Demarcando o Brasil

Para a História do Esquecimento é digno de lembrança o modo pelo qual o Brasil começou a se preocupar com algo inerentemente interno, brasileiro, isto é, quando o poder central achou por bem que algo desse lugar devesse ser organizado, influenciando no fluxo e no hábito das pessoas e na configuração do local, e para isso utilizou leis e polícia.

Note-se que é bem diferente chegar aqui e revirar o país em busca do pau-brasil e outras benesses para enriquecer o poder central, e começar a se preocupar com algo inerente a esse lugar. Uma coisa é adotar o Brasil como mero meio para determinados fins; outra é supor que o Brasil merece alguma importância para organizar o que existe aqui para fins – mesmo que provisórios – brasileiros.

Um caso muito peculiar disso diz respeito à relação entre a povoação do interior e do litoral. Durante muito tempo, o poder central não aconselhou, e mesmo impediu, o povoamento e o fluxo de pessoas ao interior. Não à toa a população brasileira é, até hoje, litorânea:

O primeiro donatário penetrara melhor do que muitos dos futuros governadores os verdadeiros interesses do Estado: (…) não ignorava que dom João III tinha mandado fundar colônias em país tão remoto com o intuito de retirar proveitos para o Estado, mediante a exportação de gêneros de procedência brasileira: sabia que os gêneros produzidos junto ao mar podiam conduzir-se facilmente à Europa e que os do sertão, pelo contrário, demoravam a chegar aos portos onde fossem embarcados e, se chegassem, seria com tais despesas, que aos lavradores “não faria conta largá-los pelo preço por que se vendessem os da marinha”. (Raízes do Brasil, p. 101)

Veja-se que (estamos no século XVII-XVIII) a colonização do interior não ofereceria interesse – e São Paulo é para Sergio Buarque pioneer em certa autonomia brasileira – por critérios que não dizem respeito à criação de um país, mas simplesmente pelo escoamento das benesses, do quintal para onde realmente interessa.

Mas algo muda quando descobrem as Minas Gerais. Como evitar a emigração massiva ao interior, por tanta gente – inclusive estrangeiros e monges – interessada naquilo que pertence em maior parte à Coroa? Algo faz os interesses do poder português precisarem se focar no Brasil, isto é, em negócios brasileiros:

Então, e só então, é que Portugal delibera intervir mais energicamente nos negócios de sua possessão ultramarina, mas para usar de uma energia puramente repressiva, policial, e menos dirigida a edificar alguma coisa de permanente do que a absorver tudo quanto lhe fosse de imediato proveito. É o que se verifica em particular na chamada Demarcação Diamantina, espécie de Estado dentro do Estado, com seus limites rigidamente definidos, e que ninguém pode transpor sem licença expressa das autoridades. (…) “ Única na história” , observa Martius, “essa idéia de se isolar um território, onde todas as condições civis ficavam subordinadas à exploração de um bem exclusivo da Coroa.” (…) A circunstância do descobrimento das minas, sobretudo das minas de diamantes, foi, pois, o que determinou finalmente Portugal a pôr um pouco mais de ordem em sua colônia, ordem mantida com artifício pela tirania dos que se interessavam em ter mobilizadas todas as forças econômicas do país para lhe desfrutarem, sem maior trabalho, os benefícios. (…) Não fosse também essa circunstância, veríamos, sem dúvida, prevalecer até ao fim o recurso fácil à colonização litorânea, graças à qual tais benefícios ficariam relativamente acessíveis. (Raízes do Brasil, p. 103)

Um país que faz medidas “únicas no mundo”, dizia Martius, quando se refere a esse curioso caráter de estabelecer medidas civilizatórias – demarcar o povo e a circulação dos bens – e, ao mesmo tempo, faz com que o povo, os bens e tudo apenas sirvam para outros propósitos, os propósitos da Coroa.

Um país no qual as medidas civilizatórias são “únicas no mundo” e podem variar ao sabor da Coroa? Um país no qual a própria noção de civilização serve de adorno para critérios não civilizatórios? Não sei o porquê, mas hoje abri o jornal e isso me fez lembrar outras estórias. Nada que precise mover você, leitor, do sofá (afinal, é assim que brindamos nossa vocação histórica).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s