O que resta da mata atlântica

Le Comte de Clarac - La Foret Vierge du Bresil 1822

A notícia é praticamente irrelevante: “o que resta da mata atlântica“. Mas ela carrega muita coisa consigo.

A primeira é uma questão de sensibilidade. Por exemplo, o Brasil inteiro apenas existe devido à Mata Atlântica. Mas o brasileiro pouco a conhece. Se a conhecesse, talvez a probabilidade de preservá-la seria maior. Mas quando a conhece, muitas vezes isso se faz sob outro tipo de relação – nosso velho aventureirismo extrativista.

No Rio de Janeiro, por exemplo, permanecem alguns monumentos de outrora. A exuberância do Parque da Tijuca praticamente toca alguns outros parques urbanos, como o Jardim Botânico do Rio, onde o Imperador almoçava enquanto contemplava a floresta.

Mas é curioso, pois muito do resto do Rio não tem maior contato com a floresta senão apontando o dedo. Beleza para inglês ver. Em muitas regiões do RJ, as árvores frondosas e a identidade da Mata Atlântica são simples estorvo.

A mesma coisa se repete em inúmeros outros estados. No link acima, é possível ver a mata remanescente. No PR e SC, ela parece um pouquinho mais concentrada. Talvez um pouco mais entre o norte do PR e sudeste de SP.

Predominam os espaços pontilhados. É surpreendente ver, em tantos lugares, a simples ausência da mata. O habitante simplesmente nasce e cresce sem saber que, ali, havia tanta exuberância.

Um exemplo bastante notável é o Parque da Cidade, em Aracaju. Embora abandonado, ele concentra sobre si muito do que era a região em tempos passados. Mas a grande maioria dos sergipanos não tem tal experiência. É um verdadeiro choque visitar o parque, como se cortasse o padrão do restante da cidade.

É de se imaginar o que seria nosso país se valorizasse seus verdadeiros tesouros. A Mata Atlântica é um dos principais. Mas parecemos seguir em outra direção.

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A escalada do ódio e as redes sociais

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Dias atrás um amigo comentou que as redes sociais não configuram propriamente espaços públicos, e que o FB serviria apenas para agregar algumas forças, sem possibilidade de uma mudança democrática efetiva. Além disso, os lugares costumeiros da publicidade estariam esvaziados, com as pessoas jogando suas pautas nesses espaçozinhos privados, cuja voz ativa seria enfraquecida.

Pensei bastante a respeito, e isso reativou velhos assuntos.

Acompanho a internet desde as jurássicas “personal web pages” e “listas de discussão”, com toda a evolução aos blogs, ao orkut, ao technorati, ao twitter e depois às “redes sociais”. Acompanhei a evolução do html ao RSS e agora a esse fechamento da Rede no Facebook.

Disso tudo, tempos atrás, quando ainda blogava, tive um breve debate com uma blogueira ainda famosa, que ficou ainda mais notória com as redes sociais. Eu argumentava que os blogs, mais antigos, constituíam uma teia aberta, descentralizada, mediada pelo link. Certamente havia pontos focais, caracterizados por blogs com nicho forte ou autores com papel de autoridade. Mas a “dinâmica” da coisa operava de modo que pequenos blogs poderiam chacoalhar políticas locais ou até nacionais. Blogueiros chegaram a ser perseguidos ou mortos. Inclusive Aaron Swartz, um dos inventores do RSS, acabou se suicidando devido a uma grande pressão institucional, após liberar em acesso público boa parte do acervo do JSTOR. Nomes como Bradley Manning e Assange também eram notórios por obrigar certa publicização “horizontal”, por assim dizer, num mundo ainda bastante verticalizado. E me refiro aos idos de 2010-2012…

Nesse sentido, eu enxergava o Facebook e o Twitter, ou mais precisamente a troca do link pelo aplicativo e pelo “follow”, como fechamentos, frente à abertura que os blogs representavam. Eu dizia que a abertura ao espaço público que se esboçava nos blogs, desde as páginas pessoais, corria o risco de se fechar na privacidade dos interesses passionais, egologismos, autoridades e na fragmentação em nichos incomunicáveis.

