A mentira sistemática e o Brasil que pega fogo

Nesta semana vimos que o brasileiro é o cidadão que mais acredita que seu país está em declínio. Isso é muito maluco, pois mais do que dado estatístico, evoca os velhos temas do “Brasil, país do futuro” e do “complexo de vira-latas“. O novo dado parece dizer: somos não apenas uma sociedade com perspectivas pessimistas e negativas, mas atualizamos sempre o tema de que a negatividade está em nosso DNA (ou, como dizia Sérgio Buarque, negatividade presente em nosso coração, cordis, o que nos caracteriza como “homens cordiais”, os que colocam a esfera privada sempre em primeiro lugar diante da pública).

Nem parece mais que somos aquele país no qual o presidente dos EUA chamava o nosso de “o cara”, ou que decolávamos nas capas da Economist. Pelo contrário: nosso presidente tem recebido neonazistas e escreveu até cartas a neonazistas.

Os brasileiros, durante a semana, distribuímos os memes de que os medalhistas olímpicos conseguiram suas proezas devido ao único e próprio mérito, pois o governo ajudou em muito pouco ou nada.

A semana segue: a polícia prende entregadores de aplicativo que organizaram a queima simbólica da estátua de Borba Gato. Quase ao mesmo tempo, os servidores do CNPQ também são queimados (pois bancos de dados também queimam), e mais do que simbólico, o incêndio da Cinemateca Nacional é praticamente um crime anunciado. O ódio seletivo mostra bem quem nós somos: culpamos entregadores de aplicativo que queimam estátuas em sinal de protesto contra as más condições de trabalho, mas abanamos o rabo para quem ativamente se omite para que a ciência e a cultura brasileira queimem.

A semana avança. Bolsonaro disse em alto e bom tom, há anos, que entregaria provas sobre as fraudes eleitorais das urnas eletrônicas. Marcou uma live e, no momento esperado, apenas repetiu as mesmas besteiras. Nosso presidente parece, com isso, condensar em si próprio todas as desgraceiras descritas acima, pois sequer o representante da nação está interessado em falar algo efetivo, verdadeiro, sobre ela. É como um Nero tocando música enquanto Roma arde em chamas.

Mas – mais grave ainda, pois isso depõe contra nós e não contra ele – sequer o presidente é responsabilizado por isso.

Hannah Arendt dizia (em Verdade e Política) que o primeiro efeito principal da mentira como estratégia sistemática é a destruição da verdade e do sentido da vida cotidiana, entrevisto por um cinismo generalizado. É notar que as palavras perderam sua consistência diante da mentira que se generaliza, embora não se sustente.

Mas o segundo efeito é a própria carência de auto-sustentação da mentira. Escrevia ela:

A dificuldade está em que [os governos totalitarizantes e propagadores de mentira] têm de alterar constantemente as falsificações que oferecem como substitutos da história real; circunstâncias mutáveis requerem a substituição de um livro de história por outro, a substituição de páginas nas enciclopédias e livros de referência, o desaparecimento de certos nomes em benefício de outros desconhecidos ou pouco conhecidos antes. E ainda que esta instabilidade permanente não dê nenhuma indicação daquilo que a verdade poderá ser, é em si própria uma indicação, e uma poderosa indicação, do carácter mentiroso de todas as afirmações publicadas sobre o mundo factual. Observou-se com frequência que o resultado a longo prazo mais seguro da lavagem do cérebro é um género particular de cinismo – uma recusa absoluta de acreditar na verdade de qualquer coisa, por mais bem estabelecida que possa estar essa verdade. Por outras palavras, o resultado de uma substituição coerente e total de mentiras à verdade de facto não é as mentiras passarem a ser aceites como verdade, nem que a verdade seja difamada como mentira, mas que o sentido através do qual nos orientamos no mundo real – e a categoria da verdade relativamente à falsidade conta-se entre os recursos mentais para prosseguir esse objectivo – fique destruído.

Mas essa destruição do sentido não permanece, e a mentira é destruída por seus próprios ardis e pela referência objetiva que ela nunca consegue apagar:

E para essa dificuldade não existe remédio. É tão só o reverso da perturbante contingência de toda a realidade factual. Já que tudo o que é efectivamente produzido no domínio dos assuntos humanos teria podido acontecer de modo diferente, as possibilidades de mentir são ilimitadas, e esta ausência de limites vai no sentido da autodestruição. Só o mentiroso de ocasião achará possível ater-se a uma mentira particular com uma coerência inabalável; os que ajustam imagens e histórias a circunstâncias perpetuamente mutáveis sentir-se-ão eles próprios flutuando sobre o largo horizonte aberto da potencialidade, derivando de uma possibilidade para a seguinte, incapazes de se aterem a uma qualquer das suas próprias invenções. Longe de realizarem um substituto adequado da realidade e da factualidade, fizeram regressar os factos e os acontecimentos à potencialidade de que originalmente saíram. E o sinal mais seguro da factualidade dos factos e dos acontecimentos é precisamente esse obstinado estar lá, cuja contingência intrínseca desafia, afinal de contas, todas a tentativas de explicação definitiva. As imagens, pelo contrário, podem sempre ser explicadas e tornadas plausíveis – o que lhe dá a sua momentânea vantagem sobre a verdade de facto – mas não podem nunca rivalizar em estabilidade com o que é, simplesmente porque acontece que é assim e não de outro modo. E essa a razão por que a mentira coerente, metaforicamente falando, desmorona o solo sob os nossos pés sem fornecer outro sobre o qual seja possível apoiarmo-nos.

É curioso notar, mas esse texto de Hannah Arendt é um daqueles que descreve, ao menos em parte, como regimes semelhantes ao bolsonarismo são possíveis e como eles terminam. A única coisa triste é o custo: é como se essas repetições históricas permanecessem inevitáveis e sem terminar sem exigir seu preço.

2 comentários em “A mentira sistemática e o Brasil que pega fogo

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