A crise atinge a juventude

Nos últimos 15 anos, tenho viajado muito pelo Brasil e visto muitas coisas. Uma delas é que, por milhares de quilômetros, tornou-se muito mais difícil ver casas de pau a pique, de compensado ou de papelão, bem como favelas debaixo de pontes.

As favelas mesmas (e para dizer isso é Rio, Salvador e Sampa que tenho em mente) se tornaram conglomerados de tijolos, às vezes com muitos andares. E cidades que antes eram barro e madeira, agora configuram residências de tijolo, afastando inclusive aquela impressão de favela, antes tão presente em tantos lugares (embora, para perceber isso, era preciso andar, e muito, nesse brasilzão, e com uma percepção que não é a do velho costume de abstrair dos bem nascidos).

Isso significa que a vida do brasileiro melhorou. Muita gente voltou do sudeste maravilha para regiões anteriormente consideradas “pobres”.

Mas é impressionante ler essa notícia, sobre o fato de que desde 2014, o número de engenheiros demitidos tem aumentado frente ao número de contratados.

Isso significa muitas coisas. Uma delas é de que a crise chegou, de fato, num arco que vai desde a formação até a contratação (na educação ela já estava faz tempo). De algum modo, é o verdadeiro esgotamento daquela ideologia das empreiteiras, que já existia desde a Ditadura e que o PT soube aproveitar para si numa espécie de “neodesenvolvimentismo tupiniquim”.

Essa ideologia de empreiteiras funcionou de muitas formas, desde aquela que todo dia vemos na TV via Lava Jato, até aquela das construtoras privadas que, nos mesmos últimos 20 anos, aprenderam a construir muita coisa com pouco dinheiro e qualidade. Engenheiros foram necessários para ambas as opções. Vimos nos últimos anos pontes e viadutos caírem e estádios faraônicos inundarem ou racharem. Vimos também conjuntos inteiros – muitos deles financiados com o “Minha Casa, Minha Vida” – ruírem, embora sob menos publicidade.

Muita gente ficou muito rica ao construir esse lugar que hoje você aluga ou paga prestação, embora tenha que dar conta também dos defeitos inesperados que apareceram depois de alguns anos.

Ver agora engenheiros não contratados e precisando de outros bicos é algo muito simbólico. Significa que o Brasil voltou a ser o que era: não mais um país de empreiteiras gastando alto por altos conluios e propinas, mas um país de empreiteiras gastando baixo por altos conluios e propinas. Adivinhe quem está pagando o pato pela mudança?

Ao menos, um historiador do futuro poderá dizer que tirar o PT custou verdadeiramente caro, pois fez até o blocão dos políticos perpétuos  (aquele, do “grande acordo nacional“) viver de vacas menos gordas (magras, nunca).

Tenho visto, por exemplo no Nordeste, que o pessoal começou a perceber também que a crise chegou por lá. Preciso dizer que o Sul é absolutamente burro em julgar o Nordeste sem conhecer. Nos últimos anos, houve por lá uma verdadeira revolução nos modos de vida. O incauto do Sudeste nem imagina que muitas cidades do Nordeste, antes sob aquela aparência de abandono, hoje dão de 7 x 1 em muitas, mas muitas cidades do Sudeste, em termos de urbanização, esgoto, postes de luz etc.. Mas a situação começa a não ser mais a mesma. Questões mínimas de consumo, como ter geladeira e fogão ou trocar de carro, começam a ficar mais difíceis.

Outro significado muito importante é que a dita “crise” já atinge novamente a juventude. Isso significa que estamos gestando uma verdadeira bomba social. Muita gente melhorou de vida. E não vai querer piorar. As pessoas estão acessando a universidade, e o dito “mercado” não vai mais precisar delas (inclusive, ninguém informou essas pessoas que 90% da educação ampliada nos últimos 15 anos é ridiculamente péssima).

Não à toa, a dita “reforma” pretende precarizar as relações de acesso ao trabalho. É bastante lógico: flexibilizar as contratações de uma população que melhorou de vida, mas piorou na formação, embora o principal é que, bem formada ou não, não é mais necessária para manter o blocão (e vai demorar um bocado para perceber, por incrível que pareça).

Algo muito preocupante está se desenhando. Um pouco como uma volta aos anos 90, só que com mais pessoas, maior circulação de bens e mais patrimônio construído.