Contrariamente, a blogueira dizia que o FB e o twitter potencializavam os blogs, apenas dependendo do modo de usar. A tese utilizada por ela é a de que a tecnologia é neutra: “se você” usar para o bem, será bom. Um machado pode matar ou cortar lenha, a energia nuclear pode matar ou acender a luz…

Mas há algo mais… E aliás, toda a tradição que se consolida nos estudos CTS (Ciência, Tecnologia, Sociedade) diz bem mais coisa do que a mera tese “a tecnologia serve para o bem ou o mal, depende como você usa”.

Hoje o FB emplacou de vez e a Rede nunca esteve tão privada. É certo que o FB mobilizou massas, como na Primavera Árabe, ou redes como a do BlackBerry chegaram a chacoalhar a Inglaterra.

Mas, correlativamente, muita coisa ocorreu. Já se começa a pensar sobre como a intervenção em redes sociais auxiliou na vitória de Trump, inclusive sob influência russa. Ou como sites formadores de opinião nas redes sociais emergem… da fumaça (ver isso também). Ora, isso já era possível na época dos blogs. Mas nas redes sociais parece que algo mudou, devido ao próprio modo como elas se constituem e independente da escolha sobre seu “uso”.

Se os websites e blogs configuravam uma primeira camada de acesso ao “virtual”, as redes sociais configuram “acessos sobre acessos”, elas filtram e também oferecem previamente o que se dará a pensar. Quando o primeiro ato de navegação se refere a uma página pré-moldada, e não a páginas pré-escolhidas, toda a ação subsequente muda.

Isso é certamente diferente dos blogs.

Outro fator importante é a própria, digamos, “dinâmica das excitações” envolvida. Navegar de link a link, “escolhendo” o próprio rumo, é bem diferente desse fechamento em nicho ocasionado pelo FB. Leio e acesso o que alguns (não todos) dos outros me oferecem, mediados por algoritmos que buscam capturar, pelo padrão de minha navegação, o meu gosto. Se estou predisposto a determinadas idéias, elas me serão oferecidas diretamente, em manchetes rápidas e sem maior argumentação, junto a comentários afetados de pessoas que muitas vezes sou simpático a concordar, mesmo que – e isso é a parte importante – se eu examinasse de fato suas idéias, eu não concordaria (vale novamente esse link).

O mar aberto dos links oferecia algo diferente. Certamente alguém tende a clicar nos assuntos que tende a concordar, ou ao menos pretende saber. Mas entre a busca e análise de um texto (blogs, webpages) ou a oferta sem análise de uma simples manchete (twitter, facebook), a tecnologia mental empregada é inteiramente diferente. Somos “excitados” de forma bem diferente, e agimos diferentemente conforme tais “excitações”.

Além disso, reforça essa economia de “excitações” a diferença entre o “post” e o “textão”: os blogs e as webpages possuíam linguagem sintética, mas também abertura para argumentar. Agora os “memes” são predominantemente frases curtas, sacadinhas, excitações momentâneas, para nos “excitar” de um modo e depois canalizar outras excitações. O “textão” recebeu quase imediatamente conotação negativa: ler é ruim, não tenho tempo e nem disposição. Se você pode dizer tudo abreviadamente, pra quê ler textão?

Disso tudo, é evidente que as redes também engajam afeições, para além de cognições. Aliás, – e aqui chego a meu ponto – pode não ser por acaso que a escalada da violência e do ódio nos últimos anos conviva com a popularização e a massificação das redes sociais e o fechamento das navegações.

