Uma nova fuga de cérebros no Brasil?

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A Piauí anuncia que Suzana Herculano-Houzel, renomada neurocientista, deixa o Brasil e lecionará nos EUA. Dentre as razões, constam:

  • os poucos recursos fornecidos pelas universidades brasileiras
  • a derrocada do financiamento científico no Brasil e no RJ
  • a carreira engessada dos pesquisadores, não definível por produtividade
  • o confinamento do pesquisador na função pública de professor em universidades
  • o “nivelamento por baixo” das carreiras, sem incentivos para a produtividade
  • a burocracia ineficiente e desmotivadora

O curioso, após isso tudo, foi a divulgação, via “Partido Novo”, de que a fuga do cérebro de SHH se deveria a motivos advogados pelo partido, como a “falta de meritocracia e o excesso de burocracia”.

Dá para ver facilmente onde o Novo quer chegar. Só não dá bem para entender no quê o Partido seria efetivamente “Novo”. Sobre a dita “meritocracia”, já discutimos largamente, ponto a ponto, o assunto por aqui. O “Novo” parece mais é velho.

Dito isso, as queixas da professora têm, sim, grande fundamento.

A começar pelo fato de que um doutor bem formado, quando é admitido numa universidade pública qualquer – dando graças aos deuses de suas (não)crenças por conseguir a única oportunidade dada no Brasil a um pesquisador, a de tornar-se professor de uma universidade pública -, muitas vezes se vê sob uma carga burocrática tão grande que não consegue ocupar seu tempo de pesquisa em meio às inúmeras tarefas: reuniões intermináveis para burocracias, tarefas administrativas kafkianas e demais encargos do ensino. A própria pesquisa está tão burocratizada que é difícil mover um dedo, especialmente quando se está começando. Projetos excelentes podem muito bem ser negados por ausência de vinculação ou demais conquistas burocráticas, e não pelo puro e simples mérito.

Somando-se a isso, consta a precarização do ensino, da pesquisa e da extensão. É fato que os governos Lula ampliaram as universidades de um modo totalmente contrário às pretensões do governo FHC. Também é fato que muitas pós-graduações – responsáveis por formar nossos pesquisadores – cresceram em número e em bolsistas, pois as agências de fomento receberam muito dinheiro e muita boa gente foi formada. Mas também é fato que os financiamentos caíram vertiginosamente (por ex.) e o prognóstico é aterrador. Quem não viu ainda a notícia de que Temer pretende escolher um pastor da universal para o ministério da Ciência e Tecnologia? Aliás, exatamente o inverso do que promulgaria uma guinada “liberal”.

Quanto à carreira engessada, o fato é que, nos últimos anos, as carreiras dos docentes são constantemente reformuladas, ficando mais burocratizadas e nivelando cada vez mais para baixo. Nem de longe se trata de um projeto de valorizar a situação inicial e recompensar os avanços. A aposentadoria se aproxima cada vez mais da iniciativa privada e quase metade do salário é de “gratificações”, que podem ser retiradas a qualquer momento, dependendo apenas de vontade política. Além disso, quando um professor doutor é agora contratado, ele tem mais etapas a cumprir para chegar ao patamar mínimo de alguns anos atrás – o de Professor Adjunto. Desengessamento, maior estímulo à produtividade? Não, é o contrário: a carreira é cada vez mais escalonada para baixo, enquanto exige titulação cada vez mais para cima. Nisso, vê-se que não há incentivo ao mérito, ao menos por dois motivos:

  • Não são criadas condições de base igualitárias para a produtividade
  • O incentivo ao mérito deveria ser “para cima”, e não para sair de um buraco cada vez mais profundo. Recompensa, e não fuga da punição…

A própria noção de “produtividade”, nisso tudo, é dúbia. De um lado, há um movimento de encarar a produtividade como número: publish or perish. Isso faz com que muitos pesquisadores “produtivistas” realizem verdadeiros atentados ambientais, papéis e mais papéis publicados que não passam de auto-paráfrases, auto-cópias ou solenes inutilidades para conseguir um índice a mais nos Qualis da vida. De outro lado, o engajamento necessário a uma boa pesquisa, custe o que custar, é desencorajado. Grandes pesquisadores brasileiros já diziam que essa importação da moda dos papers apenas traria prejuízo, uma vez que os riscos e desafios necessários às grandes descobertas não possuem a velocidade dos papers publicitários e sem ineditismo. Escrever e “produzir” não é igual a postar num blog ou no Facebook. Um bom texto não se mede por backlinks ou por elogios. Muitas das grandes pesquisas exigem o tempo, a paciência e a dedicação do anonimato. Um pesquisador precisaria ter garantida também sua dedicação e solidão. Conquistas e descobertas exigem grande mérito, mas mérito não é o que a meritocracia de um lado, e as instituições (meritocratas ou não) de outro, pretendem fornecer.

Dando fundo a isso tudo, há uma gigantesca confusão do que deve significar a pesquisa em âmbito público. Confunde-se produtividade com “utilidade ao mercado”, e nesse sentido, por exemplo, o PSDB paulista começa a repreender a FAPESP por financiar pesquisas “inúteis”, especialmente chamando de inúteis as pesquisas em humanidades. Quanto a isso, é inominável a falta de informação, ou quiçá a burrice. Todos sabem que as grandes conquistas da ciência vieram dos grandes sacrifícios do conhecimento. Muitas descobertas “inúteis” propiciaram consequências inimagináveis, para o bem e para o mal. Sem contar o seguinte: experimente conversar com um engenheiro com boa formação em humanidades, e depois compare-o com outro que só aprendeu as tabelas. A diferença é abissal, como é também a diferença entre uma sociedade “com” e “sem” humanidades (os fascismos do século XX que o digam).

Um grande país se mede pelo incentivo à pesquisa, pura e aplicada. Os países pequenos se medem pela dependência de quem faz pesquisa e inovação. Aliás, os acontecimentos políticos dos últimos tempos, o naniquismo espiritual brasileiro, tem nos empurrado cada vez mais para um vergonhoso “7 a 1” existencial. Voltamos a galope ao dependentismo intelectual.

A crise atual fornece um panorama tenebroso para o ensino superior e a pesquisa. Nos anos 90, o fenômeno da “fuga de cérebros” era bastante conhecido. Nos anos 2000, alguns “voltaram”. Foi caso notório a “vinda” das pesquisas de Nicolelis ao Brasil. Agora, pelo jeito, o risco voltou, e querem nos apresentar como novo o que no passado já não deu certo.

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