Diziam que “o gigante acordou”. O fato é que não viram ainda o tamanho do tombo.

Das antropologias cariocas

Você está almoçando. Termina e, ensaiando o primeiro sossego, repousa o garfo no prato. Imediatamente e até de um jeito meio agressivo, o garçom vem e toma o prato de sua mão. Quase no seco.

Depois da vez número 999875 em que isso ocorreu, eu parei o garçom e disse:

– Amigo, você percebe o quanto é chato que o garçom venha e retire o prato da mão do cliente tão logo o cliente pare de comer, sem nem conseguir respirar?

Primeira reação: passar por desentendido. Segunda: não dar bola. Terceira: começar a engrossar a coisa.

Entre a primeira e a segunda reação, dou o pulo do gato e emendo:

– Amigo, olha só: para além do Rio, no mundo inteiro o garçom não vem e tira o prato da mão do cliente tão logo ele pare de comer. Imagine você almoçando e, logo que para, vem o garçom e tira o prato da tua mão. O que você vai pensar?

O garçom hesita um pouco e… esboça um sorriso, daqueles bem sem-vergonhas, do tipo “me pegou no flagra, cumpadi!”. Continuo:

– Amigo, quando você for tirar o prato de alguém dessa forma, chegue e diga algo como “olha só, estou tirando agora seu prato mas é para liberar a mesa e deixar você à vontade, viu? Pode ficar tranquilo”.

Aliás, aprendi a técnica com as garçonetes alagoanas que atendem ali perto (num dos melhores restaurantes preço-benefício que já fui, aliás).

O garçom dá uma pensada, olha para mim, pega o prato e… agradece.

E eu passo por mais uma dessas. Sorte que, pelo menos nessa saída de casa, não aconteceu mais nada (já não falarei pelo que ocorreu de manhã, ou ontem, ou…)

As nuvens negras do fascismo de 2018

Estou muito impressionado com o pessoal de minha timeline, e da vida em geral, que entra na bravata geral e anuncia que vai votar no Bolsonaro. Impressionado a ponto de temer que ocorra por aqui em 2018 algo semelhante à vitória de Trump, nos EUA.

Concordo que existe ainda um bom número de gente da “esquerda ligada à restituição do PT” (que inclusive achou legal ver Gleisi Hoffmann eleita na presidência do partido, mostrando que o partido não viu nadinha da bordoada que recebeu nas últimas eleições), desempenhando um grande papel na criação dessa monstruosidade.

Bolsonaro é um político inócuo, pífio, de partido nanico e sem qualquer expressividade.

Mas ela – esquerda ligada ao PT -, pela cegueira diante da corrupção do partido, acabou reforçando e ajudando a canalizar o perigoso contra-efeito: o pretexto de anti-petismo, bastante batido pela TV, acabou se misturado com certa visão seletiva da corrupção (à direita, cegamente atacando só o PT e à esquerda, cegamente defendendo o PT). Isso consolida, primeiro a conta-gotas mas agora de forma cada vez mais sedimentada, uma grande insatisfação geral que acabou, meio acidentalmente, apontando para o “Bolsonaro 2018”.

Mas isso não explica tudo. Bolsonaro é um fascista à brasileira. E por “fascismo à brasileira”, defino

1) o governo de uma elite política (a mesma velha elite brasileira do “blocão”) ligada à elite financeira (aliás, o mesmo “blocão”), que acabará convencendo o povo no gogó – como sempre – de que cumprirá um rigorismo ligado a um Estado policialesco, com maximização da repressão policial contra os “bandidos”.
-> governo esse que seguirá com a mesmíssima corrupção já existente, inclusive ligada às empreiteiras e às propinas, distribuições de privilégios e mesadas de partidos, tendo visto que, ora bolas, o próprio Bolsonaro e seu partido estão entre os mais puros beneficiários do esquema que os bolsominions atribuem ao PT;

2) o governo que seguirá a pauta zumbi do governo Temer, ligada no discurso à “modernização” da economia,
-> mas que na prática não passa de um governo de má gestão e administração travestidos de “eficiência”, quando identifica o progresso ao velho tema de cortar na carne do povo. Será nada mais, nada menos, do que a retomada radical do velho tema do Brasil como um “moinho de gastar gente”;

3) o governo que, para apoiar o pretexto de rigorismo policialesco, acabará com todas as pautas ligadas aos direitos humanos, aniquilando toda e qualquer minoria, que se identificará ao velho disco furado da “vagabundagem”, do “crime” e da “afronta aos costumes”.

