Bala perdida

E o Flamengo encontra o temível Palestino. No condomínio, armam uma verdadeira operação de guerra para ver o jogo. Mentira, fazem isso na cidade inteira. Não que os outros assuntos importem.

Mas eu gostaria, mesmo, era de comentar sobre outra notícia que chocou os cariocas na semana: a bala perdida que atingiu uma criança antes de nascer, no Rio. O que me parece muito curioso é a ocorrência de tantas outras coisas

Ou senão, basta você chegar no Rio. Não importa se no Santos Dumont, na Rodoviária Novo Rio ou no Galeão. Primeiro, você é assaltado pelos taxistas cadastrados. Eles gritam, às vezes interferem, mas querem que, antes de toda e qualquer coisa, você recorra a eles.

Passou por eles? Vem a segunda camada: os taxistas não cadastrados. Na Rodoviária Novo Rio, qualquer frequentador já sabe: precisa se desviar do cordão dos taxistas, em plena porta de saída, para conseguir sair da rodoviária, mesmo sabendo que lá fora tem… uma fila de mais taxistas!

Quantas vezes já ouvi a frase: “tudo o que quero é não depender de táxi”. Não à toa a batalha contra o Uber sempre foi…

Passou do táxi e agora anda na rua, certo? O carro invade o sinal. O carro quase te atropela, invade a calçada, buzina alto em cima de você. O carro não? Então a moto. Ou a bicicleta. Ou o ônibus. Ou o rapaz dentro do ônibus, que não aprendeu a usar fone de ouvido. Ou o cara do condomínio, fazendo o churrasco, ou apenas ouvindo música, ou fazendo sexo. Ou no metrô ou no trem, a necessidade de haver um vagão só para mulhers. Ou, ou…

O que parece curioso é que o procedimento de assalto parece ser um patrimônio cultural do Rio. Ou senão, perambule por aí e veja o número de bares, restaurantes, padarias que simplesmente não anunciam o preço. Onde, para comprar algo, você não precisa perguntar, e depender, do bom humor do prestador de serviços? Engraçado como isso já virou até conto.

Mas imagino que você recusou os taxistas. Experimente, então, pegar uma van.

Para falar a verdade, o Rio – e talvez na extensão, o Brasil – apenas conseguiria mudar se algum dia enfrentasse, para o bem e para o mal, aquela coisa que se chama “ética protestante e espírito do capitalismo”. Olha só, não digo que o carioca deveria converter sua alma ao capitalismo. Eu nem me admitiria capitalista, aliás. No fundo, concordo com todos os pensadores que algum dia disseram que o Brasil poderia criar um modelo civilizacional tipicamente brasileiro. O que gostaria de dizer, é que o Brasil não se depara consigo próprio, e ao invés disso, há 500 anos tenta importar uma ética ocidental.

Tudo por aqui é lindo, tudo está bem,  nós somos a elite. Só que não… ou sim. Afinal, o Flamengo…

Fato: o carioca choca quando a grávida leva bala perdida. Mas fale a verdade, e me conte então sobre quando o carioca não vive de bala perdida.

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