Os nichos fechados das redes sociais transformaram cada vez mais a internet na réplica do mundo “lá fora”, ao invés de virtualidades de tecnologias como a do hiperlink serem exportadas para fora. Exemplos disso são as políticas de direitos autorais, a unificação de cartões identitários ou a interface entre geolocalização e aplicativos de consumo, multiplicando possibilidades de “captura” e “individualização”, por assim dizer. Ainda por assim dizer, não se tem propriamente uma multiplicação das mobilidades e liberdades individuais, mas sim uma multiplicação do monitoramento das individualidades e mobilidades. O esquadrinhamento dos indivíduos em espaços fechados dá lugar à individualização em espaços abertos, conforme muitos autores já notaram. Em suma: quando a internet se popularizou, muitos enxergaram no hiperlink e no hipertexto a possibilidade de que o tipo de relação engajado por eles poderia ser exportado ao “mundo real”. Ocorreu algo um pouco diferente…

Mas há mais: as redes sociais, trazendo “para o virtual” as relações “reais”, inevitavelmente devolvem para “fora” o que ali dentro se condensou. Não é difícil provar o quanto as pessoas comentam e se posicionam favoravelmente a muito do que “encontram” nas redes sociais. Crenças prévias, trazidas de “fora”, são revestidas de novas camadas, transfiguradas em temas adequados à velha crença, produzindo por sua vez novas relações “reais”. A partir dessa dinâmica, sou de fato formado e carrego de volta ao “mundo lá fora” minha formação. Isso quer dizer que, se as redes trazem para “dentro” da internet o que havia lá fora, o que se condensou ali “dentro” também será, doravante, levado para “fora”. A Rede me auxilia a encontrar um produto do mesmo modo que me orienta a encontrar grupos de ódio ou eventualmente organizações mais complexas. Acredito no tema do “bandido bom é bandido morto?” Logo algum deputado que prega isso, ou grupos de ódio do facebook, estarão no meu horizonte de links, sem que eu os precise procurar. Os inesperados casos de brasileiros que, usando redes sociais, foram parar em grupos paramilitares na Ucrânia ou no terrorismo islâmico são apenas alguns exemplos.  Predisposições “reais” encontram algoritmos “virtuais”, que orientam tais predisposições em novas potências.

Agora, levando em conta o que dizem os “estudos CTS”: as redes sociais não são o “abstrato” versus o “concreto”, não se tem meramente o “virtual” contra o “real”. O que acima me referi por “dentro” e “fora” é inexato. O que há é um mecanismo no qual, “dentro” e “fora” induzem a dinâmicas inesperadas se considerarmos tecnologias mais antigas, como as dos blogs.

Seria preciso descrever o funcionamento desses investimentos… A meu ver, as coisas ocorrem quase como na época em que Freud criou a noção de “pulsão/impulso/trieb de morte”: como explicar a guerra, e principalmente a “atmosfera” que conduz a ela? Freud apelou à construção de um conceito reportado à condição humana, e mostrou que há investimentos não apenas orientados por Eros.

O que me parece relevante nisso tudo é que vivenciamos claramente uma nova escalada de ódio e violência. A considerar os ânimos, tudo funciona para nos encaminhar a novas e terríveis guerras, um pouco como Freud se estarrecia diante da matança da Primeira Guerra e via nascer as nuvens da Segunda. Voltando à nossa época, não preciso citar o discurso de posse de Trump. Nas expressões cotidianas, é nítido o ódio nas redes sociais e em diversas manifestações, inclusive artísticas. Há pouco um artista israelense precisou intervir contra as pessoas que fazem performances no Memorial do Holocausto. No Brasil, os casos de violência banal e motivados por estereótipos políticos começam a aumentar…

As pessoas não tiram tudo isso das próprias cabeças, e o alarme não estava tão vermelho assim 10 anos atrás.

Quando se caminhava de dia

https://i0.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/538687_427702477276184_1930413042_n.jpgDiversos Quero-quero se abrigam como podem em Araguaina, TO

Certa vez perguntei à minha avó se ela preferia os “tempos antigos” ou os atuais. Ela respondeu “os tempos antigos”. Por quê?

“Porque antigamente tinha de tudo em abundância, bastava você soltar o anzol para fora da janela e já pegava um peixe grande para o almoço. Hoje tudo exige algo de mais para que você consiga qualquer coisa.”