Quem apoia Bolsonaro – declaradamente ou não – acaba apoiando as idéias acima. O duplipensar é incrível. Senão, vejamos:

– Os sujeitos dizem que Bolsonaro é bom porque “acabará com a bandidagem” e “dará fim à corja do PT”, quando desconsideram que o partido do dito cujo recebeu propina igualzinho aos outros, e o próprio Bolsonaro também foi beneficiado por ganhar propina “esquentada”!

– Os mesmos acham estranho que se chame Bolsonaro de fascista, e ao mesmo tempo sustentam a idéia de que os direitos humanos devem ser banidos e a violência policial é a única boa solução para “colocar ordem na coisa”

– Finalmente – e uma das coisas mais surpreendentes – o pensamento empregado por esse tipo de gente é inteiramente negativo, isto é, vazio e amparado na reação, no contra-efeito: não há qualquer proposta ligada à existência de Bolsonaro. O que há é a canalização de um descontentamento e uma recusa de pensar, aliás ilustrada pelo método favorito dessa gente: responder uma acusação com outra acusação. É a existência motivada pela vitória do “zero a menos um”, no abandono do jogo em busca do gol contra do adversário. O mais puro reacionarismo.

Há nuvens à vista, e a enxurrada vai afundar o Brasil ainda mais… Embora o brasileiro, ora bolas, já está acostumado e até… deseja isso!

O drama dos professores

É até um pouco irônico, mas aquele poema de Brecht, tão louvado por uns e condenado por outros, nunca pareceu tão atual. Ou senão, vale dar uma olhada no que se passa com os professores hoje.

Posso dizer, inclusive, hoje. Em Curitiba, um forte policiamento evita manifestações de funcionários públicos e professores de ensino básico – aqueles perigosos elementos que o brasileiro acostumou a chamar de “as tias da escola”, pois não aprendeu a respeitar seus professores porque não respeita a si próprio.

Há agressões. Estão batendo nas “tias da escola”. O prefeito atual, Rafael Greca, repete o velho rito: travestido de iniciativa de “gestão”, tenta passar seu péssimo planejamento com uma série de atalhos, que envolvem a não contratação de novos professores, o adiamento “legal” dos reajustes salariais conforme a lei, a interferência nas aposentadorias, a não liberação de licenças-prêmio e o cancelamento da confecção do plano de carreira dos professores (que ainda não existe!).

Para passar tudo na marra, os vereadores ameaçam fazer suas coisas transportados em camburão.

Legal isso, não? O tão orgulhoso cidadão da “República de Curitiba”, seguindo tão calado diante do fato de que seus professores serão menos qualificados – pois a profissão deixa cada vez mais de ser atrativa – e, assim, os filhos dos curitibanos ficarão mais burros. Se bem que… algo há para se entender nessa equação.

E para continuar falando de hoje. No mesmo Paraná, professores da Facel (uma “Facú” particular, dizem assim no Paraná) entraram em greve porque não recebem seus salários. A notícia parece clara: a preocupação é de que os alunos não percam “qualidade” do ensino. Será preciso juntar lê com crê e dizer que não há qualidade num ensino que não respeita o professor?

No RJ, a UENF agoniza porque não consegue repor funcionários e não possui autonomia de gestão (veja o quanto faz falta a boa educação: o repórter da Globo escreve na manchete “Heitor da UENF”, e não “Reitor”). A UENF não recebe verbas corretamente desde 2015, atrasa salários e corta bolsas de pesquisa e demais atividades dos alunos. E nem vou falar da UERJ.

Voltando ao Paraná, as universidades estaduais também agonizam. O ensino de base também.

Incrível como o brasileiro está anestesiado. Levou uma pancada na cabeça. Só pode ser. É como faz com seus professores.

O que resta da mata atlântica

Le Comte de Clarac - La Foret Vierge du Bresil 1822

A notícia é praticamente irrelevante: “o que resta da mata atlântica“. Mas ela carrega muita coisa consigo.

A primeira é uma questão de sensibilidade. Por exemplo, o Brasil inteiro apenas existe devido à Mata Atlântica. Mas o brasileiro pouco a conhece. Se a conhecesse, talvez a probabilidade de preservá-la seria maior. Mas quando a conhece, muitas vezes isso se faz sob outro tipo de relação – nosso velho aventureirismo extrativista.

