Blogs e redes sociais

Dias atrás, recebi um comentário revelador: no Facebook, não escolhemos o que podemos ver. Essa tese é incrível: a tese de que escolhemos, sim, o que queremos ver, não é precisamente a tese das “redes sociais”?

Isso foi muito usado contra os blogs. De alguns anos para cá, os links foram trocados pelos “follow” e aplicativos. As tecnologias de RSS, que peneiravam a informação ao gosto do freguês (se você não conhece, vale se informar), deram lugar ao Twitter, ao Facebook etc..

Para mim, foi revelador o comentário do “não escolhemos”, quando na vez seguinte, abri meu Facebook e constatei algo que muita gente comenta há muito tempo: e não é que o Facebook é um verdadeiro esgoto, repleto de gatinhos fofinhos e pessoas cheias de verniz, de um lado, e de outro o mais puro ódio escoado em indiretas e palavras de condenação? Entre um e outro, aparecem alguns factóides e… até links e notícias interessantes. Mas não sai a aparência de uma enxurrada de coisas passando, como numa enchente levando tudo (o Facebook e o Twitter não tem memória e histórico, aliás).

De fato, não escolho o que vejo no Facebook. É como se eu regredisse na “evolução” da internet.

Os blogs, por exemplo: antes das redes sociais, formavam por si próprios espécies de “redes”, só que sem o “follow”. O link capitaneava tudo. Sempre houve pontos focais e autores transformados em autoridades, mas o que sempre mediou tudo foi o assunto.

Com as redes sociais, algo mudou: pode ser até que pessoas se concentrem em nichos específicos de assuntos, mas via de regra você não segue mais assuntos, e sim pessoas. Disso se segue tudo o mais: por simpatia à pessoa, e não ao assunto, somos bombardeados por toda sorte de questão de aprazimento (não de gosto), entre gatinhos, pessoas bonitas, condenações de pobre e hails a políticos fascistas. Se em alguns momentos as redes mostraram interessantes articulações (como na Primavera Árabe), em boa parte do resto se mostraram incrivelmente reacionárias e fascistas.

Deixo meu ponto mais claro: não se trata aqui de uma diferença de escolha, mas de plataforma. A escolha da plataforma define todo o resto, se um amontoado de ressentimentos, ou se uma autonomia maior para dialogar assuntos. Vale, sobre isso, dar uma olhadinha em assuntos como esse.

Outra diferença: os comentários. Pela presunção do “você tem sua opinião, eu tenho a minha“, isto é, do respeito auto-inibidor, toda sorte de lixo é propagada nas redes sociais, sem qualquer possibilidade de comentário. Afinal, o comentário afeta a pessoa, e não o assunto (ou, via de regra, é isso que ocorre). Mas aceitar uma opinião lixo – que muitas vezes ofende ou abre espaço para a ofensa de outras pessoas, como o apoio a políticos fascistas – não é respeito, é a negação da possibilidade de respeitar. É, portanto, a negação do “social” no nome “redes sociais”.

E o mais curioso: o “eu tenho minha opinião, você tem a sua” acaba com a própria comunicação social, na rede social. Ou as caixas ficam vazias, ou se perde a oportunidade de fazer o que se faz na vida real, isto é, de conversar ao vivo, o que é muito mais gostoso. Por pretexto de trocas, redes sociais muitas vezes deixam de trocar.

Quanto aos blogs, é óbvio que já existiam blogs e assuntos reaças. Mas o foco no assunto afastava a hipótese do “respeito auto-inibidor”.  Por isso, ponto novamente para os blogs, pois neles as pessoas tinham algum horizonte de escolha sobre o que ler e como acessar.

Inclusive, vocês não têm idéia sobre o quanto os blogs proporcionavam bons encontros e amizades 😉

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