O que somos nós, brasileiros, num dia como o de hoje?

Vou usar o meu caso: à frente, tenho um artigo científico por fazer (veja bem, é só um caso, um trabalho qualquer, poderia ser qualquer outro). Ele mobiliza todos os meus esforços, mas vejamos bem, no horizonte de minhas ações não existe apenas eu e meu artigo.

Se eu fizer bem o que deveria fazer – caso pudesse e inúmeras circunstâncias de vida e do trabalho não impedissem a realização do próprio trabalho -, devo ter em conta que um artigo exige revistas, leitores, um público, um mundo inteiro.

E aqui chego ao ponto importante: independente do que eu fizer – se o meu trabalho for bom ou um lixo, um ítem imprescindível ou irrelevante -, o mundo continua girando e outras pessoas fazendo seus trabalhos, muitos deles bons e imprescindíveis. O conhecimento, o Mundo, o Universo, tudo, não tem necessidade alguma de ouvir o que acontece no Brasil.

O universo está cagando para o que ocorre aqui, a não ser que… que por aqui alguma coisa mude e possibilite uma ação mais efetiva sobre esse universo.

Não importa se você é cientista, avô, padre ou policial. Está aqui, vivo, e o mundo resplandece ao redor.

Mas no Brasil acontece algo estranho. Muitas forças exteriores a mim me impedem de girar com a roda do mundo. Claro, investindo muito mais esforço, muito mesmo, posso conseguir resultados semelhantes ao menor esforço de alguns colegas gringos. O velho complexo do “sou brasileiro e não desisto nunca” (remédio perpétuo de seu irmão siamês, o complexo de viralata). Mas se não fizer, se o corpo ou as vistas não aguentarem, qual será o resultado disso? No caso de meu trabalho, precisarei absorver os trabalhos dessas outras pessoas – poderia ser o contrário – para, no âmbito do meu trabalho, aqui no Brasil, implementar alguma coisa, algum dia, mas só se isso for um dia conveniente para algum burocrata, é claro.

a vocação natural do brasileiro, segundo o Brasil de 2017

Mas estou aqui, tentando escrever um artigo, e acabo observando de novo algumas coisas. As condições de trabalho não são iguais às de outros escritores, especialmente os gringos. O salário é incompatível. A valorização social pelo trabalho de professor e pesquisador caem a galope. E não sou, nem de perto, amparado financeiramente como muitos de meus colegas, não venho de família rica. Vou resumir bem: o salário cai, as pessoas não sabem bem o que faz um professor, e quando se pesquisa, o desconhecimento sobre o que faz um pesquisador é ainda maior. Artigos científicos, pesquisa pura, o que são e para quê servem?

E então tiro a ponta do compasso do meu umbigo e giro no mundo. Os colegas gringos até enfrentam algumas críticas semelhantes. Mas vejo trânsito de idéias e condições para trabalhos.

Mas há mais. O Brasil muda a galope. E para pior. Muito do que está sendo feito, no dia de hoje, afetará todas as nossas vidas e trabalhos.

Estão mudando o regime trabalhista brasileiro. E o modo como ele se aposenta. Estão mudando brutalmente para pior.

É como se dissessem a você que a roda da vida gira lá fora, enquanto aqui dentro, você continuará sendo obrigado a não participar dessa roda. Uma não-participação maior da roda da vida, e por mais tempo.

Não sei bem no que você, caro amigo, trabalha. Suponho que meu texto já foi longo demais. Mas também suponho que precisamos nos levantar dessa cadeira. A roda do mundo continua girando, mas por aqui é como se não existisse roda ou mundo.

A vida passa, e o que temos feito com as nossas? Um moinho de gastar gente, como dizia Darcy Ribeiro?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s