No Rio de Janeiro, por exemplo, permanecem alguns monumentos de outrora. A exuberância do Parque da Tijuca praticamente toca alguns outros parques urbanos, como o Jardim Botânico do Rio, onde o Imperador almoçava enquanto contemplava a floresta.

Mas é curioso, pois muito do resto do Rio não tem maior contato com a floresta senão apontando o dedo. Beleza para inglês ver. Em muitas regiões do RJ, as árvores frondosas e a identidade da Mata Atlântica são simples estorvo.

A mesma coisa se repete em inúmeros outros estados. No link acima, é possível ver a mata remanescente. No PR e SC, ela parece um pouquinho mais concentrada. Talvez um pouco mais entre o norte do PR e sudeste de SP.

Predominam os espaços pontilhados. É surpreendente ver, em tantos lugares, a simples ausência da mata. O habitante simplesmente nasce e cresce sem saber que, ali, havia tanta exuberância.

Um exemplo bastante notável é o Parque da Cidade, em Aracaju. Embora abandonado, ele concentra sobre si muito do que era a região em tempos passados. Mas a grande maioria dos sergipanos não tem tal experiência. É um verdadeiro choque visitar o parque, como se cortasse o padrão do restante da cidade.

É de se imaginar o que seria nosso país se valorizasse seus verdadeiros tesouros. A Mata Atlântica é um dos principais. Mas parecemos seguir em outra direção.

“Qualquer um aqui pode ser subornado”

É bastante temeroso ouvir os crimes enormes cometidos diariamente e não punidos. Um escravo que assassinar seu senhor se tornará um escravo do governo após ser confinado por algum tempo. Já um homem rico pode estar certo de que estará livre dentro de pouco tempo, por maior que seja a acusação contra si. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode se tornar marinheiro ou médico ou qualquer outra profissão se puder pagar o bastante. Alguns brasileiros já declararam com seriedade que o único defeito que enxergam nas leis inglesas foi não identificar qualquer vantagem dos ricos e respeitáveis sobre os pobres e miseráveis.

Os brasileiros, até onde posso julgar, possuem apenas uma pequena fração daquelas qualidades que conferem dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo. Hospitaleiros e bem intencionados até onde isso não lhes causa qualquer problema. Moderados, vingativos, mas não briguentos. Contentes consigo e com seus costumes, eles respondem a qualquer comentário perguntando: “Por que não podemos fazer como nossos avós faziam?”. Sua própria aparência pressagia sua pequena elevaçao de caráter. De vulto pequeno, eles logo se tornam corpulentos. Devido a sua pouca expressão, parecem ter a cara afundada entre os ombros. Os monges são ainda piores nesse último aspecto. Não é preciso muita fisiognomia para ver plenamente estampados em seu rosto a dissimulação perseverante, a sensualidade e o orgulho. Há um velho que sempre paro para olhar, igual apenas a Judas Iscariotes em tudo que já vi.

(Charles Darwin, Viagem do Beagle, 2 de julho de 1832 (?) – hoje foi um dia em que lembrei muito dessa passagem)

Pedra da Gávea, 9 de junho

 

Parti às seis e meia com Derbyshire para uma longa caminhada até a [pedra da] Gávea. Essa montanha fica próxima ao mar e pode ser reconhecida a grande distância por sua forma muito singular. Como boa parte das montanhas, trata-se de um cone íngreme e arredondado, mas no cume é uma massa angular plana, daí o nome de mesa ou montanha-mezena.
A trilha estreita se desdobrava em sua base sul. A manhã estava agradável, e o ar, muito fresco e perfumado. Não vi em nenhum outro lugar liliáceas ou plantas com folhas grandes em tão exuberante profusão. Crescendo à margem dos riachos transparentes sombreados e ainda assim brilhando com gotas de orvalho, elas convidavam o viajante ao descanso. O oceano azul devido ao reflexo do céu era visto em relances através da floresta. Ilhas coroadas com palmeiras davam diversidade ao nosso horizonte. À medida que passávamos, divertíamo-nos observando os beija-flores. Contei quatro espécies. A uma pequena distância, a menor delas se parecia precisamente com uma esfinge em seus hábitos e aparência. As asas se moviam tão rapidamente que mal eram visíveis. Permanecendo estacionário, o pequeno pássaro dardejava seu bico nas flores selvagens, ao mesmo tempo que fazia um extraordinário zumbido com suas asas. Os beija-flores que encontrei nas florestas afastadas e sombreadas podem ser vistos afugentando seus rivais, as borboletas. Em vão tentamos achar uma trilha para subir a [pedra da] Gávea. Essa montanha íngreme tem um ângulo de 42º. Voltamos para casa. No ponto mais distante, tivemos uma boa vista da costa por muitas milhas. A montanha era margeada por uma faixa de matagal denso por trás da qual havia uma ampla planície de pântanos e lagoas que, em alguns pontos, eram tão verdes que pareciam prados.
(Darwin, Viagem do Beagle)