É incrível: hoje, “tudo exige algo de mais”. Minha avó achava melhores os “tempos antigos” em sentido bastante semelhante ao qual, 70 anos antes dela, Henry David Thoreau ficava estarrecido com certa relação que se configurava entre o indivíduo e o mundo.

Thoreau se surpreendia com o fato de que, se a América havia conquistado uma verdadeira res publica e a possibilidade de agir individualmente pela democracia representativa, a própria ação individual não foi, de fato, problematizada. Para além da res publica, ninguém nunca tocava no assunto da res privata, considerada por ele um gigantesco “ouro” inexplorado, muito mais além do “ouro” do Oeste e d’outros lugares.

Ao invés de problematizada, a capacidade de agir era inteiramente colonizada pela “maioria”, entrevista nos mundos das notícias e dos negócios. Ele via os vizinhos de Concord sentados, jornal na mão, corpos dormentes e conectados com acontecimentos longínquos durante várias horas do dia, à espera da próxima ida aos Correios (ou do fuxico do vizinho, com “cones no ouvido”) para chancelar tempos inteiros de vida distanciados daquilo que é mais precioso à própria vida: a capacidade de agir.

Thoreau também considerava estranho que alguém a dedicar várias horas por dia para caminhar a floresta (ele próprio) poderia ser chamado de vagabundo, enquanto quem gastava a vida para cortar a floresta era visto como homem de bem e trabalhador. Gasta-se a vida para ganhar a vida, dizia. Ou ainda: do mesmo modo como no aguardo das notícias, no mundo dos negócios o indivíduo inteiro se compromete em ações que não são verdadeiramente individuais, mas que poderiam ser feitas por qualquer um. Numa de suas grandes frases de efeito, Thoreau era fulminante: “Quem mata o tempo fere a Eternidade”.

“Tudo exige algo de mais”, disse minha avó. Note-se, em Thoreau, como qualquer capacidade de agir era protelada por alguma espécie de mediação: o voto medeia minha relação com as decisões políticas (que serão de uma “maioria”, isto é, todos e ninguém), o dinheiro me afasta das coisas, os jornais e o trabalho afastam o indivíduo de suas ações.

Dessa constatação resultam os inúmeros paradoxos que Thoreau adorava explorar: por exemplo, o fato de que um Estado não resiste ao poder de um único indivíduo (!). Isso porque são as ações individuais de cada um, uma a uma, aquilo que, na ponta da lança, constituirão o que se configura apenas a posteriori como um Estado. O Estado não é algo que se impõe, mas aquilo que tua ação reitera… A ponto de Thoreau ser preso por acreditar que um único proprietário de terras em Concord que não escravizasse poderia libertar todos os escravos da América. Em suma: o Estado não passaria de uma ficção… Ele se define pelo que faço aqui e agora. Por isso – novamente paradoxal – “o melhor governo é o que menos governa”, dizia Thoreau.

Eis a essência daquele enunciado privado de minha avó: antigamente não se acumulavam tantas mediações… Certamente o trabalho deveria ser duro (algo que certamente seria objeto de riso por Thoreau), mas, mesmo assim, era possível pegar gratuitamente um peixe que hoje não custa menos do que 90 reais (sem contar que hoje, no Brasil, também é preciso levar o vendedor da peixaria na conversa, mediação mais além das mediações).

Em suma: não se colocavam tantas etapas intermediárias para que o indivíduo se relacione com o mundo (e para começar a pensar em etapas intermediárias basta pensar na caixa de correio com as contas do fim do mês).

E hoje percebo o seguinte: estamos em abril e a temperatura não baixa de 32ºC no aplicativo, gerando diariamente sensação térmica à beira dos 37-45ºC. O único ganho é saber que, à noite, em meio às ameaças de Zika e a tarja vermelha do consumo de luz, a temperatura da madrugada atinge a casa dos 20 e poucos graus.

Não sei bem se o leitor entende o que isso significa, mas eu o convidaria a olhar um pouco ao redor e se perguntar: durante quantas horas do dia você tem contato efetivo com o mundo efetivo ao redor, sem maiores mediações?

