Não é mais normal ser professor #naoenormal

Na mesma noite, recebo dois posts: o primeiro, acusando a universidade pública em geral de “causar depressão” nos estudantes. O segundo, informando que professores “dizem sofrer” (com dois verbos, assim mesmo) censura de simpatizantes do Escola Sem Partido.

A sincronicidade é incrível.

É certo que a educação, do básico ao superior, mudou muito nos últimos anos. Mas é absolutamente surpreendente o fenômeno: onde a educação diz rigor, qualidade, reflexão, à direita acusam de doutrinação, e à esquerda acusam de tradicionalismo.

É certo que as universidades públicas ainda carregam ranços de tradicionalismo. E por isso o vídeo acima quer dizer: há professores de gerações antigas que são insensíveis a questões pedagógicas mais construtivas e utilizam sua autoridade para negar cidadania aos alunos no mundo do Saber; há igualmente certo lobby de produtivismo, mais recente, que fica intolerante às questões pessoais.

Isso está completamente certo.  Mas é inteiramente errado quando pretende generalizar. E é míope também.

Para começar o assunto, as universidades não são mais as mesmas. As públicas, que sempre tiveram pesquisa e extensão, não ditam mais as regras. Os professores cada vez mais perdem direitos e espaço que não seja o de sala de aula. Aula está se tornando a finalidade última da universidade, que está perdendo a dignidade do nome de “universidade”. Proliferam os vínculos horistas, que dispensam pesquisa. E o lobby das privadas achata, cada vez mais, o ensino num didatismo forçado, que para dar justo nome à coisa não passaria de uma forçada facilitação.

É incrível o número de professores que adoecem com isso, ou precisam não mostrar que adoecem sob a pena de perderem o emprego.

Sob pretexto de “não afetar os alunos”, as Unidunitês por aí fazem para suas avaliações bancos de questões baseadas em manuais ultrapassados (quando não, apostilas facilitantes), ou permitem sistemas de avaliações cuja única função é a de existir para dizer que algo foi feito. Muitas vezes isso tudo é coordenado por quem não tem olho na pedagogia, mas no bolso. Alunos de exatas não aprendem a calcular e de humanas não aprendem a ler. As questões analíticas são negligenciadas em nome de uma instrução programada, para não causar dificuldade ou sofrimento.

Não bastasse isso, o aluno que entra em universidade não tem formação suficiente. A coisa já vem da base. O professor é muitas vezes constrangido a fazer milagres, pois o comportamento do aluno também mudou muito. Ele não mais se dedica a fazer o mínimo. Há 20 anos existia certo pacto de mediocridade, no qual os alunos ao menos faziam o mínimo. O pacto de hoje é de não fazer nada: aprovação automática. E o professor, além do mais, precisa contemplar índices de produtividade, quer dizer, de aprovação.

O dilema é cruel: Reprovar significa demitir, aprovar significa ser desonesto e, em qualquer das duas hipóteses, o professor será visto como mal professor, sem ética, caráter ou didática. Não há para onde correr, pois a linguagem de fundo é a do dinheiro, não a pedagógica. Sob pretexto de didatismo, a TV gosta de mostrar soluções pessoais de professores mirabolantes, e não o fato de que educação requer discussão pública e suprapessoal. Mas ora bolas, diante de tanta coisa, o professor é alguém a quem é possível apontar o dedo em riste.

Vida dura, a de professor. E nem vou lembrar que a Reforma Trabalhista traz agora o trabalho intermitente, as terceirizações e os vínculos que dispensam remunerações complementares ao estrito horário em trabalho (preparar aula, qualificar-se e corrigir avaliação: pra quê?). Ou que a Reforma da Previdência aumentará o tempo para aposentadoria integral. Ou que as licenciaturas – por que será? – não são mais atrativas.

Afinal, o professor não passa de um tradicionalista que causa depressão nos alunos. Ou ainda, não passa de um doutrinador.

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2 comentários sobre “Não é mais normal ser professor #naoenormal

    • Olá André,

      Creio que seja mais complexo… A piora das condições dos professores (que pioram as condições dos alunos) também está ligada a uma piora das condições dos alunos (que pioram as condições dos professores). Mas aí que está, o texto tenta mostrar que há tb mais coisas em jogo.

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