Entre o bico de professor e o de garçom…

A imagem acima é do ano passado. Muitos dizem que foi exagerada. Mas e o que dizer disso, por exemplo? Breve citação:

ficar abaixo desse nível significa que os alunos não são capazes de enfrentar situações financeiras diárias para poder tomar decisões – como reconhecer o simples montante de um orçamento ou saber, em função do preço, se é melhor comprar tomates por quilo ou por caixa. De acordo com o estudo, 53% dos alunos brasileiros na faixa de 15 anos ficaram abaixo do nível de conhecimentos financeiros mínimos.

Em relação aos professores, alguém poderia lembrar que a Reforma Trabalhista, com as terceirizações e o trabalho intermitente, cria condições de interpretação perigosa. A Reforma da Previdência estabelece maior tempo de trabalho para a aposentadoria. E os índices de procura nas licenciaturas mostram que a procura para a profissão de professor tem reduzido drasticamente.

Quanto ao dado da OCDE, permite dizer:  já não dá mais nem pra ser garçom.

Não é mais normal ser professor #naoenormal

Na mesma noite, recebo dois posts: o primeiro, acusando a universidade pública em geral de “causar depressão” nos estudantes. O segundo, informando que professores “dizem sofrer” (com dois verbos, assim mesmo) censura de simpatizantes do Escola Sem Partido.

A sincronicidade é incrível.

É certo que a educação, do básico ao superior, mudou muito nos últimos anos. Mas é absolutamente surpreendente o fenômeno: onde a educação diz rigor, qualidade, reflexão, à direita acusam de doutrinação, e à esquerda acusam de tradicionalismo.

É certo que as universidades públicas ainda carregam ranços de tradicionalismo. E por isso o vídeo acima quer dizer: há professores de gerações antigas que são insensíveis a questões pedagógicas mais construtivas e utilizam sua autoridade para negar cidadania aos alunos no mundo do Saber; há igualmente certo lobby de produtivismo, mais recente, que fica intolerante às questões pessoais.

Isso está completamente certo.  Mas é inteiramente errado quando pretende generalizar. E é míope também.

Para começar o assunto, as universidades não são mais as mesmas. As públicas, que sempre tiveram pesquisa e extensão, não ditam mais as regras. Os professores cada vez mais perdem direitos e espaço que não seja o de sala de aula. Aula está se tornando a finalidade última da universidade, que está perdendo a dignidade do nome de “universidade”. Proliferam os vínculos horistas, que dispensam pesquisa. E o lobby das privadas achata, cada vez mais, o ensino num didatismo forçado, que para dar justo nome à coisa não passaria de uma forçada facilitação.

É incrível o número de professores que adoecem com isso, ou precisam não mostrar que adoecem sob a pena de perderem o emprego.

Sob pretexto de “não afetar os alunos”, as Unidunitês por aí fazem para suas avaliações bancos de questões baseadas em manuais ultrapassados (quando não, apostilas facilitantes), ou permitem sistemas de avaliações cuja única função é a de existir para dizer que algo foi feito. Muitas vezes isso tudo é coordenado por quem não tem olho na pedagogia, mas no bolso. Alunos de exatas não aprendem a calcular e de humanas não aprendem a ler. As questões analíticas são negligenciadas em nome de uma instrução programada, para não causar dificuldade ou sofrimento.

Não bastasse isso, o aluno que entra em universidade não tem formação suficiente. A coisa já vem da base. O professor é muitas vezes constrangido a fazer milagres, pois o comportamento do aluno também mudou muito. Ele não mais se dedica a fazer o mínimo. Há 20 anos existia certo pacto de mediocridade, no qual os alunos ao menos faziam o mínimo. O pacto de hoje é de não fazer nada: aprovação automática. E o professor, além do mais, precisa contemplar índices de produtividade, quer dizer, de aprovação.