Digo isso porque deve ser familiar a você o fato de que durante várias horas do dia é praticamente impossível simplesmente viver ao ar livre, estar na rua, na calçada, indo para qualquer lugar, sem alguma mediação para suportar o clima – ventilador, ar condicionado, climatizador… Valendo repetir: estamos em abril e, sob chuva escassa, a temperatura raramente baixa dos 32ºC nas horas mais ativas do dia.

O Brasil a cada dia bate recordes de consumo energético (e esse link é super-antigo). Ignoramos sistematicamente que influenciamos o clima. Esquecemos o velho tema de que a vegetação tem relação direta com o microclima de uma região, do mesmo modo que fingimos ignorar que o uso do ar condicionado contribui com o aumento desse mesmo microclima. A cada dia reiteramos o inconcebível.

Seguimos uma velha tradição colonial de desvincular nosso próprio modo de ser com o clima. Ter um ar condicionado não é questão de preocupação, e sim de ostentação. O esnobismo histórico da europeização das vestes brasileiras, ironizado por Gilberto Freyre (“sobrecasaca preta, botinas pretas, cartolas pretas, carruagens pretas, quase um luto fechado. Essa europeização de nossa paisagem, de preto e cinzento, começou com Dom João e culminou com Pedro II”), agora se transformou. A república das hemorroidas agora se transformou na república do ar condicionado!

É de pensar no recado que daremos a nossos netos (caso tenhamos algum no futuro): “Sim, quando eu era jovem vivi temperaturas abaixo dos 30ºC. Era possivel inclusive caminhar nas ruas”.

A mudança das estações

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O fotógrafo Zig Koch, especializado em natureza, fez hoje um comentário que é um verdadeiro “libelo” à História do Esquecimento. Ou melhor: o comentário é uma lembrança, mas a lembrança isolada apenas coroa um gigantesco esquecimento, não dele mas nosso. Cito as belas palavras:

As estações do ano marcam a passagem do tempo. São mudanças sutis que nos tocam como as ondas do mar no costão rochoso. Aos poucos vão mudando sua forma até não serem mais reconhecidas, mas ainda sim são as mesmas.

Ele compartilha a foto acima, que é um lindíssimo registro. Mas por quê seria um libelo à História do Esquecimento?

Ontem a previsão do tempo do Jornal Nacional bancou mais um desses episódios incríveis do jornalismo brasileiro (também pertencentes ao Esquecimento): o Jornal nos ensinou que o Outono é a estação de transição entre o Verão e o Inverno, e por isso ocorrem diversas mudanças no clima (!!!!!!)

As estações são cada vez mais esquecidas pelos brasileiros. Isso por um movimento duplo: ano a ano o inverno perde suas características mais históricas (do frio à intercalação entre a chuva e a seca) e, praticamente ao mesmo tempo, o brasileiro vive o país sob uma distância imensa do lugar “natural” que o Brasil sempre foi.

Como se o brasileiro pudesse viver exatamente do mesmo modo em qualquer lugar.

Isso é surpreendente se compararmos a fala isolada de Zig Koch com as comunidades fotográficas mundo afora. Sites como o Flickr e o 500px abundam motivos das estações. Mas só fora do Brasil, como se aqui não existissem estações.

***

Há vários modos de provar nosso esquecimento. O mais fácil e “pra já”, nessa época em que a imediaticidade acompanha o esquecimento, é a nova novela da Globo, sobre o rio São Francisco. Basta comparar as novas novelas da Globo, de época, com as antigas novelas de época, e está tudo lá:

– Antigamente muitas novelas se ambientavam em adaptações de romances ou relatos históricos; hoje elas são “obras coletivas” cujo único ímpeto é perdurar na audiência, com final ao gosto do freguês (esquecemos nossa vinculação à História, à Literatura, aos lugares…)

