois apenas para se garantir no poder.

2) Mas se você é realmente honesto, deveria considerar uma coisa em termos de Realpolitik: o PT chafurdou numa lama que, infelizmente, já existia. Sim, culpa do PT. Mas sim, culpa da lama que, aliás, continuará existindo, e provavelmente mal cheirosa como nunca (por culpa de nós todos, aliás).

3) Isso envolve outra infeliz questão: como seria possível o PT, com Dilma, tornar-se um governo tão ruim, uma vez que Lula saiu do governo com esmagadora popularidade e Dilma foi total continuidade? Isso não se explica apenas  por incompetência. Não tivemos apenas um governo inviável, mas também – e talvez sobretudo – um governo inviabilizado. Ou senão, basta revisitar a posse de Dilma-1 para rever ali, ironicamente, as mesmas tentativas que se tornaram bem sucedidas após as eleições de Dilma-2. Está tudo ali, desde a tentativa de dividir o Brasil, até a busca desenfreada por algum motivo que justificasse o impeachment.

Isso dito, se você chegou até aqui, é preciso dizer algo mais. Nem o governo do PT é de “esquerda” e nem a “esquerda” é “socialista”.

4) Claro, diante da histórica oligarquia brasileira, qualquer cidadão que dividiu o pão algum dia é “de esquerda”.

5) Mas meu amigo, informe-se: o governo Lula, e depois Dilma, beneficiaram imensamente os bancos. Sob o PT, o Código Florestal foi reformulado a favor dos ruralistas (a meu ver, o fator mais surreal disso é o apoio do… PCdoB!). Terras indígenas não foram agilmente demarcadas. Belo Monte foi construída sob corrupções e desmandos ainda a serem apurados. Mais ainda: os escândalos do PT envolvem os grandes empresários brasileiros, as empreiteiras que mobilizam a política mas ficaram tanto tempo nas sombras. E o PT já jogou as ditas “forças de segurança” contra militantes “de esquerda”. Patrocinou desocupações para a Copa e fechou os olhos para a matança dos Guarani-Kaiowá. Sob o governo do PT, é certo que as universidades federais foram de algum modo fortalecidas. Mas o contexto é complexo e existe a contraparte: sob imensos riscos, da estabilidade do servidor, da terceirização dos serviços e do avanço da precariedade, as universidades públicas tiveram sob o PT as duas maiores greves da História. Esquerda? Socialismo?

5) A esquerda não é socialista. Ah sim, certamente você vê bastante gente vestida de vermelho. Mas, do mesmo modo como os “verde e amarelos” não se resumem a apoiadores de Bolsonaro (ainda bem, não é mesmo?), os “vermelhos” não são necessariamente socialistas. Aliás, o socialismo foi mais do que revisto durante os século XX. Um “socialista” ortodoxo (?) e/ou fã do estatismo “real” de Stalin, se você achar alguém assim, por favor, interne. Pois se o cara é leitor de Marx, ele certamente não deixou de ler também os outros marxistas que, como Marx ensinou, foram sensíveis às inúmeras mudanças históricas do século XX (rapidamente: se você acredita que o “socialismo vai tirar tua propriedade” ou é contra o mérito do trabalho, é melhor sair por aí e ler um pouco). Isso para não citar aqueles que requerem independência ou alheiamento ao legado marxista. Basta citar, nisso, o “Marx mais além de Marx”, de Toni Negri, e as inúmeras questões de Foucault, bastante desenvoltas para com o marxismo. Duas outras esquerdas, mas não socialistas.

6) Mas olha só: isso não significa nem que esses tais socialistas – mesmo os ortodoxos – são “bolivaristas-venezuelanos”, e nem o contrário. Falo isso, obviamente, para evitar outra associação, a de que ser de esquerda = ser socialista e isso implica ser bolivarista-venezuelano conforme certa crendice entrevista por aí, por ex. em revistas como a Veja. Aliás, já mostramos por aqui que Marx e Bolívar não eram algo tão a ver assim. Nem o “socialismo do século XXI”, aquele que existia com Chavez, é um socialismo clássico. Talvez não passasse de um estatismo financiado a petro-dólares.

7) Disso, parece louco e vai chocar os leitores da Veja mais babões, mas… nem o governo do PT é socialista-bolivarista. Novamente, é preciso dizer: é claro que qualquer governo que teve qualquer acento social, diante de 500 anos de história de uma América Latina continuamente estuprada, pode ser visto como alguém de esquerda (o que, nesse sentido, é um belo título, inclusive até para quem quer brincar de ser liberal). Mas o Brasil não se transformou numa economia fundamentada em petrodólares, nem num estatismo dependente daquilo. Aliás, gostei do termo “neoliberalismo soft” (contra o “neoliberalismo hard“, motivo para temer, quer dizer, Temer), embora só o tenha visto num meme de Facebook.

Ser contra o impechment não é ser comunista/socialista etc.

8) É simples assim, e aqui está o principal. O processo de impeachment não se deve a uma “causa socialista”, mas aos decretos e ditas pedaladas fiscais de Dilma. Aqui constam razões inteiramente jurídicas – nem um pouco socialistas, diga-se – contra o impeachment. Curiosamente, não vi ainda uma réplica, pois os argumentos a mereciam. Além disso, diversos outros políticos cometeram e cometem as mesmas manobras que, agora, levaram ao processo contra Dilma.

Por isso, tome cuidado: aquilo que você enxerga no “socialista”, para não contratá-lo, pode não passar de sua própria imagem invertida vista no espelho.

“Devo então contratar/demitir um socialista?”

9) Minha nossa, se você chegou até aqui e ainda acha essa pergunta possível, seria preciso ler alguns textos de política. Nenhum deles dirá que a política implica o ódio e a anulação do próximo baseada num critério político. Aliás, mesmo que você seja um zeloso empresário liberal, não seria inútil notar que a própria bolsa família, contra 500 anos de miséria, tornou o brasileiro um ser um pouquinho mais individual. Isso – consumo e iniciativa individuais – fomentou o mercado, inclusive nas crises do fim dos anos 2000. De todo modo, falávamos de política, e a atitude anuladora do próximo já foi vista muitas vezes no século XX sob o nome de… fascismo.

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