O dilema é cruel: Reprovar significa demitir, aprovar significa ser desonesto e, em qualquer das duas hipóteses, o professor será visto como mal professor, sem ética, caráter ou didática. Não há para onde correr, pois a linguagem de fundo é a do dinheiro, não a pedagógica. Sob pretexto de didatismo, a TV gosta de mostrar soluções pessoais de professores mirabolantes, e não o fato de que educação requer discussão pública e suprapessoal. Mas ora bolas, diante de tanta coisa, o professor é alguém a quem é possível apontar o dedo em riste.

Vida dura, a de professor. E nem vou lembrar que a Reforma Trabalhista traz agora o trabalho intermitente, as terceirizações e os vínculos que dispensam remunerações complementares ao estrito horário em trabalho (preparar aula, qualificar-se e corrigir avaliação: pra quê?). Ou que a Reforma da Previdência aumentará o tempo para aposentadoria integral. Ou que as licenciaturas – por que será? – não são mais atrativas.

Afinal, o professor não passa de um tradicionalista que causa depressão nos alunos. Ou ainda, não passa de um doutrinador.

O abismo entre as leis e a prática

Brasil: nem uma biblioteca borgeana explica

Notícia que, daqui alguns dias ou meses, fará bafafá: “Projeto de senadora prevê demissão de servidor público estável por mal desempenho”.

Nem vou inserir link. O Brasil está tão previsível que… E está tão ruim de viver por aqui… Mas vamos lá: tempos atrás publicamos exatamente a mesma coisa, sobre a Lei Seca. Nós, brasileiros, de fato exercemos nossa vocação histórica. Fazemos isso muito bem.

existe uma lei que demite servidor público, quando o servidor público não exerce sua função pública com eficiência. Chama-se Lei 8112/90.

No Brasil acontece assim: se a lei não é aplicada, criam então uma nova lei. Mas… se a lei antiga não era aplicada… o que se fez para que agora se aplique a nova lei? Nada, meus caros. Não se corrige o problema original, que é a não aplicação da lei. Num cenário desses, o que se fará é apenas o mesmo de sempre: criar subterfúgios para punir os servidores que trabalham e mascarar os que não trabalham. Criar jeitinhos para benefícios de uns e malefícios de outros. AliásAliás

Há uma lei de verdade, informal, operando por trás da Lei formal, jurídica, vocês entendem? É a Lei do malandro e do mané, muito mais profunda do que qualquer lei escrita. É o mesmo que ocorre quando você vai ao restaurante, ao hospital, à polícia e a tantos outros lugares, sempre. Não precisa haver outra Lei além da 8112. Ela precisa apenas ser aplicada. Servidores públicos precisam ter função pública. Ponto final.

Noves fora, permanece o conto inspirado em Borges, que reproduzo abaixo.

***

Assim poderíamos imaginar um conto borgeano, sobre um lugar que criasse sempre novas e novas leis. Uma lei não sendo fiscalizada na prática, cria-se outra lei, em segunda potência. Teríamos a progressão: Lei, Lei2, Lei3, Lei4, LeiN…
Desse modo, um dia as leis seriam tão dinâmicas que, progressivamente, um número menor de contravenções motivaria cada vez mais uma nova lei, até o ponto em que apenas uma contravenção motivaria a redação de uma Lei nova.
Esse novo jardim infinito das leis geraria um curioso efeito nas contravenções: a cada lei nascente que não se fizesse valer, o número de contravenções aumentaria. Isso motivaria mais ainda a criação de novas leis, e  mostraria ser o ramo das leis o único possível de se criar algo formal, fugindo das práticas criminosas espalhadas mundo afora.
Diante de tantas leis e contravenções, os legisladores seriam ovacionados pelo povo marginal. Mundo “ideal”, apenas nas Leis.  De resto, a barbárie. A ponto de, um dia, o próprio povo tornar-se motivo de desconfiança: não seria ele essa massa de seres irresponsáveis, razão de nossa existência e trabalho árduo?
E a classe legisladora continuaria seu trabalho infinito. Afinal, era da ineficácia de toda lei que se retirava a garantia de seu ofício, e todos os seus privilégios.