– N’0utros tempos as adaptações se ambientavam verdadeiramente aos ambientes: casas antigas, pessoas do lugar, lugares reais ou lugares imaginários mas sob fácil identificação geográfica; hoje, a novela parece acontecer num lugar etéreo, cuja única demarcação é o rio São Francisco, de onde brotam, como que de uma escuridão, alguns temas que reconhecemos ser nordestinos, mas um tanto quanto de longe (não nos reconhecemos nos sujeitos que vivem lá, naqueles lugares, em vista de um reconhecimento mais fácil do que nos é mais próximo)

– Isso diz respeito à linguagem da novela: uma trilha sonora que parece uma adaptação de quinta categoria da trilha de Sob o Céu que nos Protege; longas sequências em tom de fantasia, como que numa mistura entre Tim Burton e sabe-se lá o quê, para dar conta do misticismo do nordeste. Ontem foi impagável o sonho da mulher do coronel com menções impagáveis a O Exorcista. Disso tudo, a riquíssima música nordestina e seu misticismo acirrado, onde foram parar? (novamente: em nome de uma negação de características locais, projetamos um mundo de imagens remetidas a sonoridades e imagens mais próximas, mas apenas imagens!)

– O palavreado, os costumes, as roupas, tentam imitar uma época que se foi. Tirando alguns momentos quase fotográficos, o drama murcha e, de repente, percebemos: são apenas atores da zona sul do Rio, com corpo escultural, tentando esconder o sotaque chiado.

– A novela, enfim, contém muito pouco de nordeste e de Rio São Francisco, para além de um imaginário que parece mais o dos visitantes do Xingó do que dos moradores locais. A gente, a música, a cultura, aparecem pouco. O lugar é via de regra cenográfico, de amplas paisagens, algo a lembrar apenas que estamos num nordeste longínquo, idílico e irreal. Até o suor é falso. Algo muito longe de tantas séries do passado, onde os trajes eram sujos, o sotaque menos forçados e os lugares menos cenográficos.

Para fechar o exemplo: se a TV é um meio, uma mídia, é como dizer que antes ela tentava nos mediar a representação de lugares distantes. Mas hoje ela vincula, sem tentativa mas sob muita produção, lugares irreais.

Mas, conforme dito, a TV é apenas um exemplo a mais para nos mostrar o quanto nos distanciamos do Brasil.

Políticas do clima

 

São 22h e olho o termômetro: 25 graus. Chegou a época das quedas de luz, da dengue e da falta de abastecimento de água. A máfia dos caminhões-pipa lucrará mais do que nunca. A conta de luz terá cobranças indevidas. Vários preços aumentarão. Enfim, é verão.

Dizem que tudo isso se deve ao aquecimento global. Outros dizem que as temperaturas nem aumentam tanto assim. Mas parece que ambos os lados do debate não enxergam algo: o projeto civilizatório brasileiro (se há algum) tem criado cidades muito quentes.

Ou então, basta abrir a janela, olhar para a rua: as árvores mais altas já são velhas, não raramente enforcadas por concreto colocado ali não faz muito tempo. As novas ruas e calçadas são estreitas. Moradias e estabelecimentos são, via de regra, concretados. Cimento e asfalto por todo lugar. E, para compensar o calor, um mundaréu de aparelhos de ar condicionado (a contribuir com o fenômeno das ilhas de calor).

Já chamaram o Brasil de paraíso, lugar de clima tropical. Mas os brasileiros que aqui viveram sempre tiveram vento, árvores e água em abundância. Mesmo o matuto colonizador criou estratégias, mais ou menos voluntárias, para enfrentar o clima. Mesmo casa sem eira nem beira tem janela grande e teto alto, para não contar as varandas e outros ítens.

De duas ou três décadas para cá, mas sobretudo atualmente, algo mudou. O brasileiro perdeu certa sensibilidade. O corpo sua, a rua é insalubre, os dedos se prendem ao smartphone e ao celular enquanto a cabeça pensa em outras situações ou lugares.

O brasileiro cria a galope, para si mesmo, um ambiente bastante hostil para habitar.

