Golpes com jeitinho brasileiro

Das disciplinas sobre o “golpe” ensinadas em várias universidades brasileiras, entre favoráveis e contrários o fato é que há uma verdadeira disputa semântica dessa palavrinha.

Contrários dizem que “não foi golpe” porque não houve intervenção armada e invasão da autonomia institucional; favoráveis dizem que “foi golpe” porque foi ilegítimo e “orquestrado” por um complô “midiático-parlamentar”.

Disso, algumas coisas são engraçadas. A primeira é que imprensa e parlamento são tão conpiratórios quanto, por ex., a universidade brasileira é “esquerdista e petista”. Isto é, ambos os juízos são falsos. É fato que muitos políticos são donos diretos ou indiretos de canais de TV e rádio, ou de que a antipatia pelo PT e Dilma historicamente confluem em boa parte da mídia e do parlamento que perdeu as benesses. Mas nem de longe esses “atores” reunem uma espécie de totalidade harmônica, uma identidade romântica, como se viessem de uma espécie de delírio paranóico de “tudo contra um”.

É o mesmo para quem acusa a universidade de ser “petista”. É óbvio que há diversos grupos de interesse dentro da universidade, mas nem de longe – e aqui é bom realçar: nem de longe mesmo! – ela serve como espécie de toldo a agrupar um mesmo interesse, menos ainda um interesse petista. Via de regra, ocorrem coisas bem diferentes.

Com os dois exemplos, quero dizer: a idéia da “totalidade de significado” ou do complô total, da máquina paranóica a reger os atos particulares não é muito eficiente, especialmente para diagnosticar nosso presente.

Disso, a palavra “golpe” perde força quando definida como um complô paranóico de todos contra um. Não foi isso que se passou, embora seja verdade que o PT tenha sido politicamente isolado. Mas a boa análise não deveria perpassar o “todo contra um”, e sim o “vários contra um”, cada qual com seus interesses próprios, mas agenciados durante certo tempo sob as questões comuns de derrubar o PT. Um pouco como o próprio PT, que nunca foi um partido originariamente fisiológico, em sua hora se agenciou  com os mesmos partidos fisiológicos para realizar seus objetivos.

Em outras palavras: é fácil dizer que “foi golpe” sem especificar os jogos e minúcias políticas que conduziram ao impeachment. Golpe é um conceito que diz tudo e não faz nada. Sem as devidas especificações, é uma bela ficção teórica.

Por outro lado, o próprio golpe militar de 1964 não foi chamado de golpe, e sim de “revolução” ou de “medida necessária” contra – vejam só – a “ameaça comunista” (novamente a idéia do “grande complô”), enquanto uma ditadura de Estado se consolidava com forte aparelho repressivo e corrupção varrida para debaixo do tapete. Aí sim: é sempre difícil dizer que todos possuem os mesmos interesses, mesmo sob veios ditatoriais. Mas é parte inerente dos veios ditatoriais e totalitários a eliminação do contraditório.

O golpe foi chamado de “revolução”? Isso é curioso, pois voltando um pouco mais atrás no passado, a independência do Brasil não foi, a bem dizer, uma ruptura absoluta com Portugal. E a abolição da escravatura não foi, a bem dizer, uma ruptura a simbolizar a humanização dos escravos ou das relações de trabalho. Enquanto a mesma nobreza que havia enriquecido com a escravidão agora os “libertava”, os imigrantes europeus chegavam logo ali, para ocupar o novo trabalho assalariado e realizar projetos de eugenia para “branquear” a população. Os negros deixaram de ser entregues à própria sorte para ficarem… entregues à própria sorte.

Em suma: talvez a palavra “golpe” seja um pouco forte demais para definir o impeachment, que a meu ver foi ilegítimo e abriu a caixa de pandora em que hoje vivemos. O Brasil não é para principiantes, tudo tem malícia e jeitinho, inclusive o “golpe”. Mas não é nem um pouco ilegítimo discutir o “golpe” (usei sempre aspas) na universidade. Inclusive é um péssimo sinal que falte discussão sobre isso nas próprias ruas.

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Um comentário sobre “Golpes com jeitinho brasileiro

  1. Em primeiro lugar, estava com saudades de voltar aqui! Sei que o ritmo de textos diminuiu, as redes sociais são umas pragas e a vida está difícil, mas ler os textos aqui sempre foi e continua sendo um prazer!!!

    É exatamente isso. A questão é: em um meio de esquerda, apenas esboce uma argumentação que questione que o ocorreu em 2016 não foi um “golpe” para ver o que acontece… Perdemos a capacidade de pensar, de questionar, regredimos a um estado de coisas que parece os anos 1960, 70 no máximo – império da máquina paranoica. Tenho alguns amigos que, às vezes, sinto que eles no fundo desejam uma ditadura, ou algo parecido, para se sentirem especiais, como que para justificar, talvez, algum vazio metafísico de que o tempo tem um sentido, uma causa, O Grande Movimento da História, algo que os faça se sentirem importantes e legitimados em seu secreto… stalinismo?

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