O carro e a sensibilidade

https://i2.wp.com/i224.photobucket.com/albums/dd139/Gustavo_Timm/Primeirosbondeseltricos1-modificado.jpgÉ muito curioso: o carro faz parte da vida do brasileiro, e muito mais do que ele poderia pensar. E sobre isso não me refiro aos jargões estilo “carro, paixão nacional”. Há algo muito mais fundamental (não achei palavra melhor) do que isso, e diz respeito à própria relação do brasileiro consigo, com seu ambiente e com os demais.

O carro diz respeito à vivência do brasileiro em relação às suas sensações sensações mais imediatas. A limpeza ou a sujeira de uma cidade, a violência, a urbanização, o transporte público, as convivências, os valores, tudo diz respeito ao carro, ou ao desejo de ter um.

Dias atrás um cara perguntou ao outro na van, “Virou patrão, heim?”. O outro respondeu: “Se virasse patrão, não estaria na van, mas sim em um carro”.

O carro diz respeito às sensações: os vidros fechados, a eventual música ligada, a velocidade prometida, a imaginação da publicidade, tudo se correlaciona diretamente com a existência e continuidade dos lugares ermos, as calçadas estreitas, os muros altos, a iluminação carente, os índices de segurança… As pessoas que você vê aqui e agora na rua, quem você vê, quem não vê e quem nunca verá.

Certamente não há vínculo a priori algum entre o carro e cada um dos pontos acima. Mas com esses pontos o carro compõe uma série de predisposições que se reiteram continuamente e deixam muita coisa, como se diz popularmente, “permanecer onde está”.

Não sei bem se o brasileiro é inteiramente capaz de “perceber” isso. Percepção exige sensação… e para isso seria preciso um deslocamento de sua relação com o carro.

Nosso calor de cada dia

Todo mundo reclamando do calor. Ninguém se perguntando sobre como se engendra tanto calor.

A frase ficou estranha, certo? O calor é um fenômeno climático, independente das individualidades, da ação humana. Ligou o ar condicionado e o calor passa.

Com isso, ignoramos duas outras questões:

1) O calor é efeito da ação humana?

Muita gente dirá que vivemos uma época chamada antropoceno, isto é, época na qual o homem tem interferência direta em assuntos como o ambiente e o clima.

Claro, basta olhar o Google Maps: imagine-se um território de milhares de quilômetros quadrados, onde antes era floresta, revestido hoje por monocultura. Todo o regime de trocas atmosféricas foi abalado.

Ou senão, há quem diga que o clima ainda independe da ação humana. Chegamos então na pergunta 2) E a ação humana, é irrelevante frente ao clima?

Disso tudo, basta o leitor olhar para fora de sua janela: rua asfaltada, calçadas estreitas, muros altos, poucas árvores, lajes, lajes e mais lajes; ou aquela paisagem misturando laje e concreto, com árvores isoladas e muitos carros dominando o local; ou ainda aquela ilha de concreto e laje chamada “cidade”, circundada por um gigantesco espelho de monoculturas do agronegócio… ou tudo junto.

Aí o ventilador e o ar condicionado pipocam para todo lado. Todo o sistema (ar condicionado, concreto, poluição, carros…) cria um fenômeno chamado “ilha de calor“. Regiões como a do centro do Rio de Janeiro e São Paulo ficam até 10º mais quentes devido ao “sistema”. Mais calor, mais ar, mais calor…

 

A contemplação das estações

A New Season Approaches by Debbie Tubridy (DebbieTubridy) on 500px.com
A New Season Approaches by Debbie Tubridy

Autumn Bridge.... by Martin Kavanagh (murtkav) on 500px.com
Autumn Bridge…. by Martin Kavanagh

Circular em comunidades de fotografia traz costumes ainda existentes em alguns países: contemplar a mudança das estações.

O brasileiro tem esquecido disso, por pelo menos dois motivos: Em primeiro lugar, todo caipira, caiçara, nativo etc. mantinha relações com sua terra e a passagem das estações. Já o brasileiro urbano perdeu o vínculo com sua terra (porque a esmagadora maioria se tornou urbana; porque o senso de 2010 aponta inclusive “fuga” de trabalhadores para os centros urbanos; porque o avanço do agronegócio trouxe concentração de terras; porque a agricultura familiar não tem o mesmo estímulo do agronegócio).

O brasileiro se afastou tanto de sua terra, que sua relação com ela se resume ao slogan da propaganda de cerveja: “ah, é verão”. Verão = praia = bom (mesmo que quase nunca se vá à praia, e quando se vai há tanta gente que seria melhor não ter ido). E o contrário também: inverno = chuva = ruim. Como se todo o resto não fosse vida, como se enfim não vivêssemos todo o resto, mesmo que nos recusemos a viver parte considerável de nosso mundo e vidas.

Em segundo lugar, mudamos de tal modo nosso país que às vezes é bastante difícil perceber a mudança do tempo. Nosso esforço de transformar o mundo numa laje segue de vento em popa. E o vento ficou bastante quente por sinal. Exige a silenciosa (ou nem tanto) política do ar condicionado.

Fim do mundo

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Toda essa onda de fim do mundo me faz lembrar de um professor que, ensinando Freud e freudianos, dizia que nossa época é “adolescente” e o adolescente se define pelo acting out (grosseiramente: o agir irrefletido e inconsequente, como se a ação liberasse certa dose de ansiedade na qual, agindo, o adolescente evitaria enxergar seus próprios problemas, mesmo que de algum modo saiba que algo se passa).

Isso é interessante, pois sempre nossa civilização esperou algum ou vários tipos de fins de mundo. A diferença é que agora nossas ações realmente concorrem para que o mundo acabe, mas enquanto isso parecemos utilizar o mecanismo do acting out: agimos, e agindo evitamos algo que não queremos ver, mesmo que o vejamos por outras vias (o discurso politicamente correto do ambientalismo, por exemplo, que numa sociedade de ações só pertence – quando muito – à reação).

Transformar o mundo numa laje

https://i0.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/538687_427702477276184_1930413042_n.jpgDiversos Quero-quero se abrigam como podem em Araguaina, TO

Algum estudioso bem poderia dar conta da questão: de onde vem a preferência do brasileiro pela laje, a ponto de lajear seu universo inteiro, remediando tudo depois com o ar condicionado?

É incrível notarmos a multiplicação de ilhas de calor onde, muitos anos atrás, saudosistas exaltavam valores como o frescor tropical, a exuberância da vida e outras coisas mais. Em lugares como o Rio de Janeiro e São Paulo, a temperatura pode variar 10º apenas devido ao padrão de concreto!

E dá-lhe ar condicionado.

É curioso ver o padrão repetido em muitos lugares no Brasil, bastando viajar um pouco: plantações sem fim, inúmeras desmatações, cedem lugar às vezes a pequenas ilhas de concreto e asfalto – diga-se “cidades” -, com ruas estreitas e baixas, calçadas minúsculas, muros altos e outros concretos à escolha. Sem exigências urbanísticas maiores (da prefeitura ou qualquer lugar), as construções desordenadas encontram seu próprio padrão: asfalto e concreto.

Tudo se passa como se a relação do brasileiro com seu mundo imediato, aquele que toca os sentidos, fosse inteiramente falseada. Como se nossa imaginação nos conduzisse a um mundo que não é bem esse, de asfalto e laje, enquanto produzimos todo dia mais asfalto e mais laje.

Ao redor o ônibus cheio, o calor insuportável, o trânsito ruim, o sol ruim na cara, a calçada estreita e a sala lacrada com o ar condicionado. Nisso tudo, para onde vão as cabeças?

Novamente: não seria inútil perguntar de onde vem esse hábito do brasileiro lajear seu mundo. Um mundo tropical, sempre valorizado pela exuberância, tornando-se pouco a pouco um lugar difícil até para a sombra dos pássaros.

Alguma pressa oculta para a laje derradeira? 🙂

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